terça-feira, 16 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Acordo escancara fiasco da guerra de Trump

Por Folha de S. Paulo

Ataque de EUA e Israel fracassa no objetivo de derrubar o regime iraniano e seu programa nuclear

Teocracia do Irã ganhou mais força; entendimento pode começar a normalizar oferta de petróleo, mas inflação global está contratada

Uma semana depois de começar a guerra contra o IrãDonald Trump escreveu que não haveria acordo com o inimigo, apenas "rendição incondicional". O Irã não se rendeu.

O regime obscurantista dos aiatolás está, isso sim, à beira de impor condições aos Estados Unidos —ao menos, termos de negociação no acordo que, segundo se anunciou, será oficializado na sexta-feira (19). O documento deve estender um cessar-fogo por 60 dias e estabelecer as cláusulas da trégua e as diretrizes das tratativas nos próximos dois meses.

A perspectiva de fim do conflito continua incerta, danos econômicos serão por enquanto apenas atenuados e o prestígio político-eleitoral do presidente americano e do seu Partido Republicano fica avariado. O resultado parcial do embate ilustra mais uma vez as dificuldades das chamadas guerras assimétricas.

Não há clareza a respeito dos termos dos entendimentos entre americanos e iranianos, que ainda dão declarações contraditórias a esse respeito.

estreito de Hormuz seria, em tese, reaberto, dado que o Irã deixaria de ameaçar navios que ali querem transitar; no entanto, a teocracia afirma que ainda teria algum controle de tráfego, talvez cobrando pela passagem.

Os EUA acabariam com o bloqueio das embarcações nos portos iranianos. O Irã reafirmaria um compromisso, duvidoso, de não tentar obter ou desenvolver armas nucleares. Em compensação, sanções americanas seriam paulatinamente suspensas.

Trump dizia que o objetivo da guerra seria eliminar o programa nuclear e derrubar o regime persa. Não se pode dizer que esteja perto de conseguir seus objetivos. Há certeza apenas sobre morticínio e desordem global.

Ainda que o cessar-fogo perdure, problemas econômicos devem persistir. A reabertura de Hormuz será lenta. Depende da organização do tráfego de mais de 500 navios ainda retidos, da retirada das minas e da confiança de que não haverá bombardeios. Instalações produtivas dos países do Golfo foram danificadas. Empresas relutarão em reenviar embarcações para a zona de conflito.

Uma alta da inflação mundial está contratada. Preços de petróleo, derivados e outros insumos transportados pela região ficarão elevados por ainda algum tempo.

A tensão regional permanece. Ganha agora ingrediente novo, os atritos entre Trump e Israel. Os países do Golfo promoviam reformas e investimentos a fim de se afirmarem como centros de comércio, transporte e turismo. A situação geopolítica incerta dificulta tais planos e cria dúvidas a respeito de alianças regionais e com os EUA.

No Irã, a linha-dura da ditadura teocrático-militar ganhou mais força. Com alguma retomada econômica, deve se rearmar. Há dúvidas sobre o destino da trégua e do material nuclear do Irã. Por ora, o mais certo é que Trump prejudicou as relações globais e a eficiência dos mercados —e fez do mundo um lugar mais perigoso.

Melhorar o acesso de meninas grávidas ao SUS

Por Folha de S. Paulo

Pesquisas mostram que quase metade das menores de 12 anos não inicia o pré-natal no período ideal

Tal atraso pode impactar o direito ao aborto legal; resolução do Conanda derrubada pelo Congresso visava agilizar processo com protocolos

Ao anular a resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente que estabelecia diretrizes para o atendimento de menores vítimas de abuso sexual, o Congresso Nacional mostrou que está mais interessado em agitação ideológica para mobilizar o eleitorado do que na saúde reprodutiva de crianças e adolescentes.

Pesquisas do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), divulgadas após a decisão dos parlamentares, evidenciam as dificuldades enfrentadas por meninas grávidas no acesso ao SUS, o que é capaz de impactar o direito ao aborto legal.

Entre 2020 e 2022, foram realizados 34.823 partos no país em que as mães tinham menos de 14 anos de idade. Segundo o Código Penal, relação sexual com menor de 14 anos é estupro de vulnerável, e a interrupção da gravidez é autorizada nesse caso.

Para a Organização Mundial da Saúde, a gestação na adolescência (entre 10 e 19 anos) é de risco. Ademais, quanto mais jovem é a gestante, mais demora o início do exame pré-natal no período considerado ideal por especialistas (primeiro trimestre da gravidez).

