sábado, 27 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tragédia na Venezuela impõe solidariedade

Por O Globo

Brasil e comunidade internacional devem prestar todo tipo de ajuda neste momento de apreensão e dor

Um Embraer KC-390 Millennium da Força Aérea Brasileira decolou nesta sexta-feira de Guarulhos (SP) com destino à Venezuela, transportando equipes especializadas e 9 toneladas de equipamentos para auxiliar em buscas e em cuidados com as vítimas dos dois terremotos que transformaram o norte do país num cenário de devastação e morte. Outro voo, previsto para hoje, transportará um hospital de campanha e medicamentos. O governo brasileiro e a comunidade internacional devem prestar todo tipo de ajuda para socorrer os venezuelanos neste momento de apreensão e dor. É hora de apoio e solidariedade não apenas de governos, mas também da população.

As vítimas fatais têm sido contadas às centenas (incluindo brasileiros), mas parece evidente que há muito mais gente sob os escombros. São mais de 50 mil os desaparecidos. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) estima haver 27% de chance de o total de mortos ficar entre mil e 10 mil, e 44% entre mais de 10 mil e 100 mil. As próximas horas e dias serão uma corrida contra o tempo para identificar quem precisa ser resgatado e tentar salvar o maior número de vidas possível. Há feridos à espera de ajuda e um longo trabalho de reconstrução. Após o resgate, será hora de tentar reparar prejuízos estimados entre 2% e 10% do PIB venezuelano, cerca de US$ 111 bilhões.

O primeiro tremor teve como epicentro San Felipe, cidade de 220 mil habitantes próxima a Caracas, e magnitude de 7,2. Menos de um minuto depois, o segundo chegou a 7,5, maior intensidade registrada desde 1900. O atrito da placa tectônica do Caribe com a sul-americana ocorreu a pequena profundidade, tornando mais forte o impacto. Somente na cidade de La Guaira, mais de cem construções vieram abaixo. Em toda a região atingida, mais que o dobro disso. Propensa a tremores, a área próxima ao epicentro registrou sete terremotos de magnitude superior a 6 no século passado.

O desastre expôs a falta de máquinas e equipamentos para retirar quem ficou preso debaixo de estruturas de concreto. Desgraçadamente para os venezuelanos, esse não é o único exemplo de negligência do governo chavista, liderado por Delcy Rodríguez desde que Nicolás Maduro, herdeiro de Hugo Chávez, foi capturado pelos americanos. Embora haja casas e edifícios resistentes a terremotos, a maioria das estruturas é vulnerável. A legislação sobre construção se tornou inócua, pois o chavismo disseminou a corrupção pela sociedade venezuelana. No ranking da Transparência Internacional sobre percepção de corrupção com 181 países, a Venezuela só está à frente da Somália e do Sudão do Sul.

Há várias maneiras de descrever o caos e o flagelo imposto aos venezuelanos. A mais eloquente é a crise humanitária. Entre 2013 e 2021, o PIB caiu 75%, e a miséria disparou. Desde 2015, um em quatro venezuelanos saiu do país em busca de vida melhor. Nunca antes na História da América Latina fora visto tamanho deslocamento, de 7,9 milhões. A tragédia não tem como causa uma guerra. Os venezuelanos tomaram a decisão dolorosa e radical de abandonar família e amigos para fugir de um governo corrupto, incompetente e autoritário. Não é possível prever quando haverá terremoto, mas esse mesmo governo é responsável pela omissão e pela leniência com construções frágeis e irregulares que vieram abaixo gerando tanta dor.

Renúncia de Starmer reflete a década perdida desde o plebiscito do Brexit

Por O Globo

Previsões negativas sobre divórcio da UE se tornaram realidade, mas é difícil imaginar retorno ao bloco

O primeiro-ministro do Reino UnidoKeir Starmer, anunciou sua renúncia ao cargo um dia antes de o plebiscito do Brexit, que determinou a saída da União Europeia (UE), completar dez anos. A crise que derrubou Starmer está ligada a múltiplos fatores, mas o pano de fundo da sexta troca de primeiro-ministro em dez anos é a insatisfação crescente da população britânica com os resultados do divórcio da UE. Fica a cada dia mais evidente que o Brexit fracassou, embora a esta altura seja difícil imaginar o retorno do Reino Unido ao bloco.

