segunda-feira, 29 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Delações seletivas têm mesmo de ser rejeitadas

Por O Globo

PF e PGR acertam ao recusar propostas que nada de novo trazem à investigação do caso Master

Fizeram bem a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) em rejeitar as propostas de delação premiada de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB). Pelo que veio a público das negociações, elas não acrescentariam nada de relevante ao que já se sabe sobre a maior fraude bancária da História do país. É preciso fechar a porta à tentativa dos acusados de aproveitar os benefícios da lei sem oferecer informações que contribuam para as investigações, já bastante avançadas a partir do material apreendido nas operações policiais.

Apesar da mudança de advogados e das promessas de colaboração, sete meses depois de preso pela primeira vez, Vorcaro ainda não conseguiu convencer os investigadores de que está realmente disposto a falar o que sabe sobre os desmandos do Master e sua atuação nos bastidores da República. Ao contrário. A cada novo episódio que as autoridades trazem a público, sua situação se torna mais constrangedora.

A proposta de delação de Vorcaro nem citava os afagos ao senador Ciro Nogueira, com viagens internacionais, hospedagens em hotéis de luxo e outras regalias, na tentativa de aprovar no Congresso o aumento do limite do Fundo Garantidor de Créditos para favorecer os papéis podres do Master. Tampouco o pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, para financiar o filme “Dark Horse”, sobre o pai, Jair Bolsonaro. Nem as relações nada republicanas de seu ex-sócio Augusto Lima com o senador Jaques Wagner, forçado a deixar a liderança do governo no Senado depois da operação da PF que revelou suspeitas de ter recebido vantagens indevidas. Vorcaro não achava tudo isso relevante? Não queria comprometer amigos? Que mais omitiu?

Há também dúvidas pertinentes sobre o destino do robusto patrimônio de Vorcaro. Ao reforçar o pedido para manutenção da prisão dele, a PF revelou ao Supremo Tribunal Federal ter identificado indícios de movimentações “compatíveis com estratégias de ocultação, blindagem ou deslocamento patrimonial”. Seria o cúmulo formalizar qualquer acordo de delação enquanto o banqueiro tenta esconder o dinheiro obtido ilegalmente.

Da mesma forma, Paulo Henrique Costa precisa sair da retranca e falar o que sabe. Ele é peça fundamental no escândalo, uma vez que a tentativa de compra do Master pelo BRB só não foi adiante por ter sido barrada pelo Banco Central. Certamente teria contribuição relevante às investigações. Na avalição da PGR, no entanto, sua proposta de delação tem “reduzida utilidade e débil eficácia potencial”. Não ajudaria na recuperação de ativos nem no ressarcimento aos cofres públicos.

A colaboração premiada é um instrumento legítimo, que pode contribuir de forma notável para investigações — não como prova em si, mas como ponto de partida para desvendar crimes complexos. Mas não pode ser usada apenas para beneficiar o réu. Se quiser obter benefícios como redução de pena ou mudança de regime, o delator precisa apontar caminhos, fatos ignorados ou não suficientemente esclarecidos. Falar o que polícia e MP já sabem é ridículo. Omitir o que também já sabem é mais ridículo ainda. A hesitação de Vorcaro e Costa parece significar a aposta em que o estardalhaço em torno da fraude bilionária acabará em nada. Se isso acontecer, será uma lástima.

Política nacional para superdotados carece de estatísticas fidedignas

Por O Globo

Lei que estipula atenção especial na rede pública é bem-vinda, mas ainda deixa lacunas a preencher

É bem-vinda a sanção pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva da lei que institui a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação (AH/SD). A lei ainda deixa lacunas em aberto, mas ao menos toma uma iniciativa em relação a um grupo de estudantes que, da mesma forma como aqueles com deficiência física ou cognitiva, precisam ser acolhidos pela rede pública escolar, onde frequentemente acabam segregados, sem desafios à altura de suas capacidades.

Durante muito tempo, subsistiu a ideia de que deveria haver “escolas especiais” para crianças fora do padrão. Com o tempo, porém, prevaleceu o conceito de educação inclusiva para todos, pois a convivência com gente de diferentes perfis contribui para uma formação mais plena. Teve especial importância um decreto de 2011 estabelecendo que a educação especial será oferecida “preferencialmente na rede regular de ensino” para “pessoas com deficiência, com transtornos globais do desenvolvimento e com altas habilidades ou superdotação”.