De acordo com a UFPel, dentre as parturientes com menos de 12 anos, 55,6% começaram o pré-natal no período ideal e 28% só o fizeram após 22 semanas de gestação. No grupo das meninas de 14 anos, são de 66,3% e 19,2%, respectivamente. Já entre as jovens de 19 anos, as taxas melhoram, com 77,8% e 12,2%.

Há discrepâncias regionais. No Centro-Oeste, 44,4% do estrato com menos de 12 anos iniciou o pré-natal no primeiro trimestre; o Norte vem em seguida, com 46,4%, enquanto o Sudeste tem a melhor taxa (65,4%). As indígenas têm os piores índices em todas as idades, com 46,3% até 12 anos, ante 63,6% entre brancas.

Tal atraso é temerário porque reduz uma das principais oportunidades de identificação da violência sexual pela rede de saúde.

A resolução do Conanda instituía protocolos para esse contato, capacitando profissionais a reconhecer abusos, efetuar escuta especializada das crianças, notificar autoridades, orientar sobre o aborto legal e acionar assistência social e jurídica.

O objetivo era agilizar o atendimento, limitando burocracias e ingerências indevidas.

Ao derrubar a medida, os parlamentares fecharam os olhos para o problema, minando o direito de crianças e adolescentes e até elevando o risco de mortalidade.

Resta às redes de saúde estaduais e municipais melhorarem o acesso ao sistema e o atendimento de meninas grávidas.

Acordo entre Irã e Estados Unidos desperta ceticismo

Por O Globo

Apesar do alívio momentâneo, risco nuclear permanece, e tensões com Israel não foram resolvidas

O acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã anunciado na madrugada de segunda-feira deve ser encarado com ceticismo. Depois de inúmeros vaivéns diplomáticos, o governo Donald Trump e o regime dos aiatolás deverão se reunir na próxima sexta-feira em Genebra para assinar um documento cujo teor ainda não veio a público na íntegra. Pelas informações disponíveis, contudo, já é possível afirmar que a interrupção das hostilidades — embora bem-vinda pelos efeitos imediatos, tanto em perdas humanas quanto materiais — não será suficiente para assegurar um Oriente Médio menos sujeito a convulsões.

Os termos do “memorando de entendimento” estabelecem um prazo de 60 dias, durante o qual os Estados Unidos se comprometem a interromper o bloqueio naval ao Estreito de Ormuz, o Irã a desmantelar as minas marítimas espalhadas pela área, e — assim se espera — o tráfego naval livre será retomado sem cobrança de pedágios ou ataques de ambos os lados. É uma boa notícia para os mercados de petróleo e para a economia global. Mas o saldo positivo se esgota aí.

A principal motivação da guerra — o desmantelamento do programa nuclear iraniano, ameaça não apenas à estabilidade no Oriente Médio, mas a todo o planeta — foi atingida apenas parcialmente. O Irã ainda mantém, sob os escombros dos ataques, urânio enriquecido num patamar suficiente para construir até 12 bombas atômicas em prazo curto. Há no memorando, é verdade, um compromisso formal de que o país não tem a intenção de desenvolver armas nucleares. Mas o retrospecto iraniano mostra que não é um compromisso confiável. E, por ora, não há nenhuma salvaguarda para assegurá-lo.

A capacidade militar iraniana foi abalada, mas o regime dos aiatolás resistiu à investida de americanos e israelenses. Diferentes alas da Guarda Revolucionária Islâmica se digladiam pela primazia no poder, e ainda não há um quadro definido sobre o desfecho. Em qualquer cenário, a oposição que atua tanto dentro quanto fora do país se mostra decepcionada com o acerto, elaborado às pressas numa tentativa de interromper a queda de popularidade de Donald Trump antes das eleições de novembro. A esperança de derrocada da teocracia se frustrou.

Israel, parceira americana na guerra, foi alijada das negociações por Trump. Ele criticou duramente o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu por tentar sabotá-las mantendo ataques ao Líbano — cujo fim foi imposto como condição pelo Irã para aceitar o acordo. O governo israelense já afirmou que não desocupará o Sul do Líbano, nem a Faixa de Gaza, nem territórios da Síria enquanto julgar haver ameaças terroristas nesses locais. No próprio domingo em que o acordo era discutido, atacou alvos do Hezbollah em Beirute.

