Rever isenções tributárias é imperioso
Por O Globo
É preciso extinguir o que não funciona para
destinar benefícios a atividades com retorno comprovado
Faltando pouco mais de três meses para as
eleições, governo e oposição fazem de tudo para fugir de temas fundamentais,
mas impopulares. Nenhum candidato quer nem ouvir falar de reduzir isenções
tributárias. Ninguém quer ser acusado de “prejudicar” algum setor ou “ameaçar”
empregos em alguma região. Nem mesmo instaurar alguma política para avaliar a
eficácia dos programas. Uma vez concedidos, isenções e benefícios têm
permanecido doravante inalterados para sempre, e o país tem pagado custo cada
vez mais alto.
Pelas contas do próprio governo, a renúncia fiscal da União equivale a 4,4% do PIB, embora a legislação tenha estabelecido um limite de 2%, há muitos anos desrespeitado. Graças à sanha inesgotável de grupos de interesse por toda sorte de isenção, essa proporção tem aumentado consistentemente desde 2011, quando estava ao redor de 3,5%. Considerando o desequilíbrio crônico das contas públicas brasileiras, abdicar de tanta receita — R$ 613 bilhões neste ano, ou 20% da arrecadação administrada pelo Fisco — não faz o menor sentido. A situação é ainda mais dramática por não haver avaliação sistemática dos benefícios, apesar dos movimentos nessa direção.
As distorções são patentes. Nos Estados
Unidos, um dos setores beneficiados com isenção de imposto são os
semicondutores, base da economia digital. No Brasil, a empresa com maior
renúncia é o braço da Honda que fabrica motos. Enquanto o mundo se prepara para
a era da inteligência artificial, o foco brasileiro está num produto do século
XIX. Segundo análise do Ministério da Fazenda com dados de 2024, 44% das
renúncias são destinadas a setores de baixa complexidade econômica e 46% aos de
baixa intensidade tecnológica — e a Fazenda deixou fora do cálculo o Simples
Nacional, responsável pela maior fatia das isenções, inacreditáveis R$ 134
bilhões neste ano.
Ganha destaque na lista a Zona Franca de
Manaus (R$ 36 bilhões). Concebida como temporária, tornou-se permanente, embora
traga ineficiência na alocação de recursos. Uma coalizão pan-amazônica de
partidos e empresas argumenta que os empregos gerados pelas isenções contribuem
para ocupar uma população que, de outro modo, seria atraída pelas atividades
que devastam a Amazônia. Mas esquece que montar motos ou aparelhos de ar
condicionado não tem relação com a vocação da região ou que a logística para
produção em território tão remoto é insana — e emite carbono.
Os benefícios tributários prosseguem em
dezenas de linhas de renúncias bilionárias: carnes, agricultura, combustíveis,
automóveis, embarcações e aeronaves, fármacos, eventos, microempreendedores
individuais, informática e automação, deduções de Imposto de Renda,
petroquímica, construção civil, transporte coletivo, futebol e até água
mineral. Cada região ou setor agraciado usa os argumentos possíveis e
impossíveis para manter as vantagens. A pressão sobre o Congresso é enorme, e o
resultado é a inação.
É perfeitamente possível que diversas dessas
isenções se justifiquem, ainda que temporariamente. Mas como saber isso sem ao
menos promover avaliações independentes? Só assim será possível extinguir o que
não é mais necessário para destinar benefícios a atividades com retorno
comprovado para a sociedade. As isenções estão voltadas ao passado, e o governo
que assumir em janeiro terá de olhar para a frente.