Apenas um decreto, porém, não tem a capacidade de tornar a escola pública um ambiente inclusivo, capaz de oferecer a cada aluno um ensino correspondente a suas habilidades. Para começar, é necessário identificar com precisão as necessidade de cada um entre 47,1 milhões de matriculados nas 179,3 mil escolas no ensino básico. De acordo com dados do Censo Escolar de 2012, citados em artigo do pesquisador Lívio Luiz Soares de Oliveira na Revista Brasileira de Educação Especial, havia naquele ano 11.025 alunos com AH/SD na educação básica, num universo de 2,5 milhões, ou apenas 0,004% do total. Pelo último levantamento, 43.950 estudantes são formalmente considerados de altas habilidades ou com superdotação. São números muito distantes dos 3,5% a 5% da população estimados pela Organização Mundial da Saúde.

O Conselho Brasileiro para Superdotação afirma haver vários indícios de subestimativa no cálculo da parcela de alunos superdotados que não são devidamente atendidos. Como argumento, usa a estimativa de cerca de 15% da população com QI igual ou superior a 115. Aplicada essa proporção ao total de matriculados, haveria mais de 7 milhões de alunos nessas condições. O dado sugere haver grande contingente de crianças e jovens desassistidos.

As dificuldades para a rede escolar receber bem esses alunos se estendem aos documentos oficiais do governo federal. Nem sempre eles incluem os alunos de altas habilidades entre os que precisam de atendimento educacional especial. De acordo com o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, do Todos Pela Educação, somente 41% desses alunos tinham em 2024 acesso ao atendimento estipulado por lei. A execução da política nacional para superdotados passa, antes de tudo, pelo levantamento de estatísticas fidedignas.

Projeções anunciam decisões difíceis no próximo governo

Por Folha de S. Paulo

IFI aponta que a dívida pública seguirá em alta mesmo com hipóteses otimistas para PIB e juros

Limite de despesas é inconsistente com regras para Previdência, saúde e educação; Gastança de Lula deixará herança inglória

As novas projeções da Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado, prenunciam anos difíceis para o governo a ser eleito em outubro. Longe de qualquer sinal de reversão, a escalada da dívida pública permanece em todos os cenários considerados.

No tido como mais provável, um pouco menos ruim que o apresentado no semestre anterior, as receitas federais atingem 18,9% do PIB em 2026 e recuam gradualmente para 18,3% no médio prazo. Já as despesas não financeiras sobem de 19,2% do PIB neste ano para 19,9% em 2032, antes de uma estabilização parcial em torno de 19,4%.

Estima-se melhora do saldo em 2026 e 2027, devido à maior arrecadação resultante de preços de petróleo elevados —que geraram revisões positivas de cerca de R$ 18 bilhões anuais. Com isso, será mais fácil cumprir formalmente as metas oficiais.

Entretanto o relatório da IFI trabalhou com a hipótese do barril Brent a US$ 85 em 2026. Com o aparente arrefecimento de tensões geopolíticas, as cotações já recuaram para patamares inferiores a US$ 75, o que pode anular boa parte do ganho previsto.

Os parâmetros do cenário-base podem ser considerados otimistas. O crescimento do PIB é projetado em 2% em 2026 e 1,8% em 2027, convergindo para uma média de 2,3% ao ano a partir de 2028 —ritmo superior ao potencial da economia brasileira.

A taxa real de juros esperada cairia de 7,5% em 2026 para 5% no médio prazo, reduzindo o custo de financiamento da dívida. Tal evolução, porém, provavelmente só ocorrerá num contexto de maior confiança com ajuste orçamentário duradouro, algo que o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nem mesmo se esforçou por conseguir até aqui.

No cenário pessimista, com crescimento médio do PIB de apenas 1,3% ao ano de 2028 em diante e juros reais em torno de 7,5%, a dívida bruta salta de 82,8% do PIB em 2026 para 158,3% em 2036, um patamar insustentável.

Nas hipóteses mais positivas da IFI, a estabilização da dívida em torno de 80% a 85% do PIB depende de crescimento médio de 3,4% ao ano a partir de 2028 e redução dos juros reais para 4%.

A regra legal que limita a expansão dos gastos primários (com pessoal, programas sociais, custeio administrativo e investimentos) a 2,5% acima da inflação ao ano é inconsistente, pois se choca com a dinâmica real de pagamentos obrigatórios, que crescem em ritmo superior.

As razões essenciais são os reajustes reais do salário mínimo, que oneram uma Previdência Social já pressionada pelo envelhecimento populacional, e os pisos constitucionais da saúde e da educação indexados à receita.