Por mais que Trump consiga encenar apaziguamento em torno de um documento qualquer, as incertezas persistirão, e as tensões continuarão. Para Israel, enquanto os iranianos puderem obter armas nucleares, e enquanto permanecer no poder o regime cuja meta é acabar com o país — sustentando uma vasta rede terrorista no mundo todo —, permanecerá a ameaça existencial. Netanyahu também enfrenta eleições em outubro. Mesmo que perca, nenhum governo israelense aceitará o risco de um Irã nuclear. Não há como escapar à conclusão de que, mesmo depois do acordo, o planeta terá ficado pior do que antes da guerra.

Em vez de dar exemplo, TCU agrava abusos dos ‘penduricalhos’

Por O Globo

Desafiando decisão do STF, portaria cria gratificação equivalente a aumento salarial entre 6% e 15%

Os abusos com as verbas indenizatórias que inflam os supersalários da elite do funcionalismo público, os famigerados “penduricalhos”, não têm fim. Portaria assinada pelo presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), ministro Vital do Rêgo, criou uma nova gratificação para quem ocupa cargos de direção, procuradores, unidades técnicas e chefia e assessoramento em gabinetes de ministros. O acréscimo de 6% a 15% sobre a remuneração total (e não sobre a básica) beneficiará 900 funcionários, parte com vencimentos já acima do teto constitucional de R$ 46,4 mil. Embora descrito como indenizatório, o pagamento foi associado ao exercício de determinados cargos. Em vez de calculado a partir de despesas, é definido sobre os vencimentos. Até auditores se revoltaram com a incoerência e com a falta de justificativa plausível.

A campanha do TCU por aumento salarial ganhou impulso há um ano, com a apresentação de um Projeto de Lei pelo próprio tribunal, propondo mudanças no plano de carreira. Aprovado em novembro na Câmara, o texto seguiu ao Senado e, em dezembro, o plenário ratificou a decisão de reestruturar a carreira dos servidores e reajustar os salários em quatro parcelas, entre 2026 e 2029. Além do aumento para o salário básico, criaram-se um acréscimo de até 30% por título de especialização ou qualificação, verbas extras para quem ocupa funções comissionadas e percentuais de gratificações. Em fevereiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou os reajustes previstos entre 2027 e 2029 e um dispositivo que criava licenças compensatórias.

Não satisfeita, a presidência do TCU voltou à carga com a nova gratificação. Ao tentar justificá-la, Rêgo citou a “alta eficiência” do tribunal e seu “expressivo retorno social e financeiro”. Ressaltou a “alta relevância, a densidade e o expressivo volume de demandas que tramitam anualmente”. O trabalho do TCU tem sido sem dúvida de valor inestimável. Tal fato, porém, não dá carta branca a novos penduricalhos.

É bem provável que a nova gratificação acabe na Justiça. Em março, o Supremo Tribunal Federal (STF), numa decisão generosa com a elite do funcionalismo, permitiu que as verbas indenizatórias pudessem acrescentar mais 70% ao teto constitucional, na prática elevado a R$ 78,9 mil. A decisão mirou o Judiciário e o Ministério Público, mas também incluiu Tribunais de Contas, Defensorias Públicas e Advocacias Públicas. Entre dezembro de 2023 e 2025, pelo menos 156 auditores e técnicos do TCU receberam vencimentos acima de R$ 80 mil mensais, segundo reportagem da Folha de S.Paulo.

A contradição em classificar a gratificação como indenizatória é óbvia, mas não é a única. Há uma questão subjacente. O TCU é instituição de controle externo do governo federal no acompanhamento da execução orçamentária e financeira. Um de seus objetivos é contribuir para aperfeiçoar a máquina pública. O próprio TCU diz ter “como meta ser referência na promoção de uma administração pública efetiva, ética, ágil e responsável”. Exatamente o contrário do que faz a portaria de Rêgo.

Muito barulho por quase nada

Por O Estado de S. Paulo

Trump anuncia acordo com o Irã como se fosse uma vitória na guerra, mas o regime dos aiatolás resiste, a região está mais insegura e o programa nuclear do Irã ainda está por ser negociado

O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou um acordo com o Irã em tom de triunfo. O Estreito de Ormuz será reaberto. Os navios voltarão a circular. Após meses convivendo com a ameaça de uma ruptura prolongada do comércio de energia, os mercados respiram aliviados. Depois de quase quatro meses de guerra, não é pouco. Mas está longe de ser muito.