O objetivo do então premiê David Cameron ao convocar o plebiscito do Brexit era dar uma satisfação à ala eurocética do Partido Conservador para conter a direita nacionalista que se articulava em torno do populista Nigel Farage. O fracasso foi fragoroso. Não apenas o Brexit foi aprovado — por 51,9% a 48,1% — e se tornou realidade depois de intrincadas negociações com a UE, como o nacional-populismo de Farage se fortaleceu. Ele fundou um partido, o Reform UK, que se tornou uma ameaça tanto aos trabalhistas quanto aos conservadores nas urnas, hoje com apoio ao redor de 30% do eleitorado.

Ao mesmo tempo, as consequências negativas do Brexit saíram do campo das previsões para o plano dos fatos. O PIB britânico ficou entre 6% e 8% menor ao longo da década devido à saída da UE, segundo estudo do National Bureau of Economic Research. O emprego está 3% a 4% abaixo do nível em que estaria se não tivesse ocorrido o divórcio. A perda de produtividade foi de igual proporção. A inflação britânica desde o plebiscito até maio chegou a 41,4%, a maior da Europa Ocidental, excetuando a Áustria.

Nem a principal promessa que motivou o Brexit — reduzir a imigração — se tornou realidade. Ao contrário, o saldo migratório quase dobrou, de 240 mil em 2016 para 431 mil em 2024. A estratégia geopolítica de se afastar da UE para se aproximar dos Estados Unidos e de outros mercados se revelou uma quimera. Os americanos desviaram sua atenção da Europa, e o Reino Unido é hoje bem menos relevante no mundo do que era há uma década, “uma pequena economia aberta e mais exposta”, nas palavras de Adam Posen, presidente do Peterson Institute for International Economics.

Não é à toa que, em pesquisa do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR), 57% dos britânicos tenham dito que o país errou ao deixar a UE. Em pesquisa do YouGov, 62% se referiram ao Brexit como “fracasso”. O humor do eleitorado deu origem a termos como “Bregret” (arrependimento com o divórcio), “Breturn” ou “Breunion” (a volta à UE). Para 75% dos ouvidos pelo ECFR, o Reino Unido deveria estreitar laços com o bloco europeu. Não significa necessariamente retornar à UE nos mesmos termos. “A mera perspectiva de voltar ao mercado comum impulsionaria confiança e renovaria o interesse dos investidores por ativos britânicos”, diz o economista Anatole Kaletsky. O próximo primeiro-ministro terá de lidar com uma realidade incontornável: até agora, o Brexit representou uma década perdida.

Juízes e procuradores querem para si escala 1x1

Por Folha de S. Paulo

PGR e CJF aprovam mudança que permite parcelar os já abusivos 60 dias de férias em períodos de cinco dias

Em um país tão desigual, passou da hora de discutir a sério uma organização mais republicana e eficiente dos recursos públicos

Diversas seleções ainda batalham pelo posto de grande favorita na Copa do Mundo de futebol, mas, no campeonato de desfaçatez e corporativismo, esse lugar já foi ocupado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e pelo Conselho da Justiça Federal (CJF).

No ano passado, os dois órgãos resolveram modificar o regime de férias de 60 dias a que têm direito magistrados e procuradores. Não, contudo, para eliminar essa regalia injustificável prevista em lei, e sim para aprofundá-la.

Agora, essas categorias podem fracionar o descanso remunerado em 12 períodos de cinco dias cada um, o que permite evitar a sobreposição com sábados e domingos. Antes da mudança, os procuradores tinham de parcelar as férias em, no máximo, seis períodos de dez dias, e os juízes federais, em dois de 30 dias.

Como se o espírito oportunista não estivesse claro, os órgãos ainda deixaram uma brecha para permitir que as férias sejam usadas em períodos de cinco dias em semanas consecutivas, apenas pulando o fim de semana.

Feitas as contas, são 60 dias úteis de férias, 104 sábados e domingos e 18 dias de recesso forense (dos quais 4 a 6 dias coincidem com fins de semana, a depender do ano), chegando-se a cerca de 178 dias de descanso por ano, contra 187 dias de trabalho.