A irresponsabilidade de Lula deixará herança inglória, que demandará ajustes difíceis. Infelizmente, até candidaturas de oposição evitam esse debate, com medo de afugentar eleitores. Decepções após o resultado das urnas são cada vez mais prováveis.

Judicialização em alta eleva custos na saúde

Por Folha de S. Paulo

Número de novos casos sobre o tema no STJ sobe de 13,8 mil em 2021 para 19,4 mil no ano passado

Processos se concentram no setor privado; é preciso fortalecer a solução de controvérsias nas instâncias internas e administrativas

A judicialização da saúde segue em alta no Brasil. Apenas em 2025, 19,4 mil novos casos sobre o tema chegaram ao Superior Tribunal de Justiça, segundo o anuário publicado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) —foram 13,8 mil em 2021, com aumento contínuo no período.

O litígio excessivo eleva custos para pacientes, o SUS e planos de saúde, além de sobrecarregar o sistema judicial. Apesar de tentativas por parte de órgãos reguladores, operadoras, gestores públicos e tribunais, há muito a fazer na busca por racionalidade.

Em geral ancorado no artigo 196 da Constituição, segundo o qual "a saúde é direito de todos e dever do Estado", o litígio, concentrado no setor privado, pode promover iniquidades ao direcionar recursos a demandas individuais, por vezes sem evidência, e não a soluções estruturais.

A maior parte dos casos —quase 16 mil em 2025— refere-se à saúde complementar. A maioria desses processos diz respeito a tratamento médico-hospitalar (8.225). Em seguida vêm planos de saúde (5.131), fornecimento de medicamento (2.202) e reajuste contratual (793), entre outros.

Cabe ao STJ reforçar as decisões já tomadas pela corte, e aos tribunais inferiores, aplicá-las de maneira consistente. Exceções devem ser tratadas como tais. Segundo especialistas, inovações em tratamentos e tecnologia, bem como disputas contratuais, têm levado a mais litígios, apesar de parte dos temas já estar pacificada na jurisprudência.

Há melhoras a serem feitas na regulação. Foi bem-vinda a regra da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) pela qual as operadoras de planos de saúde precisam esclarecer por escrito o porquê da negativa de uma cobertura, o que adiciona racionalidade ao sistema.

Tentativas de dar previsibilidade ao setor têm encontrado obstáculos no Brasil. A ANS buscou estabelecer um rol taxativo de procedimentos, mas uma lei tornou essa regra somente indicativa —depois de o STJ ter decidido em sentido oposto.

Em 2025, o Supremo Tribunal Federal permitiu que procedimentos fora do rol sejam concedidos por ordem judicial, sob certas condições: prescrição médica, eficácia e segurança comprovadas e autorização pela Anvisa.

É cedo para avaliar o efeito dessa decisão do STF. A escalada do litígio, no entanto, revela que pacientes e planos não têm conseguido superar controvérsias nas instâncias internas e administrativas. Cumpre fortalecer esses canais, para que o Judiciário deixe de ser a porta primordial de solução de demandas individuais.

A ganância pode custar caro

Por O Estado de S. Paulo

Seduzidos por rendimentos acima do mercado, cinco Tribunais de Justiça depositaram bilhões no BRB. Agora, arriscam perder um dinheiro que não é deles, mas de partes em processos judiciais

O corregedor do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministro Mauro Campbell Marques, quer que cinco tribunais enviem informações atualizadas sobre os depósitos judiciais que mantêm no Banco de Brasília (BRB). A instituição está envolvida até o pescoço no escândalo do Banco Master, mas está com cerca de R$ 30 bilhões em depósitos judiciais, um dinheiro que não pertence aos órgãos, mas a pessoas físicas ou empresas com processos em andamento nos Tribunais de Justiça (TJs) do Distrito Federal, da Bahia, de Alagoas, do Maranhão e da Paraíba. A preocupação do ministro, com toda razão, é que os valores sejam perdidos caso o BRB venha a ser liquidado, o que não parece mais algo tão improvável.

Dada a situação cada vez mais difícil do BRB, o leitor talvez se pergunte por que razão os Tribunais de Justiça de Bahia, Alagoas, Maranhão e Paraíba, tendo a possibilidade de manter os depósitos judiciais sob sua custódia em instituições federais como Banco do Brasil (BB) e Caixa Econômica Federal, escolheram o banco do Distrito Federal para fazê-lo. E o motivo, segundo eles mesmos, foi o rendimento que o BRB estava disposto a pagar sobre esses depósitos, em alguns casos mais que o dobro do oferecido por BB e Caixa.

