O Estado de S. Paulo
A face política do trumpismo se delineia numa reatualização da Doutrina Monroe mediante um ‘corolário’ intervencionista
Quem lê o excelente Leonardo Padura
frequentemente encontra o elogio de uma vida menos assombrada pelos grandes
dramas da História, reais ou supostos. O escritor cubano refere-se, acima de
tudo, à situação intensamente sofrida pelos seus conterrâneos desde a criação
do moderno mito revolucionário latino-americano, formado em torno da guerrilha
dos idos dos anos 60. Para eles, tudo teve, ou ainda tem, imediata dimensão
histórico-universal, quer congressos partidários ritualizados, quer eventos
muito graves, como invasões frustradas e até uma catástrofe nuclear abortada no
último momento.
Padura deseja a todos, não só aos que lhe são próximos, uma existência mais equilibrada entre o privado e o público, o cotidiano e a História. Não sabe o que acontecerá com seu país, constrangido como está entre a necessidade de amplas reformas internas e a agressiva pressão do grupo dirigente trumpista. Para este último, como se sabe, mudanças radicais são necessárias na ilha e, de resto, em toda a América Latina. O que Padura sabe com certeza é que entre tais mudanças não se conta a defesa ou a reconstrução da democracia, mas, antes, a disseminação de governos e coalizões de extrema direita promotores de um mercado sem regras. E pelo visto, respeitadas as devidas particularidades, daqui por diante todos compartilharemos sobressaltos comuns.
Para entender o fantasma que nos ronda,
sempre é interessante tentar circunscrever os múltiplos sentidos do trumpismo.
“Significante vazio”, tal como o conceito de populismo para Ernesto Laclau, a
nova ideologia pode acolher diferentes demandas e adquirir significados distintos.
Acompanhamos seus porta-vozes em momentos inaugurais, como quando J.D. Vance,
na muitas vezes citada conferência de segurança em Munique, ainda no início do
segundo mandato de Trump, traçou os contornos civilizacionais da luta política
interna e global.
Em síntese extrema, os países de democracia
mais consolidada teriam insidiosos inimigos internos – os imigrantes – que
minariam a coesão social, os valores religiosos sedimentados e o caráter
nacional etnicamente definido. Construções supranacionais deveriam ser
enfraquecidas ou canceladas em nome de soberanias irrenunciáveis. A primazia do
Estado-nação era o valor a ser restaurado, se necessário com “remigrações”
massivas. A utopia de uma Europa pós-nacional deveria ser combatida com uma
Europa das nações, cada uma delas ciosa, antes de mais nada, da própria
identidade.
Para nuestra América, os significados
explícitos ou implícitos do trumpismo vão noutra direção. Não há aqui um
sentido de comunidade, ainda que em bases falsas, como o proposto para os
europeus. Somos, os latino-americanos, vistos negativamente como foco e origem
de perigos para o território norte-americano.
Estes perigos tomam corpo na forma de grandes
massas de imigrantes, que não se trata de regular ou administrar legitimamente
de acordo com a conveniência do país receptor, mas de banir com brutalidade.
Tornar a América novamente grande, ao que parece, supõe buscar uma
homogeneidade étnica e linguística que contraria o sentido vital da experiência
norte-americana.
Seríamos ainda responsáveis únicos por uma
segunda grande ameaça à segurança daquele País, a de inundar com drogas seu
poderoso mercado. Organizações criminosas de tipo mafioso passam assim por uma
redefinição conceitual e, como narcoterroristas, adquirem dimensão política arbitrária
que potencialmente justifica violação da soberania de quem comete o erro de
estar ao sul do Rio Grande. A gramática da repressão violenta ao crime,
desassistida de inteligência, é a que se exporta para os diferentes grupos da
extrema direita latino-americana. Governar é abrir presídios – e já há político
dito alternativo entre nós que se apresenta bizarramente como “Milei na forma,
Bukele no conteúdo”.
A face política do trumpismo se delineia numa
reatualização da Doutrina Monroe – ou Donroe, empregando trocadilho duvidoso –
mediante um “corolário” intervencionista. Nos documentos oficiais mais
relevantes, o território norteamericano e as demais Américas ocupam uma só e
mesma seção destinada ao Hemisfério Ocidental. Seríamos assim a parte subordinada
do império, constituída real ou potencialmente de Estados falidos. Ou de nações
sem história, para recuperar antiga concepção que excluía do movimento do mundo
aquelas que não conseguiam se afirmar como Estados modernos.
É evidente que este não é o lugar do Brasil nem dos outros países das Américas. Aos trancos e barrancos, desde a ruptura com as antigas metrópoles definimos identidades não exclusivistas e, nas últimas décadas, redescobrimos a duras penas o paradigma da democracia. Sabemos que só recorrendo a tal paradigma é possível conduzir vidas dignas individual e coletivamente, para retomar o sentido essencial das preocupações de Padura. Sabemos, ainda, que o destino democrático requer solidariedade entre grandes povos e nações, entre os quais, muito além deste pesado eclipse, não é possível deixar de incluir os Estados Unidos.
*Tradutor e ensaísta, coeditor das ‘Obras’ de Gramsci no Brasil

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