Conversão de Lula à abertura comercial merece
ser aplaudida
Por O Globo
Em contraste com seus primeiros mandatos,
presidente tem dado prioridade a acordos de livre-comércio
Não muito tempo atrás, a esquerda brasileira
via o livre-comércio como uma agenda “neoliberal” e tratava acordos comerciais
como tabu. O desenvolvimentismo arcaico que influencia o PT desde a fundação
sempre se revestiu do manto protecionista que até hoje faz do Brasil uma das
economias mais fechadas do mundo. A volta de Donald Trump à Casa Branca e seus
sucessivos rompantes tarifários parecem, porém, ter começado a mudar essa
mentalidade. Diante do protecionismo de sua nêmesis, a esquerda brasileira
paradoxalmente tem aderido a princípios liberais e adotado como prioridade a
abertura do Brasil a mercados externos. No novo discurso, a palavra empregada
pelo governo Luiz Inácio Lula da
Silva é “multilateralismo”, mas a essência é a queda de barreiras comerciais —
a própria definição de liberalismo.
A negociação com a União
Europeia (UE) que se arrastava havia décadas foi finalmente
concluída em janeiro. Em setembro passado, o Mercosul entrou
em acordo com Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça, integrantes do bloco
conhecido pela sigla EFTA. É esperado para o fim do mês, durante a 68ª Cúpula
de Chefes de Estado do Mercosul, o início de negociações com o Japão, cujo
objetivo é alcançar um eventual tratado de livre-comércio. Conversas com o
Canadá estão em fase final. Embora impasses persistam, a expectativa é a
conclusão de um acordo de livre-comércio nos próximos meses. Há reuniões marcadas
com representantes de Emirados Árabes Unidos, Vietnã e Indonésia, além do
interesse expresso em avançar o diálogo à Coreia do Sul.
Antes mesmo da eleição de Trump, o governo
brasileiro já dava sinais de estar mais aberto. No fim de 2023, durante cúpula
do Mercosul no Rio, foi criada uma área de livre-comércio com Cingapura, a
primeira concluída desde 2011. O contraste com o primeiro e o segundo mandatos
de Lula é notável. Entre 2003 e 2006, o Brasil assinou apenas um acordo (e
somente de preferências tarifárias) com um país fora da América Latina, a
Índia. De 2007 a 2010, o Mercosul só fechou negociações de livre-comércio com
Israel e Egito, além de outra de menor escopo com África do Sul, Botsuana,
Lesoto e Namíbia. Na época, nenhuma dessas economias tinha tamanho relevante, e
apenas a israelense podia ser considerada rica. Felizmente, agora não parece
haver restrição de dimensão e estágio de desenvolvimento dos parceiros
comerciais.
Com a barreira tarifária imposta por Trump, exportadores brasileiros com presença nos Estados Unidos foram forçados a encontrar novos mercados. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o Brasil registrou em 2025 recorde de vendas para 42 países. No novo contexto global, acordos preferenciais e de livre-comércio são cruciais para fortalecer as vendas externas. Ainda que tardia, a conversão de Lula à abertura comercial merece ser aplaudida.
Inteligência artificial tornou-se fato
consumado no Brasil
Por Folha de S. Paulo
População se divide sobre benefícios e
prejuízos da tecnologia, mostra Datafolha
Folha vê com otimismo a onda de inovações
deflagrada com a disseminação das IAs generativas, pois ela vai impulsionar o
bem-estar pelo aumento da produtividade
A inteligência artificial está
na cabeça e no cotidiano dos brasileiros. De acordo com a pesquisa nacional
deste mês de junho do Datafolha,
86% dos entrevistados afirmam conhecer ou ter ouvido falar da tecnologia.
Entre eles, a maioria (52%) declara já tê-la utilizado.
As expectativas sobre qual será o efeito
líquido da chamada inteligência artificial generativa na vida de cada um estão
divididas. Um terço avalia que a inovação trará mais benefícios que prejuízos,
outro terço pensa o contrário e os demais que opinaram (26%) preveem impacto
neutro.
A opinião pública se divide em duas parcelas
equivalentes quanto ao temor de que a sua profissão desapareça pela ação da IA.
As respostas tornam a ficar largamente
majoritárias —e negativas— quando os participantes são indagados sobre se os
modelos deveriam tomar decisões como as de contratar e demitir profissionais,
aprovar empréstimos bancários e definir tratamentos médicos. Humanos são mais
confiáveis nessas tarefas para mais de dois terços dos brasileiros.
