Valor Econômico
Disputa presidencial tem outras dinâmicas com emendas parlamentares e polarização
Na edição de 19 de junho, a revista The
Economist trouxe uma matéria chamando Minas Gerais de espelho do Brasil e
termômetro das eleições presidenciais deste ano.
As comparações se prestam a esclarecer ao público estrangeiro dois fatos repetidos na imprensa brasileira a cada quatro anos: a diversidade da composição populacional no segundo colégio eleitoral do país (que possui regiões conectadas com o Nordeste, o Centro-Oeste, Rio de Janeiro e São Paulo) e a coincidência estatística de que até hoje nenhum candidato foi eleito para o Palácio do Planalto sem também se sagrar vencedor em Minas Gerais.
Mirando as eleições deste ano, a publicação
britânica destacou tanto as dificuldades de Flávio Bolsonaro em pacificar a
direita mineira - fragmentada diante da decisão do ex-governador Romeu Zema
(Novo) em lançar-se em voo solo à Presidência e a postura não submissa do
deputado Nikolas Ferreira (PL) à liderança bolsonarista - quanto as sucessivas
visitas de Lula ao Estado nos últimos meses.
Também nas últimas semanas o noticiário
político deu bastante espaço para as articulações do Partido dos Trabalhadores
em definir um candidato a governador em Minas. Depois da desistência do senador
Rodrigo Pacheco (PSB), Lula titubeou entre apoiar o ex-prefeito de Belo
Horizonte Alexandre Kalil (PDT), o ex-presidente da Câmara da capital mineira
Gabriel Azevedo (MDB) e o empresário Josué Gomes (PSB) - filho de José Alencar
(1931-2011), seu vice nos dois primeiros mandatos.
Na semana passada, Lula e as lideranças
nacionais do PT teriam batido o martelo e decidido lançar uma candidatura
própria ao Palácio da Liberdade. No entanto, o nome mais forte do partido no
Estado, a ex-prefeita de Contagem Marília Campos, não está disposta a arriscar
uma eleição quase certa ao Senado em nome de uma aventura com poucas chances de
vitória como governadora.
O impasse reflete as dificuldades de Lula em
constituir um palanque para fortalecer a sua campanha em Minas, mas tem como
pano de fundo as particularidades da política mineira. Na década passada,
escândalos de corrupção quase dizimaram os dois principais grupos políticos que
rivalizavam entre si na capital mineira e no Estado: os tucanos ligados a Aécio
Neves e os petistas comandados por Fernando Pimentel.
Por outro lado, a ascensão de Zema na onda
bolsonarista de 2018 não foi capaz de ocupar de forma definitiva o vácuo de
poder - tanto que seu sucessor, o vice Mateus Simões, patina nas pesquisas de
opinião. Nos últimos levantamentos, quem lidera com ampla margem é o senador
Cleitinho Azevedo (Republicanos), um político de direita com discurso
popularesco alinhado a Jair Bolsonaro, mas que ultimamente tenta se colocar
como independente.
Peculiaridades locais à parte, essa questão
da importância de Lula ter um palanque em Minas merece ser relativizada - e,
quem sabe, também servir como termômetro e espelho para outras regiões do
Brasil. Como pode ser visto no gráfico, não há uma correlação forte entre os
históricos de votação de candidatos do PT a presidente e os postulantes ao
governo estadual vindos do próprio partido ou aliados.
Em tempos de polarização acirrada no plano
nacional, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro dividem o eleitorado sem depender
tanto do apoio de candidatos a governador pedindo votos em seu nome no interior
dos Estados.
Por outro lado, mesmo que a capilarização da
campanha continue importante para fidelizar simpatizantes e conquistar a
pequena parcela de eleitores independentes, a dinâmica do coronelismo
brasileiro sofreu uma mudança relevante com o surgimento das bilionárias
emendas parlamentares. Se antes as políticas públicas levadas a cabo pelo
governo estadual eram fundamentais para cooptar prefeitos e lideranças locais,
hoje deputados e senadores conquistam essa lealdade de forma direta, irrigando suas
bases eleitorais com dezenas de milhões de reais transferidos diretamente para
os municípios.
Seguindo essa nova lógica da distribuição do
poder, o maior problema de Lula em Minas pode não estar na carência de um
palanque forte para governador. O PT conta com apenas nove representantes entre
os 53 deputados e três senadores mineiros no Congresso. Além de poucos
distribuidores de emendas, o partido tem poucos receptores locais: nas eleições
de 2024, o partido elegeu apenas 35 prefeitos nas 853 cidades do Estado.
No espelho do Brasil, Lula só tem a própria
imagem refletida na campanha.
*Bruno Carazza é professor associado da Fundação Dom Cabral e autor de “O País dos Privilégios (volume 1) e “Dinheiro, Eleições e Poder”, ambos pela Companhia das Letras.

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