Qualquer investidor sabe que remunerações mais altas implicam riscos mais elevados. A questão é que a taxa de retorno sobre esses depósitos não iria para a parte vencedora das causas, mas para os próprios tribunais. Foi assim que o ex-presidente do TJ-MA, José Ribamar Froz Sobrinho, admitiu ter conseguido recursos para honrar seu “compromisso” de pagar indenizações – ou seja, penduricalhos – para magistrados e servidores.

Mais por sorte do que por juízo, o contrato do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios com o banco se encerrou em maio passado, o que permitiu que os novos depósitos fossem direcionados à Caixa. Os antigos, no entanto, permanecerão no BRB.

Enquanto isso, o BRB sofre uma previsível corrida de liquidez. Quem podia já sacou o dinheiro que tinha depositado no banco, o que só aumenta o seu desequilíbrio. O Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) até tentou retirar os depósitos judiciais e enviá-los do BRB para o Banco do Brasil, mas o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), derrubou na semana passada uma liminar que autorizava o órgão a fazer a transferência.

Fux, afinal, intermediou e homologou um acordo que obrigou o Executivo federal a ampliar o limite de crédito do deficitário Distrito Federal para tomar um empréstimo e salvar o BRB. O acordo saiu no final do mês passado, mas o empréstimo que o governo do DF pleiteia, de até R$ 6,6 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), bancado por bancos públicos e privados, até agora não se concretizou.

Os bancos privados estão reticentes em participar do socorro e, corretamente, têm questionado a viabilidade das contragarantias oferecidas pelo governo distrital na operação – recursos futuros oriundos dos Fundos de Participação dos Estados (FPE) e dos Municípios (FPM), bem como proibição de realização de concursos públicos e de aumentos salariais para servidores enquanto o empréstimo não for quitado.

O BRB, de sua parte, ainda não divulgou o balanço do ano passado, e ninguém sabe se o valor será suficiente para cobrir o rombo. E a governadora Celina Leão tampouco se ajuda. Embora tenha conseguido apoio na Câmara Legislativa para aprovar a lei que viabiliza o empréstimo, ela vetou trechos da lei que obrigavam o banco a ressarcir o Distrito Federal pelos valores aportados por meio de dividendos e juros sobre capital próprio. Rejeitou, também, dispositivos que determinavam que o governo desse transparência à operação de crédito e enviasse relatórios semestrais para fins de fiscalização dos deputados.

Há cada vez mais motivos para temer o futuro do BRB. Daí se entende a preocupação do ministro Mauro Campbell com a situação dos depósitos judiciais e a cobrança que tem feito sobre os Tribunais de Justiça. Foi a ganância, e não a prudência, que guiou as decisões dos tribunais, e o mínimo que se espera é que eles sejam responsabilizados.

Mais pressão sobre o FGC

Por O Estado de S. Paulo

Após rombo bilionário do Master, PF indica que o Digimais, de Edir Macedo, seguiu o mesmo modelo predatório. E quem paga a conta, mais uma vez, são os bancos sérios e o cliente comum

A Operação Miragem, deflagrada pela Polícia Federal (PF) há poucos dias, apresentou fortes indícios de que o Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, seguiu o nefasto modelo de negócios do Banco Master: usar o limite do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como chamariz para investimentos em produtos de rendimentos acima do mercado – e, portanto, de maior risco –, o que na prática configura uma degeneração da natureza do FGC.

Criado em 1995, o FGC tem três objetivos principais: contribuir com a manutenção da estabilidade do sistema financeiro, prevenir crises bancárias sistêmicas e proteger depositantes e investidores, sobretudo os pequenos.

O Master – e, agora, ao que tudo indica, também o Digimais – não foi vítima de uma súbita crise global que levou seus correntistas a sacarem seus recursos nem de um problema pontual de liquidez. O patrimônio do banco de Daniel Vorcaro era uma peça de ficção, seja porque era composto por ativos avaliados muito acima de seu valor real, seja por obra de fraude pura e simples, ainda que disfarçada por mecanismos sofisticados.

Ciente disso, o Master deliberadamente emitiu um grande volume de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com a promessa de retornos de 130% a 140% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), bem mais do que o praticado pelos grandes bancos de varejo, que também são os principais financiadores do FGC.