Uma interpretação plausível dos principais
achados da pesquisa é a de que a IA depressa se tornou um fato consumado no
Brasil, há relativa incerteza sobre a linha geral de seus benefícios e ampla
rejeição a que a responsabilidade por decisões cruciais seja alienada para
essas poderosas máquinas computacionais.
Esta Folha vê com
otimismo a onda de inovações que cruzou o rubicão com o lançamento do
ChatGPT, em novembro de 2022. Ela tem liberado energias
transformadoras em praticamente todos os setores da atividade e em escala
planetária. Onde quer que haja um padrão, por complexo que seja, as novíssimas
ferramentas de IA logram decifrá-lo, automatizando tarefas e reduzindo as
falhas e o tempo de sua execução.
Decerto subsistem os riscos inerentes a
qualquer revolução tecnológica. Alguns empregos vão se tornar obsoletos,
enquanto outros irão surgir ou ganhar proeminência. A transição será tanto mais
benéfica quanto mais instruída for a população, mais livre for o ambiente para
inovar e competir, mais resistentes forem as defesas contra a cartelização e
mais eficiente for o gasto social.
Há que combater o hábito das velhas elites
política, empresarial e corporativista brasileiras de impor barreiras à
absorção tecnológica, das quais com frequência constam a criação de empresas
estatais e privilégios privados.
Não é preciso inventar burocracias, agências
ou labirintos regulatórios para enfrentar os comportamentos lesivos dos
conglomerados globais que lideram a corrida pela IA, como o seu péssimo costume
de roubar conteúdo de terceiros para o treinamento e a operação de seus
modelos.
Jamais deveria sair do foco nesse debate o
interesse coletivo na prosperidade. É aspiração atemporal da humanidade ter
acesso crescente a bens e serviços —e reduzir a necessidade de dedicar esforço
pessoal a atividades pouco criativas e compensadoras.
Terremotos aprofundam a tragédia social na
Venezuela
Por Folha de S. Paulo
País vive sob governo tutelado pelos EUA e
está longe de voltar à democracia
Ainda engatinham as reformas para superar o
desastre produzido por quase três décadas de bolivarianismo; maioria da
população é pobre
Dois
terremotos de alta magnitude e simultâneos na noite de
quarta-feira (24), seguidos por sismos menores, resultaram em calamidade humana
na Venezuela,
onde a população sofre com os malefícios dos quase 30 anos de bolivarianismo e
hoje vive sob um governo
tutelado pelos Estados Unidos e de legitimidade questionada.
A economia em frangalhos, a corrupção
sistêmica do chavismo e a situação de pobreza de 68% da população agravam a
tragédia no país vizinho.
Dados divulgados pelo Palácio de Miraflores
na sexta-feira (26) listavam 920 pessoas mortas, 4.300 feridas e pelo menos 50
mil desaparecidas no norte do país, sobretudo no estado de La Guaira. A
contagem tende a elevar-se a dezenas de milhares de vítimas até o fim das
dramáticas buscas nos escombros.
A presidente interina, Delcy Rodríguez,
declarou a Venezuela como "zona de desastre" e decidiu restringir o
acesso a La Guaira. Na quinta-feira (25), criou um fundo de US$ 200 milhões
para a futura reconstrução física, graças a repasses do Fundo Monetário
Internacional. A destruição e a crise humanitária, entretanto, estão longe de
ser dimensionadas.
Os terremotos atingiram um país que ainda
engatinha no desmonte da economia bolivariana —uma diretriz de Washington, que
aliviou sanções, a ser executada por chavistas históricos.
Medidas anunciadas nos últimos meses
prenunciam a abertura da mineração e do setor petrolífero aos investimentos
estrangeiros, a renegociação da dívida pública estimada em US$ 240 bilhões
(200% do Produto Interno Bruto) e a futura privatização ou liquidação de
estatais.
Em cinco meses de intervenção dos EUA, a
Venezuela continua distante da democracia. O regime amenizou seu ímpeto
repressor, mas os planos de Washington de concluir a reestruturação econômica
do país antes do início da transição política tendem a adiar as chances de
eleições para além de 2028.