Ou seja, enquanto o Congresso Nacional discute a escala 5x2 para o grosso da população, o sistema de Justiça quer para si a escala 1x1.

Para ampliar essa comparação, o trabalhador em regime CLT tem 30 dias de férias e pode parcelá-las em até três vezes, desde que um dos períodos tenha no mínimo 14 dias corridos. Os outros períodos não podem ter menos de cinco dias cada um.

Isso sem mencionar que juízes e procuradores podem vender vários desses dias de férias para anabolizar a remuneração e, ainda assim, folgar muito mais do que os demais trabalhadores. Já houve casos em que o acúmulo de férias vencidas resultou em pagamentos acima de R$ 1 milhão.

A despeito desses números, a juíza Cyntia Cordeiro Santos, presidente do inexpressivo Sindicato de Magistrados do Brasil (Sindmagis), não vê privilégios. Por meio de raciocínios tortuosos, ela sustenta que são direitos.

Mas que direito é esse de desfrutar muito mais folgas do que o restante da população? Que direito é esse de receber fortunas muito além do limite de R$ 46.366, fixado pela Constituição?

Em um país tão desigual e repleto de carências, passou da hora de discutir a sério uma organização mais republicana e eficiente dos recursos que o contribuinte transfere ao Estado.

Nada mais ilustrativo sobre a premência da discussão do que o grupo de trabalho criado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para fazer um pente-fino nos penduricalhos do Judiciário: os cinco juízes que integram o grupo receberam acima do teto em 2025. Que sejam todos abnegados, pois, do contrário, estaremos diante de mais um escárnio.

Avanço contra um gargalo da educação

Por Folha de S. Paulo

É meritório que a taxa de abandono no ensino médio seja a menor da série histórica após o Pé-de-Meia

Segundo o Censo Escolar, o indicador em 2025 foi de 2,2%, ante 3,2% no ano anterior e 5,7% em 2022; trajetória estava em queda desde 2007

Quando o Pé-de-Meia foi lançado pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2024, pesquisas já indicavam o potencial de programas que oferecem incentivos financeiros a alunos de baixa renda para conter o abandono escolar.

Agora, dados do Censo Escolar 2025, divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) nesta sexta-feira (26), trazem mais consistência à hipótese dos especialistas.

O indicador se refere a alunos que deixam de frequentar a escola durante o ano letivo —já na evasão escolar, o estudante não retorna aos estudos no ano letivo seguinte. Segundo o Censo Escolar, a taxa média nacional de abandono no ensino médio no ano passado foi de 2,2%, ante 3,2% em 2024 e 3,4% em 2023.

A melhora é notável, mas, para comprovar que a redução foi induzida pelo Pé-de-Meia, são necessários estudos aprofundados. Isso porque o indicador vinha em trajetória de queda desde o início da série histórica, em 2007, quando marcou 14,9%.

A segunda menor taxa da série foi atingida no primeiro ano da pandemia, em 2020, com 2,3%. A partir daí, aumentou e chegou a 5,7% em 2022, um ponto percentual acima do índice de 2019.

Como o abandono escolar é um problema multifatorial, a redução na taxa também pode estar relacionada à reforma do ensino médio de 2017, que começou a ser implantada em 2022.

Um dos objetivos da expansão da carga horária, com disciplinas optativas para compor itinerários formativos, inclusive no ensino técnico, é melhorar a aprendizagem e o interesse dos alunos, o que contribui para diminuir o abandono e a evasão.

O incremento revelado pelo Censo Escolar, por óbvio, é meritório. Mas educação de qualidade não se resume à ocupação de vagas. E o Brasil ainda tem muito a fazer para alavancar a aprendizagem. Vamos mal em provas internacionais como o Pisa, que avalia alunos de 15 anos.

É vexatório que só 15,5% dos alunos do ensino médio se formem na idade certa (17 anos) ou com um ano de atraso e demonstrem conhecimento mínimo desejável em português e matemática, segundo indicador criado pela organização Metas Sociais a pedido do Instituto Natura.

É preciso aprofundar o diagnóstico dos resultados promissores do Pé-de-Meia e do novo ensino médio, aumentar a oferta do ensino técnico e expandir o modelo integral no ensino fundamental, além de melhorar a capacitação de professores e o acompanhamento dos alunos em defasagem que passam pelo sistema de progressão automática.