Para fisgar os investidores, plataformas de investimentos divulgavam os CDBs anabolizados do Banco Master dando especial ênfase à garantia do FGC, graças ao qual, em caso de quebra ou liquidação de um banco, pessoas físicas ou jurídicas que tenham investido em produtos como os CDBs podem ser restituídas em até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. Deu no que deu. Liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central (BC) no final do ano passado, o Master causou um rombo de mais de R$ 50 bilhões para o FGC, que em pleno processo de recomposição de caixa agora vê o desenrolar do escândalo do Digimais pressionar ainda mais suas reservas.

De acordo com a Polícia Federal, o banco de Edir Macedo “replicou a prática de superavaliar ativos mediante a emissão de títulos com rentabilidades desproporcionais aos indicadores de mercado, efetuando manipulações nos balanços com o objetivo de ocultar dos órgãos de controle a deterioração da sua carteira de crédito”. Eis a replicação do modus operandi do Master.

Um dos possíveis desdobramentos da Operação Miragem é que o Digimais também venha a ser liquidado pelo BC. Sob escrutínio da PF e do próprio BC, o Digimais deixou de ser interessante, ao menos momentaneamente, para o BTG, que negociava a compra da instituição do sr. Macedo.

Caso venha a ser liquidado, o Digimais deve ampliar ainda mais o consumo bilionário do caixa do FGC, já desfalcado pelo conglomerado de Daniel Vorcaro.

Com suas promessas de ganhos estratosféricos, Master e Digimais não apenas zombaram dos rendimentos mais modestos pagos pelos CDBs das grandes instituições financeiras, como deixaram para esses mesmos bancos a pesada conta de suas supostas maquinações fraudulentas. Ademais, ainda prejudicaram os bancos pequenos e médios que, em sua maioria, são instituições sérias.

Embora não se saiba exatamente como o FGC se reabilitará de um potencial baque com o Digimais, não é difícil imaginar que o cliente bancário comum, mesmo aquele que jamais investiu no Master ou no Digimais, venha a pagar a conta. É bem provável que o já elevado spread bancário brasileiro aumente ainda mais em razão de os bancos se verem obrigados a aportar mais recursos no FGC.

Paralelamente, com a eclosão do caso Digimais, o Banco de Brasília (BRB), que já vinha enfrentando complicações para levantar recursos com o FGC mesmo com a insólita chancela do Supremo Tribunal Federal (STF), deve encontrar ainda mais dificuldades para convencer o fundo a lhe dar um empréstimo bilionário, um compromisso que a própria Procuradoria-Geral do Distrito Federal afirma que o BRB não tem condições de honrar.

O Japão e a escolha do Brasil

Por O Estado de S. Paulo

Mais do que mercado, um acordo entre Mercosul e Japão oferece uma agenda de modernização

A perspectiva da oficialização de negociações para um acordo entre Mercosul e Japão na cúpula do bloco latino-americano em Assunção, amanhã, merece atenção por razões que vão além da agenda comercial. Brasil e Japão mantêm relações diplomáticas há 130 anos, mas o fluxo comercial é modesto para economias desse porte e com tamanha complementaridade. A redução de barreiras pode ampliar as exportações de alimentos, facilitar o acesso da carne bovina ao exigente mercado japonês e estimular novos investimentos. Mas limitar a discussão a tarifas ou à balança comercial seria perder de vista o que realmente está em jogo.

O Japão procura diversificar fornecedores de alimentos, energia e minerais críticos, reduzir vulnerabilidades em suas cadeias produtivas e consolidar novas parcerias no Indo-Pacífico e além dele. O Brasil busca ampliar mercados, atrair capital, incorporar tecnologia e reduzir sua dependência de poucos destinos para suas exportações. A convergência entre essas estratégias explica por que a negociação ganha relevância justamente agora.

Ao lado da abertura de mercados aparecem bioenergia, hidrogênio de baixo carbono, minerais estratégicos, inteligência artificial, digitalização e cadeias industriais de maior valor agregado. Nessas áreas, Brasil e Japão oferecem ativos complementares. Um dispõe de abundância de recursos naturais, matriz energética limpa e escala produtiva. O outro reúne capital, tecnologia, sofisticação industrial e experiência em inovação.

Os efeitos mais duradouros de uma parceria dessa natureza tendem a surgir gradualmente. Empresas não investem apenas porque tarifas caíram, mas quando encontram regras previsíveis, ambiente de negócios confiável e perspectivas de longo prazo. A partir daí, as cadeias produtivas se aproximam, a tecnologia circula com mais intensidade, fornecedores locais se qualificam e a produtividade cresce.