A crise humanitária sugará recursos escassos
do Estado. A maioria dos venezuelanos depende de subsídios e cestas básicas do
governo, vive de empregos precários e enfrenta a carência de atendimento
médico. Desse estrato certamente virá o grosso da lista de vítimas.
A solidariedade da comunidade internacional mostrou-se rápida, incluindo a ajuda de US$ 150 milhões dos EUA. A questão de fundo, cuja resposta será protelada ainda mais pela calamidade humanitária, é até quando a cidadania venezuelana estará apartada da definição de seu destino.
Ao Supremo o que é do Supremo
Por O Estado de S. Paulo
Está em curso um movimento para fazer do STF
uma corte revisora do TSE até em casos sem matéria constitucional inequívoca.
Não se rasga a Carta por interesses circunstanciais
A poucos meses do início oficial da campanha
eleitoral, uma tensão institucional tem ganhado corpo ao arrepio da
Constituição. Ao que parece, está em curso um movimento para fazer do Supremo
Tribunal Federal (STF) uma espécie de corte revisora do Tribunal Superior
Eleitoral (TSE) mesmo em casos que não envolvam matéria constitucional
inequívoca.
Os sinais dessa movimentação estão à vista de
todos. Como este jornal publicou há poucos dias, alguns ministros do STF
passaram a atuar diretamente em casos de evidente impacto eleitoral como
anteparos, digamos assim, à condução dos trabalhos da Corte Eleitoral pelo
ministro presidente Nunes Marques. Especialistas ouvidos pelo Estadão alertaram para o
risco de um “drible” institucional por meio do esvaziamento de competências que
a Lei Maior reservou expressamente ao TSE.
Nesse sentido, é exemplar o episódio
envolvendo Romeu Zema (Novo), que fez críticas satíricas aos ministros Gilmar
Mendes e Dias Toffoli. O caso – que nem sequer deveria ter chegado a um
tribunal superior – foi rapidamente atraído para a órbita do Supremo, malgrado
estar inserido no contexto da pré-campanha. Em Roraima, por sua vez, a
discussão sobre as regras aplicáveis às eleições suplementares no Estado levou
o STF e o TSE a se pronunciarem simultaneamente sobre a mesma matéria, gerando
insegurança jurídica quanto ao resultado do pleito.
O problema não é a revisão de um ou outro
julgado da Justiça Eleitoral pelo STF, hipótese plenamente coadunada com a
ordem jurídica vigente quando há matéria constitucional em discussão. O risco é
a gradual degradação do papel institucional do TSE por questões alheias ao
Direito. Se qualquer controvérsia eleitoral puder ser carreada ao Supremo a
depender das veleidades de um ou outro ministro, o TSE deixará de ser, na
prática, a instância máxima da jurisdição eleitoral. Não foi isso o que o
constituinte originário autorizou.
O desenho institucional brasileiro distribuiu
com clareza papéis e responsabilidades entre os tribunais superiores. Ao STF,
como se sabe, cabem a guarda da Constituição e o julgamento de ações penais que
envolvem algumas autoridades com prerrogativa de foro. Ao TSE cabe conduzir as
eleições e dar a palavra final sobre a aplicação da legislação eleitoral. O
arranjo sempre foi esse, simples e equilibrado.
O TSE, obviamente, não é um puxadinho do STF.
Sua existência responde à necessidade de conferir especialização, estabilidade
e uniformidade à aplicação das normas eleitorais. Esvaziar suas funções por
meio de intervenções descabidas implica enfraquecer o modelo institucional
consagrado pela Carta de 1988.
Mais preocupante ainda é a impressão de que
esta súbita necessidade de supervisão do TSE, digamos assim, coincide com a
mudança da presidência da corte. Ora, as competências constitucionais não
variam conforme a identidade dos ocupantes de cargos públicos. Não se amassa a
Constituição por interesses circunstanciais. O alcance das atribuições do TSE
não pode ser ampliado sob um presidente nem restringido sob outro. Isso vale
para interferências externas.