Desde o início do conflito, a Casa Branca associou a campanha militar a objetivos certamente mais ambiciosos do que o fluxo comercial no Golfo – que, recorde-se, estava desimpedido antes da guerra. Em momentos diferentes, falou-se em neutralizar a ameaça nuclear iraniana, debilitar a Guarda Revolucionária, obliterar as milícias apoiadas por Teerã e cimentar a estabilidade regional. A própria queda do regime entrou no horizonte das promessas.

Do que se sabe do acordo a ser ratificado na próxima sexta-feira, Ormuz será gradualmente desobstruído, o bloqueio naval americano será suspenso, o Irã poderá voltar a exportar petróleo e as partes negociarão pelos próximos 60 dias um entendimento mais amplo.

No momento, o programa nuclear iraniano continua sendo objeto de conversas futuras. O destino dos estoques de urânio enriquecido permanece indefinido. Não há clareza sobre os limites que serão impostos ao enriquecimento nem sobre mecanismos permanentes de verificação. Não há clareza sequer sobre o formato do acordo que Washington pretende alcançar. Ou seja, as hostilidades terminam abrindo negociações justamente sobre aquilo que serviu de justificativa para a guerra.

Não é que a ofensiva americana tenha sido completamente inútil. O Irã sofreu danos reais. Sua infraestrutura militar foi atingida. Parte de suas capacidades nucleares foi degradada. A liderança iraniana descobriu que está longe de ser intocável. Mesmo críticos do conflito reconhecem que, se o regime está mais radicalizado, também está mais vulnerável. Só que vulnerabilidade não é sinônimo de contenção.

Os mísseis balísticos continuam existindo, bem como a rede regional de milícias terroristas a serviço de Teerã. Os países do Golfo celebram a perspectiva de estabilidade imediata, mas dificilmente se sentem mais seguros do que antes da guerra. Israel, principal aliado regional dos EUA, observa com inquietação um acordo que parece deixar de fora justamente os temas que mais o preocupam.

A ironia é amarga. O resultado mais tangível do acordo é a reabertura de Ormuz. Só que antes da guerra Ormuz já estava aberto. O que mudou foi a demonstração prática da capacidade do Irã de provocar choques econômicos globais quando decide transformar o estreito em instrumento de pressão política. Uma ameaça que durante anos permaneceu teórica foi testada com razoável grau de sucesso e tornou-se um fato concreto.

Além do silêncio das armas e da circulação dos cargueiros, qualquer celebração seria prematura. Assim como seria prematuro declarar o triunfo ou o fracasso de um lado ou de outro. Os próximos meses podem produzir avanços relevantes. Um acordo robusto sobre o programa nuclear mudaria a avaliação desse conflito – ainda que o mesmo resultado talvez pudesse ter sido obtido pela via diplomática.

No entanto, se os objetivos anunciados para a guerra forem tomados como critério, o resultado provisório está mais longe de ser uma vitória dos EUA do que do Irã. O regime dos aiatolás segue no poder, o Irã demonstrou capacidades consideráveis de causar estragos econômicos e os países da região se sentem menos seguros e mais desconfiados de Washington. Mais importante: a capacidade nuclear iraniana não foi eliminada. A menos que a ofensiva diplomática reverta esse quadro, a “paz” prometida por Trump sairá muito cara para os EUA e o mundo.

Talvez o acordo venha a ser lembrado como o primeiro passo para uma solução duradoura. Hoje, porém, ele se parece mais com uma trégua que compra tempo – ou uma saída de emergência – do que com uma paz que resolve problemas. A história das guerras está repleta de armistícios celebrados como triunfos antes que seus termos fossem postos à prova. O acordo propagandeado por Trump ainda terá de percorrer um longo caminho para demonstrar que pertence a uma categoria diferente.

Estado de negação

Por O Estado de S. Paulo

Correios registram prejuízo recorde de R$ 3,16 bilhões no primeiro trimestre, mas, para a ministra Esther Dweck, o plano de recuperação da estatal ‘está indo muito bem’

A certa altura do filme Erik, o Viking, uma ilha chamada Hy-Brasil está afundando, mas os governantes locais insistem que isso não está acontecendo e que a situação da ilha nunca foi tão boa. Em poucos minutos, a ilha afunda de vez, porque negar a realidade não basta para alterá-la. É o que deveria saber a ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, que há poucos dias disse ao jornal O Globo que “o plano de recuperação (dos Correios) está indo muito bem”, a despeito do fato de que a estatal, tal como Hy-Brasil, está fazendo água por todos os lados.