O uso crescente do comércio como instrumento de pressão política e a fragmentação das cadeias globais levam muitos países a diversificar relações econômicas para reduzir riscos. Para economias de porte médio, ampliar o número de parceiros confiáveis tornou-se também uma forma de preservar margem de manobra. A aproximação com o Japão insere o Brasil nessa lógica sem exigir alinhamentos automáticos nem escolhas excludentes.

Longe de dispensar o Brasil de suas lições de casa, isso exige mais empenho. Um acordo pode criar oportunidades, mas não elimina o custo Brasil, a insegurança regulatória, a burocracia, as deficiências logísticas ou a baixa competitividade de diversos setores. Nem substitui reformas capazes de tornar o ambiente econômico mais aberto e previsível. Sem elas, parte do potencial dessa aproximação permanecerá congelado no papel.

As eventuais negociações entre Mercosul e Japão devem, portanto, ser recebidas com entusiasmo sereno. Tratados como este, se vierem, não transformarão a economia brasileira por si sós. Ainda assim, apontam uma direção valiosa: a de um país que busca prosperar por meio da integração, da inovação e da produtividade, aproximando-se das economias mais sofisticadas do mundo em vez de se resignar ao conforto estéril do isolamento.

Governo se beneficia da alta do petróleo, mas ela não deve durar

Por Valor Econômico

Acordo entre EUA e Irã e projeções de excesso de oferta global em 2027 pressionam os preços da commodity

A paz ainda está longe de reinar no Estreito de Ormuz, mas os preços do petróleo recuaram muito desde que Irã e Estados Unidos assinaram um memorando de entendimento para pôr fim ao conflito. Na quinta-feira, o barril Brent foi cotado a US$ 72,48, o mesmo valor de pouco antes do início da guerra, em 28 de fevereiro. A descompressão da oferta e dos preços atingiu todos os combustíveis e também os fertilizantes. Pode levar meses até que produção e oferta sejam normalizados e os preços voltem para perto da média de US$ 65 o barril. Mas, da mesma forma que o fechamento de Ormuz trouxe pânico e medo nos mercados mundiais, sua abertura, mesmo gradual, terá um efeito calmante sobre a inflação e os preços dos ativos. A normalização do mercado reduzirá um pouco o extraordinário aumento de receitas com o petróleo do governo brasileiro, que quase quadruplicaram de janeiro a maio.

As cotações do óleo refletirão o jogo de forças opostas. A favor da manutenção dos preços altos, ou de uma queda bem lenta deles, pesam em primeiro lugar a destruição de instalações de petróleo nos países produtores, a redução estimada do fluxo de 1 bilhão de barris durante o período do conflito e a queda significativa dos estoques, que nos países da OCDE chegaram ao menor nível desde 1990. Levará meses, ou até anos, para que as instalações destruídas voltem a operar, e a recomposição dos estoques acrescentará demanda adicional a uma oferta ainda não recomposta.

Mas há outros fatores relevantes que apontam na direção oposta. A Agência Internacional de Energia (AIE) prevê que haverá um excesso de petróleo no mercado já em 2027. Em suas previsões, a produção acrescentará 8 milhões de barris por dia, elevando o total extraído a 110 milhões de barris/dia, enquanto a demanda aumentará em 2 milhões de barris/dia.

Corroboram estes cálculos o esperado aumento de produção dos Emirados Árabes Unidos, que deixou a Opep, o cartel dos produtores, justamente porque estava descontente com sua cota de produção, e poderá acrescentar mais 1 milhão de barris/dia em futuro próximo. A produção iraniana, que surpreendentemente recebeu passe livre no memorando feito com os Estados Unidos, poderá se expandir e abastecer mais países do que apenas seus aliados contra o cerco financeiro imposto pela Casa Branca anteriormente, como a China. A consultoria Wood Mackenzie estima que os planos em andamento no Brasil, nos EUA e na Guiana adicionarão mais 2,8 milhões de barris/dia no ano que vem. Ela prevê que a produção total atingirá 108-109 milhões de barris/dia (FT, 17 de junho).

A guerra de EUA e Israel contra o Irã e o fechamento de Ormuz soaram o alarme da urgência da substituição de combustíveis fósseis, que possivelmente se acelerará. O transporte rodoviário de cargas e passageiros consome cerca de metade da produção mundial e está mudando de perfil. A Agência Internacional de Energia aponta que um quarto do total de carros novos vendidos no mundo hoje é elétrico. Na China, 63% dos carros zero quilômetro vendidos são elétricos, em um movimento que se espalhou também pelo restante da região Ásia-Pacífico (onde sua venda avançou 80%) e na América Latina (expansão de 75%).