Não há democracia sólida onde as regras de
competência são elásticas. Quando há matéria constitucional em jogo,
evidentemente a palavra final cabe ao Supremo Tribunal Federal. Fora dessa
hipótese, não é dado ao Supremo ampliar o alcance de suas atribuições, muito
menos para se apresentar como espécie de interventor na Justiça Eleitoral.
O TSE e o STF são autônomos dentro das
competências que a Lei Maior lhes atribui. A manutenção desse equilíbrio é
comando, não ato de vontade. A Constituição impede a concentração de poder em
qualquer instituição republicana. Contorná-la em nome de conveniências
circunstanciais não fortalece a democracia brasileira. Ao contrário: enfraquece
a arquitetura de freios e contrapesos sobre a qual repousa o Estado Democrático
de Direito.
Uma tragédia de múltiplas faces
Por O Estado de S. Paulo
Dados do IBGE sobre analfabetismo expõem
Brasil que avança a passos lentos demais na educação e ainda condena os mais
velhos e os negros a uma herança de exclusão
A taxa de analfabetismo entre brasileiros com
mais de 15 anos caiu abaixo de 5% pela primeira vez na série histórica, de
acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No ano
passado, o indicador ficou em 4,9%. A boa notícia acaba aí.
Segundo dados do módulo de educação da
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, em 2025, nada
menos do que 8,4 milhões de pessoas em todo o País ainda não sabiam ler e
escrever. Uma verdadeira tragédia. Mais da metade dessas pessoas, 4,8 milhões,
está concentrada no Nordeste.
No Brasil, o analfabetismo é também mais
frequente entre os cidadãos mais velhos e entre pretos e pardos. Na faixa
etária acima dos 60 anos, quase 5 milhões de pessoas não sabiam ler ou escrever
um simples bilhete.
Cerca de 2,8% da população branca com 15 anos
ou mais era analfabeta; entre pretos e pardos na mesma faixa etária, o
porcentual foi de 6,5%. Entre os maiores de 60 anos, a taxa de analfabetismo
entre pretos e pardos chegou a 20,6% no ano passado – quase o triplo da verificada
entre os brancos (7,3%). Os números são o retrato das dificuldades históricas
que esse grupo enfrenta no acesso à educação.
O analfabetismo é o sinal mais evidente – e
cruel – do atraso educacional brasileiro. Mas é apenas uma das faces dos
múltiplos desafios que o País acumula na formação de seus cidadãos. A ele se
somam a estagnação ou o recuo das universidades brasileiras em rankings
internacionais.
Tampouco se pode ignorar o vasto contingente
de brasileiros que, a despeito de terem frequentado a escola ou até mesmo a
universidade, são considerados analfabetos funcionais: pessoas que sabem ler e
escrever, mas são incapazes de interpretar um texto elementar ou realizar uma
conta simples.
Um estudo divulgado no ano passado pela
organização Ação Educativa e pela consultoria Conhecimento Social revelou que o
analfabetismo funcional entre a população de 15 a 64 anos ficou em 29% em 2024,
o mesmo patamar registrado em 2018. O levantamento também apontou que apenas um
em cada quatro brasileiros nessa faixa etária – o equivalente a 23% da
população – tinha nível elevado de habilidade digital.
Numa era em que dominar aplicativos de
celular é tão essencial quanto saber o abecedário, a maioria dos brasileiros
tem dificuldade para executar tarefas básicas por meios digitais, como
inscrever-se num evento pela internet ou localizar um filme numa plataforma
de streaming.
Como se vê, os desafios da educação
brasileira são múltiplos e especialmente concentrados entre os mais velhos e os
pretos e pardos – justamente as camadas mais vulneráveis da população, que
tanto precisam da educação para se libertar de mazelas históricas.
Por tudo isso, é desalentadora a constatação
do IBGE de que um em cada quatro jovens de 14 a 29 anos não tem interesse em
estudar. É impossível dissociar esse dado dos inúmeros obstáculos que os
brasileiros enfrentam para exercer um direito constitucional: o acesso à
educação pública de qualidade.