Depois do prejuízo de R$ 8,5 bilhões no ano passado, o maior de sua série histórica, os Correios baterão novo recorde negativo neste ano, de cerca de R$ 10 bilhões, segundo admitiu a própria direção da empresa.

São 14 trimestres consecutivos de prejuízos, mas, segundo a ministra, não há nenhum descontrole nem algo imprevisto nesses rombos. “Inclusive, o resultado do primeiro trimestre ficou melhor do que a previsão”, afirmou Esther Dweck, ao comentar o registro de mais um prejuízo recorde, desta vez de R$ 3,16 bilhões.

Sabe-se da tara dos governos petistas pelas estatais, mas o caso do apego aos Correios é especial. A empresa acabou de tomar um empréstimo de R$ 12 bilhões de um consórcio de bancos, precisa de uma captação adicional de R$ 7 bilhões a R$ 8 bilhões neste ano para pagar as contas em dia, e conta, ainda, com um aporte de ao menos R$ 6 bilhões da União até o fim de 2027, de acordo com o contrato assinado com as instituições financeiras.

Eis a melhor definição de sorvedouro de dinheiro público. Mas, segundo a ministra, em breve os Correios voltarão a ter bons resultados. Se isso realmente ocorresse, depois de um socorro dessa monta, a empresa não teria feito mais que sua obrigação, mas o pior é que nada indica que ela conseguirá cumpri-la. As despesas gerais e administrativas subiram e o faturamento com encomendas e postagens internacionais, os serviços mais lucrativos, despencou.

Há uma luz no fim do túnel, ao menos na opinião de Dweck. Os Correios conseguiram recuperar contratos e estão prestes a anunciar uma parceria com a Receita Federal para gerenciar a logística dos galpões que recebem material apreendido pelo órgão. “Vai reduzir custo da Receita e gerar receita para os Correios”, disse a confiante Esther Dweck, sem explicar a mágica que fará com que algo que gera despesa para a Receita proporcione lucro para os Correios.

O governo tenta emplacar a versão de que a crise dos Correios é pontual. Não é o caso. O Remessa Conforme, criado pelo Executivo para cobrar impostos sobre produtos importados adquiridos por meio de plataformas, foi o pretexto mais recente para as dificuldades da estatal. Mas o fato é que o Tribunal de Contas da União (TCU) e a Controladoria-Geral da União (CGU) emitem alertas sobre a deterioração da situação financeira e os riscos para a continuidade de suas operações há pelo menos dez anos.

As falhas no mais recente plano de reestruturação apresentado pela empresa, segundo o ministro do TCU Walton Alencar Rodrigues, são “estarrecedoras”, e a previsão de receitas futuras não parece nada factível. A corte de contas cobrou ajustes para acompanhar o andamento das medidas e colocou servidores do Tesouro Nacional em sua mira. Afinal, a União é fiadora do empréstimo dos Correios, ou seja, terá de honrá-lo em caso de calote.

Em 2024, o conjunto de 17 estatais federais dependentes recebeu nada menos que R$ 26,7 bilhões em subvenções da União. Os Correios só não fazem parte desse malfadado grupo porque não há espaço no Orçamento-Geral da União para incluir suas despesas sem descumprir as metas fiscais. O empréstimo é um reconhecimento tácito de que a empresa já não é capaz de andar com as próprias pernas e respira por aparelhos.

A solução óbvia, diante do afundamento dos Correios, seria sua privatização. Mas os governantes de Hy-Brasil não querem nem ouvir falar disso.

A esperança que vem de Ribeirão

Por O Estado de S. Paulo

Universidade de São Paulo divulga resultados preliminares animadores de terapia para linfoma e leucemia

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), do Instituto Butantan e do Hemocentro de Ribeirão Preto, no interior paulista, apresentaram recentemente resultados preliminares bastante animadores de um estudo sobre um inovador tratamento contra o linfoma e a leucemia. Trata-se da chamada terapia CAR-T Cell, em que as células de defesa do próprio paciente passam por um processamento em laboratório e são modificadas geneticamente, tornando-se capazes de reconhecer e combater as células cancerígenas.