Há algo de podre no reino dos Bolsonaros

Por O Estado de S. Paulo

Briga pública entre Michelle e Flávio pelo espólio do bolsonarismo expõe a natureza egocêntrica de um movimento que nunca teve raízes fincadas no que realmente importa para o Brasil

Se Shakespeare exagerasse um pouco no vinho, talvez escrevesse um dramalhão parecido com o que a família Bolsonaro ora protagoniza para todo o Brasil. Há de tudo ali: intrigas entre madrasta e enteados, o patriarca que não pode falar por si, conspiradores que instigam a cizânia e, sobretudo, a sede irrefreável de poder. Seria divertido, se fosse apenas uma peça de teatro. Mas não: a exposição pública das vísceras da família Bolsonaro, por meio de um vídeo publicado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro com duras críticas ao enteado Flávio Bolsonaro, é uma pequena amostra da natureza degenerada do clã que tem chances consideráveis de voltar a governar o Brasil.

Essa novela só interessa aos brasileiros na medida em que abre uma fresta para testemunhar o projeto político de uma família que fez da via eleitoral um atalho para a dolce vita.

Desde que Jair Bolsonaro deixou o Exército – onde, não nos esqueçamos, foi punido por insubordinação e chegou a ser acusado de envolvimento num plano para explodir unidades militares –, migrou com sucesso para a política e construiu com os filhos algo que muito apropriadamente pode ser chamado de uma empresa familiar voltada à conquista e à manutenção do poder no seio da própria família. Mas não para implementar um projeto de desenvolvimento do Brasil, e sim para que todos, sobretudo o patriarca, pudessem viver à custa do Estado.

O bolsonarismo nunca foi uma visão de país, que dirá uma plataforma de governo. É uma habilíssima máquina de mobilização emocional de setores da sociedade construída sobre ressentimentos e a irresignação com as conquistas civilizatórias da Constituição de 1988. Nesse balaio de rancores e teorias da conspiração, entram o reacionarismo travestido de “conservadorismo de costumes”, a desconfiança nas instituições republicanas, o desdém pelo conhecimento, a hostilidade ao diálogo e o antipetismo, donde vem sua força eleitoral.

Sem o nome de Jair Bolsonaro nas urnas, o que resta é essa briga interna por seu espólio político. Michelle, uma espécie de Lady Macbeth da Casa de Bolsonaro, dá sinais de querer trilhar uma carreira política autônoma, ainda que negue publicamente essa intenção. Flávio é pré-candidato à Presidência da República. Outros filhos de Bolsonaro têm suas próprias pretensões eleitorais. Cada um se ocupa de seus interesses particulares – e o Brasil, claro, não entra nessa equação.

Nenhum dos protagonistas do reality show da família Bolsonaro perde tempo ou tem competência para discutir a sério assuntos que considera menores, como a carestia, o descontrole das contas públicas, a baixa produtividade, o desalento entre os jovens, as deficiências da educação básica e a violência urbana. Seria pedir demais. Afinal, a família Bolsonaro nunca se preocupou com nada disso. Sempre foi mais fácil apontar o inimigo – o PT, a imprensa profissional, o Supremo Tribunal Federal e o comunismo internacional, entre outros fantasmas – do que propor soluções para problemas reais sobejamente conhecidos, que exigem competência técnica, habilidade política, respeito por adversários e, acima de tudo, interesse genuíno no bem comum.

O bolsonarismo só sobrevive porque o antipetismo é uma força real e legítima na sociedade brasileira, e Bolsonaro soube como nenhum outro político se apresentar como o candidato anti-Lula. Mas, no que concerne aos interesses do Brasil, isso não basta. Apresentar-se como a nêmesis do petista não é um plano de governo. É, quando muito, uma eficiente estratégia eleitoral.

Felizmente, a sra. Michelle Bolsonaro resolveu fazer um grande favor ao Brasil ao gravar e divulgar seu depoimento a respeito de Flávio Bolsonaro. Assim, deu aos eleitores conservadores a chance de ver, com os próprios olhos, de que material é feito o bolsonarismo original. Quem sabe os estimule, finalmente, a procurar alternativas que estejam genuinamente interessadas em governar o Brasil com bom senso e dignidade – qualidades estranhas a Jair Bolsonaro e sua grei.