Mesmo quando supera a barreira inicial do
acesso à escola, o estudante do ensino médio ou superior ainda precisa lidar
com aulas frequentemente desestimulantes – em parte porque o professor
responsável por transmitir o conhecimento nem sempre obteve a formação de que
necessitaria para fazê-lo bem.
O País tem diante de si a tarefa urgente de
repensar como educa seus cidadãos, dos pequenos aos universitários, sem
esquecer os responsáveis por transmitir esse conhecimento.
Nem mesmo avanços como o recuo do
analfabetismo conseguem mascarar a realidade de uma sociedade formada por
cidadãos mal instruídos e, por isso mesmo, pouco produtiva e profundamente
desigual. Ao fim e ao cabo, em pleno século 21, milhões de brasileiros ainda
não sabem ler nem escrever – e, ao que parece, isso não tira um minuto de sono
daqueles que almejam liderar esta nação.
Justa atenção aos invisíveis
Por O Estado de S. Paulo
Com a Pnais Rua, Ministério da Saúde começa a
tratar como cidadãos brasileiros que vivem largados à própria sorte
O Ministério da Saúde lançou recentemente a
Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População em Situação de Rua
(Pnais Rua). Trata-se de uma iniciativa que visa a atender aqueles que são os
mais excluídos entre os excluídos. É bem-vinda toda e qualquer política pública
que busque socorrer os brasileiros que vivem às margens da cidadania,
perambulando pelas ruas e praças Brasil afora sem perspectiva alguma de uma
vida digna.
O governo federal acerta ao implementar a
Pnais Rua, fortalecendo a gestão tripartite do Sistema Único de Saúde (SUS).
Isso quer dizer que a administração federal não está agindo sozinha: a política
pública voltada à população em situação de rua será estruturada por meio de
parcerias concretas com Estados e municípios. Afinal, esses brasileiros
invisíveis não vivem na União.
De um lado, o governo federal vai investir R$
144 milhões e repassar 400 Unidades Móveis de Rua (UMR) para municípios com
mais de 100 mil habitantes ou com mais de 80 habitantes em situação de rua,
além do Distrito Federal. De outro, as administrações locais vão gerir esses
veículos que serão equipados para realizar consultas médicas, pré-natais e de
enfermagem, fazer curativos, realizar exames e entregar medicamentos. As UMRs
serão incorporadas ao programa Consultório na Rua, que já está em ação e é
voltado ao atendimento da população em situação de rua.
Durante o lançamento da Pnais Rua, em evento
na cidade de São Paulo, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que a
ideia é fazer uma “busca ativa” dos pacientes. Segundo ele, o objetivo é
“cuidar melhor dessas pessoas”, destacando a diversidade do perfil dessa
população e demonstrando a especial preocupação do poder público com as
gestantes que vivem a dura realidade das ruas. Como bem disse Padilha, “não
podemos ficar esperando uma gestante procurar a Unidade Básica de Saúde para
iniciar o pré-natal”. Trata-se de um duplo cuidado, com a mãe e com o bebê.
Mas não só isso: a Pnais Rua vai ser mais
abrangente. Além da atenção integral à saúde, serão implementados os seguintes
eixos de atuação: enfrentamento de discriminações, entre elas a aporofobia, o
racismo e a homofobia; realização de estudos para analisar o impacto dos
preconceitos sobre a saúde; coleta e monitoramento de dados pelas equipes para
o aprimoramento da política pública; gestão participativa; formação permanente
dos gestores e profissionais do SUS; e ações de articulação entre saúde, assistência
social e outras áreas para ampliar o acesso à segurança alimentar, à nutrição
adequada e a políticas de redução das desigualdades.
O número de brasileiros que vivem nas ruas, por inúmeros fatores, tem aumentado de forma considerável. Há estudos com base em dados oficiais, como o CadÚnico, que apontam a presença de mais de 380 mil pessoas vivendo em situação de rua no País. São brasileiros que demandam e merecem receber atendimento integral e digno em saúde. Deixá-los largados à própria sorte é mais do que negligência, é uma imoralidade.