De acordo com os pesquisadores, quase 90% das 18 pessoas com linfoma que receberam a terapia com célula T tiveram uma resposta positiva contra a doença. E a maioria destas, nas palavras de Rodrigo Calado, diretor-presidente do Hemocentro de Ribeirão Preto e principal pesquisador do Centro de Terapia Celular (CTC-USP), obteve uma “resposta completa” no tratamento – ou seja, houve o “desaparecimento do linfoma”.

É um feito grandioso: pacientes que já haviam tentado outros tratamentos, como a quimioterapia, a radioterapia ou o transplante, apresentaram uma evolução clínica impressionante com a CAR-T Cell. E, muito além de significar a vitória pessoal de um ou outro paciente – o que já seria muito louvável –, os resultados do estudo vão mais longe: mostram a pujança da ciência paulista. São médicos e cientistas que há mais de dez anos se debruçam sobre as pesquisas de tratamentos dos cânceres de sangue.

O trabalho que ainda está na fase clínica 1 e 2 envolve nada menos do que cinco centros de referência: o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, o HC da capital paulista, o HC de Campinas, a Beneficência Portuguesa e o Hospital Sírio-Libanês. As pesquisas, claro, precisam percorrer um longo caminho, com o recrutamento de ao menos cem pacientes, que serão acompanhados por no mínimo um ano após receberem a terapia para que a segurança e a eficácia do tratamento sejam atestadas, como mandam os protocolos científicos.

Tudo isso só é possível porque o governo federal, que investiu R$ 100 milhões na pesquisa, e o governo estadual juntaram esforços em prol da qualidade de vida dos pacientes. E o futuro dessa parceria é promissor: presente na apresentação dos resultados do estudo, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que a terapia com célula T contra o linfoma e a leucemia chegará ao Sistema Único de Saúde (SUS) em breve. E mais: como é 100% nacional, a terapia desenvolvida em Ribeirão Preto custará por paciente um quinto do tratamento similar disponível no mercado – R$ 500 mil, ante R$ 2,5 milhões.

Os resultados da pesquisa de Ribeirão Preto, ainda que preliminares, são positivos sob todas as perspectivas: da ciência, por se tratar da produção local do conhecimento; da saúde, por alimentar a expectativa da cura; e do desenvolvimento econômico do País, por estimular o avanço do setor médico brasileiro. E, não menos importante, os achados autorizam otimismo. Os pacientes com um câncer no sangue, bem como seus familiares, ganham algo de valor inestimável: esperança.

Acordo de paz entre EUA e Irã precisa ser efetivo

Por Valor Econômico

Um acordo de paz, se vingar, é benéfico para o mundo, ao pôr fim a uma guerra insana deslanchada por um presidente irresponsável

Após 108 dias de guerra, Estados Unidos e Irã concordaram em cessar as hostilidades e discutir o futuro na mesa de negociações - desfecho que ainda desperta ceticismo e indica que o conflito nunca deveria ter sido iniciado. O programa nuclear iraniano, um dos alvos do governo americano, continua objeto de acordo futuro, depois que o presidente Donald Trump rejeitou em 2018 o realizado pelo governo de Barack Obama. As sanções, que deveriam levar o Irã a cessar ambições nucleares, continuam sobre a mesa. A guerra provocou o maior choque na oferta de petróleo da história e um impulso inflacionário global relevante, mas com um resultado inútil.

A demonstração da força militar inegável dos Estados Unidos foi inconclusiva. Era sabido desde o início da Operação Fúria Épica, em 28 de fevereiro, que nenhuma alteração relevante ou das metas maximalistas de Trump poderia ser conseguida sem tropas no terreno - enviá-las, por outro lado, atrairia os EUA para um novo atoleiro, como no Iraque e no Afeganistão. Ao mesmo tempo em que restringiu o uso de seu poder bélico, Trump, paradoxalmente, ampliou objetivos e ameaças. Sem estratégia definida, não conseguiu atingir quase nada do que dizia pretender.

A rendição incondicional exigida nos primeiros dias de bombardeio não aconteceu. Tampouco ocorreu a queda do regime, ilusão que o presidente americano nutriu, após ter matado no primeiro dia de guerra o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e parte do primeiro escalão militar e de inteligência do regime. O fim dos programas de mísseis e drones iranianos não se realizou, como mostrou a retaliação do Irã ao disparar contra bases americanas no Kuwait, Catar, Bahrein e Jordânia, após ataques dos EUA a seu território. Não houve também o fim do apoio do Irã a grupos extremistas da região, como o Hezbollah no Líbano. Foi uma exigência iraniana para entendimentos para a paz que Israel parasse de bombardear o grupo xiita no sul do Líbano.