Tecnologia a serviço da segurança

Por O Estado de S. Paulo

Expansão do Smart Sampa alia tecnologia de ponta, participação cidadã e resultados concretos, o que dá à capital paulista mais instrumentos para resguardar a segurança da população

A Prefeitura de São Paulo deu um importante passo para aprimorar e ampliar as funcionalidades de um bem-sucedido programa da área de segurança pública da maior cidade do País, o Smart Sampa, rede de monitoramento com milhares de câmeras espalhadas pela capital paulista. O programa acaba de ganhar um aplicativo que permitirá aos cidadãos denunciar suspeitas de veículos furtados, roubados ou com placas adulteradas, integrando a população à política de segurança pública.

Por meio desse aplicativo, o munícipe poderá tirar uma foto da placa do veículo suspeito e enviá-la diretamente ao poder público. Confirmado o ilícito, a Guarda Civil Metropolitana (GCM) será acionada e somará esforços com a Polícia Militar enviando agentes ao local para, se necessário, apreender o veículo.

O furto e o roubo de veículos preocupam muito os paulistanos, assim como o roubo de celular à mão armada, não raro cometido por bandidos em motos com placas adulteradas. Logo, quanto mais ferramentas estiverem à disposição do poder público para o combate à violência urbana, melhores serão as condições de vida dos paulistanos.

A iniciativa responde a um anseio real e urgente da sociedade. Disponibilizar ferramentas acessíveis a qualquer cidadão – sem esquecer que a responsabilidade final pela segurança pública é sempre do Estado – é uma decisão que, ademais, fortalece o vínculo entre a comunidade e seus guardiões.

No contexto da expansão do programa, um helicóptero foi incorporado ao Smart Sampa, equipado com câmera capaz de realizar reconhecimento facial e leitura de placas a impressionantes 40 quilômetros de distância, além de possuir visão térmica e infravermelha para funcionar em operações noturnas. O equipamento também detecta incêndios florestais e áreas de desmatamento, ampliando sua utilidade para além da segurança pública. Trata-se de um investimento robusto e estratégico, à altura das necessidades de uma metrópole como São Paulo.

Os resultados do Smart Sampa falam por si sós. Desde novembro de 2024, o programa já levou à captura de 3.275 foragidos da Justiça e à prisão de 5.802 suspeitos em flagrante. Mais do que combater o crime, o sistema também reuniu famílias: 229 pessoas desaparecidas foram encontradas graças à rede de monitoramento espalhada por toda a capital paulista. São números expressivos que demonstram, na prática, o valor de se investir em tecnologia inteligente a serviço do cidadão, sobretudo em uma área tão sensível como segurança pública.

É de reconhecer que a Prefeitura de São Paulo não age isoladamente nesse esforço. O Smart Sampa, que já capta imagens de 50 mil câmeras instaladas pela capital, deverá dobrar de tamanho ainda neste ano, fruto de uma bem articulada parceria entre o município, o governo do Estado e a iniciativa privada. Essa integração amplia a eficiência do sistema sem onerar exclusivamente os cofres municipais – um modelo de gestão inteligente e responsável, que eventualmente pode ser replicado por outras cidades brasileiras.

O prefeito Ricardo Nunes conduziu o processo com responsabilidade. O aplicativo disponibilizado à população não realiza reconhecimento facial nem tampouco identifica suspeitos de forma autônoma, o que poderia levar a erros gravíssimos. A tecnologia, segundo a Prefeitura, foi desenvolvida em plena conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, de modo a garantir a privacidade dos cidadãos. É perfeitamente possível ampliar a capacidade de vigilância urbana com absoluto respeito às liberdades e garantias fundamentais consagradas pela Constituição.

O Smart Sampa consolida São Paulo como uma referência nacional em segurança pública inteligente. Alinhado ao programa Muralha Paulista, do governo do Estado, o Smart Sampa representa o melhor da tecnologia aplicada ao bem-estar da população. Oxalá essas melhorias contribuam para a redução da sensação de insegurança, coibindo a prática de crimes e devolvendo a paz de espírito a milhões de paulistanos. A cidade e seus habitantes merecem o melhor. E políticas públicas como essa são mais que bem-vindas – são indispensáveis.