Ações coletivas e individuais contra o
diabetes
Por Correio Braziliense
O Dia Nacional do Diabetes precisa ser
lembrado como um alerta permanente, a ser observado não apenas em 26 de junho,
mas durante o ano inteiro.
O Dia Nacional do Diabetes, lembrado na
última sexta-feira, alerta para um dos desafios mais relevantes da saúde
pública brasileira. Segundo as estatísticas oficiais, há pelo menos 16 milhões
de pessoas acometidas com o diabetes 2. Diferentemente do diabetes 1, doença
hereditária identificada muitas vezes durante a infância, essa variante adquire
as características de uma doença crônica entre adultos, decorrente da produção
insuficiente ou da má absorção da insulina, hormônio responsável pelo controle
do açúcar no sangue. O diabetes tipo 2 se torna uma ameaça real quando
associada a hábitos como alimentação inadequada, sedentarismo e obesidade,
fatores de alto risco para a saúde do organismo.
Do ponto de vista de saúde pública, a
primeira providência é ampliar o diagnóstico precoce. No caso do diabetes,
quanto mais cedo se identificar os sinais no paciente, maiores as chances de
evitar as consequências mais graves da doença. Uma face dolorosa desse processo
ocorre quando o paciente descobre os efeitos avançados do distúrbio e é
submetido a uma medida drástica: a amputação dos membros inferiores.
Para a Sociedade Brasileira do Diabetes,
superar a desigualdade regional no atendimento médico constitui tarefa
imediata. Na região Nordeste, observa-se uma alta incidência de mortes prematuras
relacionadas ao diabetes — são 34 casos por 100 mil habitantes. É preocupante,
também, o grande número de casos de amputação de membros inferiores. De 2012 a
2021, o número de mutilações cresceu 173% em Alagoas e 146% no Ceará. "As
amputações evidenciam iniquidades no acesso oportuno ao diagnóstico e
seguimento do tratamento, especialmente em regiões com vazios assistenciais
especializado e preventivo", afirma a doutora Bianca Pititto, coordenadora
do Departamento de Saúde Pública, Epidemiologia, Economia da Saúde e Advocacy
da Sociedade Brasileira de Diabete (SBD).
Os desafios no atendimento ocorrem tanto em
regiões desassistidas — Roraima, no Norte, registrou aumento de 160% no número
de amputações — quanto nos estados mais populosos do país. Ainda de acordo com
a SBD, mais de 40% das amputações de membros inferiores estão concentradas na
região Sudeste. Isso ocorre em razão da grande demanda por serviços de saúde.
"As populações fora dos centros metropolitanos enfrentam obstáculos
persistentes, como as longas distâncias até unidades de referência, a escassez
de serviços de saúde especializados, o atraso no diagnóstico e fragmentação do
cuidado", constata Bianca Pititto. "Tudo isso leva a menor
continuidade e adesão ao tratamento", alerta.
Reforçar a atenção primária constitui,
portanto, medida essencial para o tratamento profilático do diabetes. Existem
iniciativas relevantes nesse sentido. Em abril, o Ministério da Saúde lançou a
Campanha Lava-Pés 2026, com foco na atenção aos pacientes que sofrem de pé
diabético, uma das manifestações da doença em estágio crônico. A parceria com a
Universidade Federal de Pernambuco teve como objetivo avaliar o público em
geral e repassar orientações sobre alimentação saudável, uso de medicamentos,
práticas de autocuidado, além de aferição da pressão arterial. Realizada em
Unidades Básicas de Saúde, a iniciativa buscou alertar, de forma especial, para
a prevenção de complicações como feridas, infecções e amputações.
Tão importante quanto a ação do poder público
é a conscientização da sociedade. É absolutamente fundamental o brasileiro
adotar hábitos saudáveis a fim de evitar os efeitos maléficos da doença.