Das bandeiras de Trump, restou o programa nuclear, após proclamar seguidas vezes que o Irã jamais teria armas atômicas. É o que restou de substantivo para discutir entre os dois países, em 60 dias depois de sexta-feira, quando passará a vigorar um memorando de entendimento. O Irã repetiu o que sempre disse, e que não é crível: que seu programa nuclear é pacífico.

EUA e Irã terão de resolver agora o que será feito de 440 kg de urânio enriquecido a 60%, perto do grau de pureza que propiciaria a confecção de armas nucleares. Não há detalhes do acordo, mas Trump recuou do desejo de retirar esse material do país para os EUA ou outra nação. Fala-se agora em dissolvê-lo no Irã. Alguma forma de supervisão do programa iraniano será estabelecida, e o acordo de julho de 2015, enquanto vigente, pressupunha inspeções in loco, sem restrições, da Agência Internacional de Energia Atômica. Dez anos e uma guerra depois, volta-se ao ponto de partida. A diferença é que a infraestrutura nuclear iraniana foi severamente danificada e o uso bélico do processamento do urânio, se existia a intenção, foi bastante retardado.

As sanções dos EUA asfixiam a economia iraniana, às voltas com baixo crescimento e custo de vida em alta, que provocaram manifestações massivas de descontentamento contra a ditadura dos aiatolás, reprimidas com violência pelo regime. Bilhões de dólares do Irã retidos no exterior poderão retornar ao país dependendo dos resultados das negociações. Os EUA abriram uma fresta no bloqueio, ao permitirem, segundo fontes do acordo, que durante 60 dias estarão livre de proibições as exportações de petróleo iraniano.

Trump resolveu encerrar a guerra da mesma maneira improvisada pela qual entrou nela, pois seus prejuízos políticos passaram a superar os benefícios. A inflação subiu de 2,4% em fevereiro, antes dos ataques, para 4,2% em maio, o que lhe custou em popularidade - hoje tem 38% de apoio, o mais baixo de seu segundo governo. Diante de uma eleição crucial de meio de mandato, uma parte dos republicanos começou a se rebelar contra o presidente, que estaria conduzindo o partido para uma derrota certa.

O choque do petróleo, ademais, reduzirá o crescimento global no ano de 2,9% para 2,6%, segundo o Banco Mundial, ou de 3,4% em 2025 para 2,8% em 2026, de acordo com a OCDE. O custo do conflito para o Tesouro americano varia de US$ 29 bilhões (Pentágono) a US$ 34 bilhões (American Enterprise Institute), com o juro dos títulos americano de 10 anos subindo de 4% para 4,4%.

Os EUA destruíram grande parte da capacidade militar iraniana, mas levaram ao poder a ala mais radical do regime. Permitiram, com sua aventura militar, que o Irã demonstrasse sua capacidade de interromper o fluxo de petróleo em Ormuz e de atingir os países vizinhos, a maioria aliados americanos. A guerra não tornou a região mais estável, senão o contrário, dando bons motivos aos países aliados para desconfiarem de que os EUA são incapazes de protegê-los. Um acordo de paz, se vingar, é benéfico para o mundo, ao pôr fim a uma guerra insana deslanchada por um presidente irresponsável.

Proteção às mulheres deve ser contínua e estratégica

Por Correio Braziliense

O feminicídio raramente é uma ocorrência isolada. Normalmente, ele é o ápice de uma sequência de abusos que escalam em gravidade

Em um país que apresenta cenário crítico e em escalada da violência letal contra as mulheres, o combate a essa realidade é sempre urgente. Ferramentas de denúncia e campanhas de conscientização são algumas das ações necessárias para banir essa tragédia que marca o Brasil.

Os dados recentes da segurança pública apontam que o primeiro trimestre deste ano foi o período mais violento em relação a esse tipo de registro desde o início da série histórica, em 2015. De acordo com os levantamentos do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) e do Ministério da Justiça e Segurança Pública, houve 399 feminicídios entre janeiro e março. A soma é cerca de 7,5% maior do que a estatística no mesmo período de 2025 (371 casos).

Iniciativas estratégicas — com base em inovação e tecnologia — atuam como pilares essenciais e complementares na linha de frente dessa batalha contínua. Nesse contexto, linhas de comunicação com as autoridades precisam ser constantemente modernizadas e ampliadas. O Disque Denúncia 181, que trata sobre qualquer tipo de crime, e o Ligue 180, especializado na pauta de gênero, são serviços nacionais, gratuitos e anônimos que vêm fazendo a diferença.