A maior crise da oferta de petróleo da história, segundo a AIE, culminou em uma “taxa”, ou gasto adicional de consumo, da ordem de US$ 1,3 trilhão, calcula o economista Edward Yardeni. Ele comparou a oferta de 105 milhões de barris/dia a um preço médio de US$ 65 o barril - total de US$ 2,5 trilhões por ano - com os preços médios durante a guerra. Grosso modo, pode-se então estimar que a interrupção do fluxo de petróleo por quatro meses, como agora, tenha resultado em um acréscimo de preços da ordem de US$ 430 bilhões. Esse sobrepreço será zerado nos próximos meses, eliminando o temor que tomou os investidores de que a inflação, com o choque do petróleo, não seria temporária e acabaria levando a um aperto monetário global que faria enormes estragos no crescimento. Isso não aconteceu na proporção que se previa.

O estresse nas cadeias de produção está se reduzindo rapidamente, desde que não haja novas interrupções na oferta, o que não é certo. Parece improvável, mas não impossível, que, às vésperas de eleições legislativas, Trump, que produziu um improvisado acordo temendo estragos no desempenho dos republicanos, volte a seu estado belicoso antes de que as urnas sejam apuradas em novembro.

O governo brasileiro se beneficia do aumento dos preços do petróleo enquanto durar. A arrecadação relacionada ao petróleo em maio subiu R$ 10 bilhões, o quíntuplo da de maio de 2025. Nos cinco primeiros meses do ano, o petróleo propiciou arrecadação de R$ 50,6 bilhões, ante R$ 13,1 bi no mesmo período do ano passado. Os subsídios ao diesel e gasolina custariam R$ 30 bilhões até o fim do ano, mas poderão ser extintos em breve, se as cotações do petróleo não voltarem a disparar. Houve algum estrago inflacionário e, nesse front, a dúvida é como ficará o reajuste dos combustíveis com o fim dos subsídios, já que os preços externos, por vários meses, poderão continuar acima da média do pré-guerra.

Igualdade na educação é dever a ser cumprido

Por Correio Braziliense

O direito à educação, garantido pela Constituição de 1988, não pode ser uma loteria baseada no endereço, na raça, na idade e na renda.

O Brasil guarda nas escolas um dos retratos mais cruéis de sua desigualdade histórica. O ensino, único caminho seguro para a transformação, ainda carrega barreiras que impedem o desenvolvimento, e o que está presente nas salas de aulas aparece, também, de norte a sul do país.

Segundo dados da Pnad Contínua Educação, divulgados pelo IBGE no último dia 15, a taxa de analfabetismo ficou abaixo de 5% pela primeira vez desde o início da série, em 2016. Apesar do avanço, a pesquisa aponta questões a serem resolvidas e traz um alerta preocupante: um em cada quatro jovens entre 14 e 19 anos afirma que não tem nenhum interesse em estudar — são 8,1 milhões deles que não se qualificam.

De acordo com o relatório, 8,4 milhões de pessoas com 15 anos ou mais não sabiam ler e escrever em 2025 — o que corresponde a 4,9% da população. Em 2024, a taxa era de 5,3%, número que representa uma redução de cerca de 592 mil analfabetos em um ano. O problema é que o quadro segue apresentando fortes diferenças regionais, raciais e etárias, além do descaso da juventude com o ensino.

O levantamento do IBGE confirma que é preciso encarar um impasse social vergonhoso, perigoso e que tem perfil definido. Mais da metade dos analfabetos do país está no Nordeste: 4,8 milhões de pessoas, o equivalente a 57,4% do total nacional. Já as desigualdades raciais também permanecem expressivas. Entre os brasileiros de 15 anos ou mais, 2,8% dos brancos eram analfabetos em 2025, contra 6,5% dos pretos ou pardos.

Na população de 60 anos para a frente, a distância ficou ainda maior: a taxa foi de 7,3% entre brancos e de 20,6% entre pretos ou pardos. Entre os idosos, um dos desafios é promover a busca de todos os que não tiveram a oportunidade de frequentar um colégio e, ao mesmo tempo, mostrar que ainda há tempo. Em 2025, essas pessoas representavam 58% dos analfabetos — 4,8 milhões que não sabiam ler e escrever um bilhete simples.