Cuidado essencial

Por O Estado de S. Paulo

Extensão do prazo de representação em crimes de violência doméstica respeita o tempo das vítimas

A sanção da lei que amplia de 6 para 12 meses o prazo para representação das vítimas de crimes cometidos no contexto de violência doméstica aproxima a legislação da realidade vivida por milhares de mulheres no País. Ao dobrar o prazo decadencial, o Estado reconhece que o tempo da vítima nem sempre coincide com o tempo dos códigos.

A nova regra alcança delitos que ainda dependem de manifestação da vítima para que a persecução penal tenha início, como perseguição, calúnia, difamação e injúria. A alteração parte da constatação – frequentemente ignorada pelo legislador – de que a principal dificuldade enfrentada por uma mulher vítima de violência doméstica raramente é identificar o agressor. O problema é reunir condições para enfrentá-lo.

Quem estuda o fenômeno da violência doméstica sem os filtros político-ideológicos sabe que uma denúncia muitas vezes é precedida por um longo processo de amadurecimento. Medo de represálias, dependência econômica, vínculos afetivos, filhos em comum, vergonha e descrença nas instituições costumam retardar uma decisão que parece simples, mas não raro demanda um enorme esforço psicológico. Exigir que essa decisão seja tomada dentro de um prazo concebido para situações ordinárias significava ignorar a natureza extraordinária do problema.

De tempos em tempos, surgem propostas destinadas a transmitir severidade no combate à violência doméstica, como se o enfrentamento de um problema complexo pudesse ser reduzido à fixação de punições cada vez mais duras ou a soluções juridicamente extravagantes, quando não inconstitucionais. Boa parte dessas ideias gera mais repercussão política do que real proteção às vítimas. A bem-vinda ampliação do prazo para representação segue o caminho inverso. Em vez de concentrar esforços na punição após o fato consumado, procura remover uma barreira que frequentemente impede a cessação da violência e, ao fim e ao cabo, a própria atuação da Justiça.

Não faltam exemplos de países que continuam apostando no endurecimento penal para enfrentar a violência de gênero. Honduras, que registra uma das maiores taxas de feminicídio da América Latina, aprovou recentemente uma lei que eleva para até 60 anos as penas para esse crime. A medida, porém, foi recebida com ressalvas por organizações de defesa dos direitos das mulheres, que alertaram para a necessidade de fortalecer mecanismos de prevenção, proteção e acolhimento às vítimas. O episódio ilustra uma realidade esquecida no debate público: a proteção efetiva das mulheres depende de formulações legais mais sutis do que o agravamento das penas e mais sofisticadas do que as medidas concebidas para receber aplausos imediatos.

A nova lei não promete resolver sozinha uma tragédia social nem se propõe a ser um atalho legislativo milagroso. Apenas remove um obstáculo concreto enfrentado por muitas mulheres no Brasil. Já é um bom caminho. À luz da experiência, no que concerne à proteção contra a violência doméstica, costuma ser bem mais útil remover obstáculos concretos enfrentados pelas vítimas do que apostar em bravatas que as mantêm cativas do medo.

Mercosul busca novos mercados num mundo mais protecionista

Por Correio Braziliense

O Mercosul chega aos 35 anos num cenário marcado pela fragmentação das cadeias produtivas, pela disputa geopolítica entre EUA e China e pelo recrudescimento de medidas protecionistas que ameaçam o comércio internacional

A 68ª Reunião Ordinária do Conselho do Mercado Comum e a Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, que serão realizadas nas próximas segunda e terça-feira, em Assunção, no Paraguai, ocorrem em um momento decisivo para o bloco sul-americano. O Mercosul chega aos 35 anos num cenário marcado pela fragmentação das cadeias produtivas, pela disputa geopolítica entre EUA e China e pelo recrudescimento de medidas protecionistas que ameaçam o comércio internacional. Nesse contexto, ampliar mercados deixou de ser apenas uma estratégia de crescimento para se tornar uma necessidade econômica e política dos países da região.