Diante da situação de vulnerabilidade que um grande número de vítimas enfrenta, muitas não expõem seus agressores por medo de retaliação, dependência financeira ou psicológica. Por isso, além da fundamental estrutura de apoio, mecanismos que possibilitem comunicar o abuso oficialmente a uma autoridade significam a chance de se livrar desse horror.

Outro ponto primordial são campanhas que conscientizem como agir diante da violência de gênero e mostrem que esse crime atinge pessoas indistintamente. A "Um.Oito.Zero", mobilização proposta por uma organização não governamental, reúne personalidades, inclusive com a participação de quem já foi vítima, para motivar a denúncia. Essa visibilidade é importantíssima, uma vez que, por mais improvável possa parecer, especialistas apontam que muitas mulheres ainda não sabem como pedir ajuda. 

Fato é que o feminicídio raramente é uma ocorrência isolada. Normalmente, ele é o ápice de uma sequência de abusos que escalam em gravidade. Intervir nos estágios iniciais — ameaças de morte, descumprimento de medidas protetivas, posse ilegal de armas por parte do agressor e violência em todos os níveis — é o que efetivamente salva vidas e quebra o ciclo antes que ele se torne fatal. Oferecer canais de auxílio, descentralizando o peso da denúncia das costas exclusivas da vítima e convocando toda a população a agir anonimamente, é um dos caminhos para garantir o direito de viver das brasileiras. 

A segurança das mulheres é um dever coletivo, e não somente das forças policiais. O Brasil precisa estancar essa ferida aberta que compromete profundamente a estrutura do país e deixa marcas permanentes nas famílias e na sociedade.

A dependência perigosa dos nossos munícipios

Por O Povo (CE)

É preciso olhar com a atenção que merece - de preocupação, portanto - a conclusão que apresenta relatório técnico elaborado pelo Centro de Treinamento e Desenvolvimento (Cetrede), da Universidade Federal do Ceará (UFC), acerca da realidade financeira da maioria dos municípios do nosso estado. Consta ali, como uma espécie de choque de realidade, que 54,8% deles precisam de apoio externo para o financiamento de mais de 90% das despesas correntes, o que expõe uma dependência que é suficiente para gerar desequilíbrio.

Trata-se de uma realidade antiga, que, infelizmente, há resistido ao tempo e que mudanças determinadas nos últimos tempos ao processo de distribuição dos recursos pelos entes federativos têm sido insuficientes para transformar. Os números são os seguintes: dos 184 municípios que existem no Ceará, com suas respectivas prefeituras, pelo menos 101 somente conseguem sobreviver com transferência de recursos federais ou estaduais, consideradas as necessidades corriqueiras, à mabutenção do que é basico em seu
funcionamento cotidiano.

Nem sequer é o caso de falar de problemas com o mau uso dos recursos disponíveis, em situações de desvios ou coisas semelhantes, mas, imaginando uma situação em que 100% do dinheiro vá para sua finalidade real não terá sido suficiente. Há um problema de base que precisa ser discutido com seriedade maior dentro de um esforço de busca de solução, considerando a necessidade de olhar o interesse das populações de localidades que merecem ter maior atenção do Estado, porque aqui, em geral, falamos exatamente dos municípios onde a carência das famílias costuma ser maior.

Uma saída que os especialistas apontam é a execução de uma política que seja atrativa para investimentos, não existe mágica para uma situação, como já dito, que resiste ao tempo e às mudanças na realidade econômica mundial. Outro ponto destacado como alternativa de reversão do quadro desfavorável: melhorar a gestão tributária, o que representa, muitas vezes, simplesmente iniciar o processo de cobrança mais sério de um tributo essencialmente municipal, no caso, o IPTU. Convenhamos, um caminho antipático e que os gestores preferem evitar.

No mais, é fundamental que prevaleça o rigor administrativo e financeiro da parte dos prefeitos dos municípios cearenses com dependência extrema, nas suas despesas corriqueiras, de recursos transferidos através das alternativas mais diversas. Por exemplo, elegendo prioridades que realmente coloquem os parcos recursos disponíveis à disposição das comunidades numa perspectiva de atender às suas necessidades reais. Qualquer desvio será considerado inaceitável. 

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