Esse retrato do Brasil precisa ser colocado sobre a mesa e debatido. Os erros cometidos no passado têm de ser eliminados do processo, e formas eficientes devem começar a fazer parte do conteúdo voltado para a igualdade do ensino. Para garantir o projeto de futuro com desenvolvimento e competitividade global, o primeiro passo é não aceitar que o jovem deixe de acreditar no poder da educação como ferramenta para melhorar de vida e ajudar a construir uma sociedade justa.

O direito à educação, garantido pela Constituição de 1988, não pode ser uma loteria baseada no endereço, na raça, na idade e na renda. Acabar com os abismos não é apenas um imperativo moral: é a única saída para o país escapar da armadilha de seguir amarrado a uma condição muito aquém de sua capacidade.

Para transformar essa realidade, o ponto de partida tem de ser uma mudança na lógica de investimentos e de políticas públicas. Redistribuir os recursos, enfrentar a desvalorização sistemática dos professores, expandir as escolas em tempo integral em locais de alta vulnerabilidade social e fortalecer o ensino técnico integrado ao nível médio são medidas fundamentais.

A educação é um dos investimentos mais estratégicos, e garantir isso é um dever que o país ainda precisa cumprir. As desigualdades históricas, que seguem custando caro para os brasileiros, não podem se somar à desmotivação que a pesquisa do IBGE escancara. A experiência já mostrou que não se alcança uma sociedade saudável e produtiva sem colocar a educação como prioridade. Nesse quesito, o Brasil precisa se esforçar se quiser atingir o conceito máximo.

Futebol: cobrar é justo, mas desonesto o ataque pessoal

Por O Povo (CE)

s cobranças alusivas ao futebol, sejam direcionadas aos jogadores, sejam relacionadas aos dirigentes, precisam se restringir ao nível profissional, não ensejando efeitos pessoais a quem quer que seja

É inadmissível, sob todos os pontos de vista, que qualquer ataque referente a desempenhos de futebol extrapole as linhas que delimitam o campo a ele pertinente. Praticar ou estimular ações que agridam diretamente os responsáveis no âmbito pessoal e seus familiares é, além de desumano, incoerente e desonesto. As cobranças alusivas ao futebol, sejam direcionadas aos jogadores, sejam relacionadas aos dirigentes, precisam se restringir ao nível profissional, não ensejando efeitos pessoais a quem quer que seja.

Assim, considera-se condenável o ataque que sofreu a filha do presidente do Ceará Sporting Club, João Paulo Silva, na semana que passou. A menina recebeu uma caixa de chocolate e um buquê de flores com um artefato explosivo, acompanhados de um bilhete ofensivo ao pai. É sabido que o Ceará vive um mau momento no futebol neste ano. Foi eliminado de quase todas as competições das quais participou e está na Série B do Campeonato Brasileiro.

Por causa disso, a gestão do presidente João Paulo vive sob críticas constantes dos torcedores que cobram um melhor desempenho em campo, mais contratações e o desejado acesso para a Série A em 2027.

É justa a cobrança, visto que qualquer torcedor que apoie o time quer vê-lo bem posicionado nas competições e com um desempenho satisfatório. Não é justo, porém, que atos de intimidação, ameaças e desrespeito em geral se estendam aos familiares dos profissionais nem a eles mesmos em âmbito pessoal. A promoção da paz e do respeito também precisa ser defendida no futebol.

Ressalte-se que muitos clubes, inclusive Fortaleza Esporte Clube e Ferroviário Atlético Clube, além de Flamengo, Palmeiras e Fluminense, manifestaram solidariedade ao dirigente alvinegro. A boa convivência e a cultura da não violência devem prevalecer independentemente da rivalidade no futebol. A Federação Cearense de Futebol (FCF) e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também divulgaram notas oficiais de solidariedade a João Paulo e de repúdio ao caso.

"Esse é só mais um ataque que se soma aos vários que já fizeram a mim e à minha família. Eu sou presidente do Ceará. Aguento as porradas, o meu cargo exige isso. Mas mexeram com inocentes. E isso tudo somente pelo poder. Essa covardia não pode ser considerada normal", escreveu João Paulo, em seu perfil nas redes sociais, quando anunciou o ato criminoso.

Quando atitudes como essa ultrapassam os limites da disputa esportiva - que deveria ser saudável por si só -, falha-se como sociedade. Espera-se que os responsáveis sejam identificados e punidos na forma da lei. A imprensa estará vigilante para acompanhar e defender os valores sociais inerentes ao bom futebol - dentro e fora de campo.

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