Exercícios físicos frequentes (mais de 150 horas de atividade aeróbica por
semana, recomendam os médicos), controle da alimentação e exames periódicos são
ações que podem reduzir muito o sofrimento individual e familiar, além de
evitar a sobrecarga nos serviços públicos de saúde.
O Dia Nacional do Diabetes precisa ser lembrado como um alerta permanente, a ser observado não apenas em 26 de junho, mas durante o ano inteiro. A batalha contra esse mal exige disciplina, consciência e organização. O Brasil é capaz disso.
Combate à LGBTfobia: o modelo do CE contra a
violência
Por O Povo (CE)
Enquanto o Brasil sofre com a falta de leis
federais para a população LGBTQIAPN+, o Ceará se consolida como referência em
políticas públicas. Com queda de 43% nos homicídios e a 25ª Parada da
Diversidade, o Estado mostra a importância do investimento público estruturado
A realidade dos direitos LGBTQIAPN no Brasil
expõe uma contradição estrutural. Enquanto a ONU alerta para discursos
conservadores globais e restrições a políticas de diversidade, o País lida com
a precariedade de suas conquistas. Garantias como o casamento igualitário e a
criminalização da homotransfobia carecem de base legislativa, dependendo de
decisões do Judiciário diante da omissão do Congresso. Essa lacuna gera
insegurança jurídica e transfere para as ruas a garantia da cidadania.
Nesse panorama, Ceará e Fortaleza
consolidam-se como referências em políticas públicas e transparência. A
criação da Secretaria da Diversidade (Sediv) e da Delegacia de Repressão aos
Crimes por Discriminação (Decrim), em 2023, alterou o paradigma de
enfrentamento às violações. A Portaria nº 0644/2023 determinou o tratamento
prioritário de crimes violentos contra o público LGBT como crimes de ódio,
criando também o Painel de Monitoramento da Violência LGBTfóbica.
A rede inclui os Centros Janaína Dutra e Tina
Rodrigues, expandindo-se com a Casa da Cidadania do Cariri, no Crato, em
parceria com a UFC. A fixação obrigatória de placas contra a discriminação em
comércios impulsionou denúncias. A gestão local aposta ainda na
transversalidade entre pastas, incluindo a Educação, o Desenvolvimento Agrário
e parcerias com o Banco do Nordeste, via Credamigo, que geram autonomia por
microcrédito.
Os dados refletem essa estruturação: no
Ceará, os homicídios contra a população LGBT caíram 43% entre 2023 e 2025. Em
contrapartida, as queixas de homofobia (317) e transfobia (91) somaram 408
registros em 2025, alta de 10% ante 2024. O aumento sinaliza o combate à
subnotificação e maior confiança nos canais oficiais. No âmbito civil, o Estado
celebrou 5.172 casamentos homoafetivos até abril de 2025.
A mobilização social tem ápice na Parada pela
Diversidade Sexual do Ceará, na Avenida Beira-Mar. Organizado pelo Grupo de
Resistência Asa Branca (Grab), o ato deve reunir neste domingo 1,5 milhão de
pessoas, sendo o segundo maior do País. O lema "25 anos combinando de não
morrer" conecta a pauta à agenda antirracista, celebra a vida e denuncia a
violência que segue presente no cotidiano.
O cenário exige vigilância contínua. Enquanto
empresas recuam no apoio a grandes atos por cautela reputacional perante a onda
conservadora, o modelo cearense atesta que o investimento público estruturado
é indispensável para assegurar direitos humanos. O Estado cumpre seu papel ao
interiorizar serviços, capacitar a segurança, produzir dados e encarar não só o
combate e a punição às violências, mas também a necessidade de garantir acessos
educacionais, econômicos, de saúde.
À sociedade cabe rejeitar a discriminação nos
ambientes cotidianos, vigiar para que os direitos conquistados permaneçam e
agir cotidianamente para que uma vida plena seja a realidade para todos. A
cidadania plena requer consolidar garantias permanentes, assegurando que o
direito de existir não dependa de oscilações políticas.

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