A reunião marca também o encerramento da presidência temporária paraguaia e sua transferência ao Uruguai, que deverá dar continuidade à agenda de abertura comercial construída ao longo dos últimos dois anos. O objetivo é consolidar o Mercosul como uma plataforma de inserção internacional, reduzindo a dependência de poucos parceiros comerciais e ampliando oportunidades para exportações industriais, agrícolas e de serviços.

A prioridade do Brasil na cúpula é acelerar negociações com novos parceiros, entre eles Canadá, Emirados Árabes Unidos, Japão, Coreia do Sul, Vietnã e Indonésia. A estratégia ganha importância num momento em que Washington discute novas barreiras tarifárias sobre produtos brasileiros. Embora o mercado norte-americano continue sendo um dos principais destinos das exportações brasileiras, o governo avalia que depender excessivamente de poucos compradores aumenta a vulnerabilidade da economia.

Em termos gerais, a grande novidade da cúpula será dar início às negociações para um acordo de parceria econômica entre Mercosul e Japão. Em dezembro de 2025, foi firmado um marco de parceria estratégica entre as duas partes, e, no mês seguinte, ocorreu em Assunção a primeira reunião de diálogo político e econômico para a abertura formal das negociações comerciais.

O interesse japonês é amplo. O país busca garantir acesso seguro a alimentos, minerais críticos, energia e matérias-primas necessárias à indústria de alta tecnologia, ao mesmo tempo em que procura diversificar suas cadeias de suprimentos diante das tensões no Indo-Pacífico. Para o Mercosul, especialmente para o Brasil, a oportunidade está na ampliação das exportações de carnes, grãos, celulose, café, açúcar, etanol e produtos industrializados, além da atração de investimentos japoneses em infraestrutura, transição energética e inovação tecnológica.

As relações entre Brasil e Japão oferecem uma base sólida para esse avanço. O Brasil abriga a maior comunidade de descendentes de japoneses fora do Japão, enquanto centenas de milhares de brasileiros vivem e trabalham em território japonês. Essa integração histórica facilita o diálogo político e empresarial.

A cúpula também analisará a implementação do acordo Mercosul-União Europeia — assinado em janeiro de 2026, após mais de duas décadas de negociações, mas que enfrenta obstáculos criados por produtores rurais da Polônia e França que receiam a concorrência sul-americana, além de complexas negociações jurídicas. Governos europeus também condicionam a ratificação ao cumprimento de exigências ambientais e de sustentabilidade.

Com pauta diversa, é clara a intenção de ampliar mercados nas discussões da próxima semana. No caso da realidade brasileira, o governo acerta em sentar à mesa apostando no pragmatismo e na diplomacia, sobretudo em um momento em que a oposição, na tentativa de obter dividendos eleitorais, tem favorecido impasses econômicos. 

Resolução amplia área para intervenções nas APPs

Por O Povo (CE)

Aprovada a medida, é de se esperar que a liberação para intervenções nas APPs seja, de fato, concedida apenas em casos excepcionais, acompanhada por rigorosos estudos técnicos

Em um dos debates ambientalistas mais tensos do ano, como descreveu reportagem do O POVO na edição de ontem, o Conselho Estadual do Meio Ambiente (Coema) aprovou por 24 votos a sete, com duas abstenções, a proposta que amplia de seis para 18 metros o limite para intervenções consideradas de "baixo impacto ambiental" em Áreas de Preservação Permanente (APPs).

O auditório da Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), no Bairro de Fátima, estava lotado na sessão de quinta-feira, com militantes ambientalistas e indígenas da etnia anacé, que protestavam contra a alteração nas regras. Alinhavam-se também nesse campo o Ministério Público do Ceará (MPCE), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-CE) e organizações da área ambiental.

A favor da medida estavam entidades empresariais como a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec) e a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece).

O superintendente da Semace, João Gabriel Laprovitera, argumenta que a resolução aprovada não amplia, automaticamente, intervenções de até 18 metros, mas cria a possibilidade de ampliação da faixa "em situações específicas, mediante justificativa técnica e análise individualizada durante o licenciamento ambiental".

Para a representante do Conselho Regional de Biologia (CRBio), Juliana Borges, haverá impactos negativos que atingirão os recursos hídricos e a biodiversidade. De acordo com ela, uma intervenção de até 18 metros em uma APP suprimirá a mata ciliar, causando a perda de cobertura digital.

Além disso, segundo a bióloga, não foram apresentados estudos técnicos para fundamentar a escolha de 18 metros como novo limite. À coluna Vertical, ambientalistas afirmaram que a medida tem como objetivo viabilizar grandes intervenções em APPs, como a construção de data centers no Lagamar do Cauípe, em Caucaia.

Frente a polêmica, é preciso lembrar que o desenvolvimento econômico pode existir com respeito ao ecossistema. Na verdade, o crescimento da economia depende da preservação ambiental, pois o custo de uma devastação certamente será dobrada no futuro.

Avançar sobre áreas de preservação pode produzir resultados econômicos de curto prazo, mas aumenta o risco de fenômenos como deslizamentos e assoreamento de rios, provocando crises hídricas, principalmente no semiárido, em processo de desertificação.

Agora, aprovada a medida, é de se esperar, como asseverou o superintendente da Semace, que a liberação para intervenções nas APPs seja, de fato, concedida apenas em casos excepcionais, acompanhada por rigorosos estudos técnicos, sob pena de desvirtuamento da medida aprovada, com prejuízos irreparáveis ao meio ambiente.

O Brasil e a onda trumpista na América do Sul

Por Revista Será? (PE)

Depois que a Venezuela se ajoelhou aos pés de Donald Trump e a direita ganhou as eleições na Colômbia, grande parte da América do Sul escolheu ser o quintal dos Estados Unidos. A exceção é o Brasil e o pequeno Uruguai que, embora tenha um governo conservador, não se curva ao projeto hegemônico do inefável presidente Donald Trump. A faixa andina de nações, da Venezuela ao Chile, tende a ser o palco privilegiado das insanidades políticas e diplomáticas do presidente dos Estados Unidos, da reedição da Doutrina Monroe e da criação do chamado “Escudo da América”, supostamente para combater o crime organizado. A Argentina e, em menor medida, o Paraguai se juntam a esta avalanche direitista na América do Sul, com graus diferentes de radicalização e de adesão ao projeto trumpista.

Excetuando a Venezuela, onde Trump interveio diretamente com o sequestro do ex-presidente Nicolás Maduro, o maremoto trumpista no subcontinente decorre de eleições livres, evidenciando o esgotamento de governos que não conseguiram lidar com as crises econômicas e sociais e/ou envolveram-se em escândalos políticos. A forte inclinação à direita da região pode ter sido estimulada pelo governo estadunidense, mas constitui, antes de tudo, uma resposta dos eleitores às condições internas de insatisfação e desgaste político das velhas lideranças. Não pode ser vista como uma conquista do presidente dos Estados Unidos, mas pavimenta o caminho para o domínio de Trump na América Latina.

Na equação trumpista, falta o Brasil. O país mais importante da América do Sul – com 48% da área total, 48,5% da população e 55% do PIB do subcontinente e fronteira com quase todos os outros países – o Brasil é um grande obstáculo às ambições hegemônicas de Trump. Parece evidente, portanto, que o Brasil seja agora a bola da vez na estratégia de desestabilização de Donald Trump. Ele fala de Cuba e ameaça “tomar” a ilha do Caribe, como fez com a Venezuela, mas o seu principal delírio megalomaníaco é controlar o Brasil, incorporar o país ao seu projeto de dominação das Américas. Para isto, já deixou claro que pretende interferir nas eleições presidenciais de outubro para eleger o senador Flávio Bolsonaro, de modo a completar a onda trumpista no subcontinente. As eleições do Brasil seriam o seu “próximo grande teste”, como expressou artigo do portal New Max divulgado por Trump. Como não será fácil – o Brasil está longe de viver uma crise econômica ou social, como a maioria dos países vizinhos – o mesmo artigo citado por Trump levanta suspeitas sobre o sistema eleitoral brasileiro, como se deixasse em aberto uma alternativa golpista. O Brasil já mostrou que não aceita a quebra das regras institucionais e eleitorais, mas os brasileiros precisam manifestar nas urnas a repulsa à ingerência de Trump nos assuntos internos do país.

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