quinta-feira, 4 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Com novos pretextos, Trump renova ameaça de tarifaço

Por Folha de S. Paulo

Casa Branca recorre a argumentos como corrupção e Pix para outra ofensiva protecionista contra o Brasil

Ataque comercial será inevitavelmente utilizado como arma eleitoral; espera-se que governo Lula acione diplomacia para mitigar as medidas

Movido por crenças equivocadas, o governo de Donald Trump novamente ataca parceiros comerciais com ameaça de novas tarifas.

Em mais um capítulo da sua cruzada protecionista, a Casa Branca agora mira o Brasil com medidas que, se não têm o caráter de chantagem política explícita do tarifaço de 2025, não deixam de revelar uma estratégia de hostilidade sistemática.

A investigação da chamada Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, aberta em julho do ano passado e recém-concluída, é o principal instrumento dessa nova ofensiva, que pode resultar em impostos de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros.

Segundo a consultoria MB Associados, o impacto recairia sobre 27% das exportações nacionais para os Estados Unidos —cerca de US$ 9,5 bilhões dos US$ 37,7 bilhões exportados para o parceiro comercial em 2025.

Os setores mais atingidos incluem máquinas e equipamentos, madeira, produtos elétricos, calçados, têxteis, borracha, plásticos, etanol, açúcar e pescados.

Por conveniência americana, foram excluídos itens estratégicos, caso de componentes da indústria aeronáutica, além de alguns alimentos.

Em paralelo, a conclusão de outra investigação, sobre trabalho forçado, divulgada nesta quarta-feira (3), agrava ainda mais o quadro. A partir dela, propõe-se tarifa adicional de 12,5% sobre produtos do Brasil e de outros 58 países, sob a acusação de falhas no combate ao emprego em condições análogas à escravidão.

Tanto a Seção 301 quanto a apuração sobre trabalho forçado decorrem diretamente da derrota sofrida por Trump na Suprema Corte. Ao derrubar as tarifas globais impostas anteriormente, a Justiça obrigou a Casa Branca a buscar alternativas. Uma delas foi uma tarifa universal de 10%, decretada em fevereiro e com prazo de expiração em julho.

A lista de queixas americanas é extensa e, em vários aspectos, genérica: desmatamento ilegal, leniência no combate à corrupção, proteção insuficiente à propriedade intelectual, barreiras ao comércio digital e até o acesso ao mercado de etanol.

Algumas delas são francamente estapafúrdias, como a objeção ao Pix —que, segundo Washington, colocaria empresas americanas em "desvantagem injusta". Não importa a razão. O que os EUA querem é qualquer pretexto para acionar o gatilho tarifário. Trata-se de uma obsessão de Trump, que vê nas barreiras comerciais uma panaceia econômica.

Aqui, o ataque protecionista será inevitavelmente utilizado como arma eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra Flávio Bolsonaro (PL), que, ao lado do pai e dos irmãos, corteja Trump.

Espera-se que o governo acione os canais diplomáticos para, como no ano passado, mitigar o tarifaço.Também adepta do protecionismo, a administração petista pode demonstrar que o comércio é benéfico para exportadores e importadores.

Congresso dificulta acesso ao aborto legal

Por Folha de S. Paulo

Ao derrubar resolução do Conanda, parlamentares limitam o direito de crianças estupradas ao procedimento

Protocolos que agilizam e facilitam o acesso ao aborto legal são necessários porque a gravidez é considerada de risco em menores de idade

aborto é um dos principais temas das guerras culturais, que, por serem essencialmente simbólicas, carregam algumas particularidades.

Uma das mais notáveis é que os políticos que travam tais batalhas estão mais interessados em aplausos do que em resultados. A prioridade não é melhorar a vida dos cidadãos ou assegurar-lhes direitos, mas posar para seus próprios eleitores como fiéis defensores da causa.

Tivemos mais um exemplo dessa atitude na terça (2), quando senadores, por meio de votação remota e sem debates num plenário esvaziado, aprovaram um decreto que anula a resolução de 2024 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) que estabelece diretrizes para o aborto legal em crianças e adolescentes.

Como a proposta de decreto já havia sido aprovada pela Câmara em novembro, o diploma entrará em vigor assim que for promulgado pelo Congresso Nacional e publicado.

Nem a resolução nem o decreto legislativo alteram o Código Penal, segundo o qual a gravidez resultante de estupro —e toda relação sexual com menor de 14 anos é estupro de vulnerável pela lei— pode ser interrompida.

A norma do Conanda visa conter atrasos e ingerências indevidas, por meio de protocolos que integram saúde, assistência social, Conselho Tutelar e Justiça.

Um dos dispositivos rechaçados pelo Senado é o que permite a escuta de crianças pelos profissionais de saúde sem a presença dos pais. Especialistas afirmam que a medida é necessária, dado o fato de que, em grande parte dos casos, crianças são abusadas por pessoas do núcleo familiar.

Outra crítica dos senadores é a de que a resolução não impõe um limite de tempo gestacional para o aborto, mas o próprio Código Penal também não o faz.

Agilizar e facilitar o acesso ao aborto legal é necessário porque crianças, principalmente as mais pobres, desconhecem o próprio corpo, têm dificuldade para denunciar abusos sofridos no ambiente doméstico e não acessam regularmente serviços médicos, sem contar que a gravidez nesse estrato é considerada de risco.

Segundo pesquisa do Datafolha de 2024, 34% dos brasileiros acham que a lei sobre aborto deve continuar como é hoje, e 24%, que a prática deveria ser permitida em mais situações.

Políticos precisam tratar a matéria tecnicamente, não com ideologia. Criar barreiras burocráticas não deixa de ser uma forma de agir contra a lei. Nesse caso, porém, tornou-se mais importante posar para a tribo do que atuar com correção e espírito público.

Novo tarifaço requer serenidade

Por O Estado de S. Paulo

Ofensiva tarifária de Trump é séria, mas não catastrófica. Exige reação firme, sem pânico nem bravatas. Enquanto palanques fazem barulho, diplomatas e empresários precisam negociar

A nova rodada de tarifas anunciada pelos EUA foi rapidamente absorvida pela campanha eleitoral. Para o governo Lula, trata-se de mais uma demonstração da arrogância americana e uma oportunidade para vestir o figurino de campeão da soberania. Para o bolsonarismo, a responsabilidade recai sobre a condução da política externa e econômica do governo. Mas, enquanto a disputa verbal domina palanques e redes sociais, empresários, exportadores e diplomatas lidam com uma realidade menos dramática e mais complexa. A proposta americana ainda passará por consultas e audiências. Produtos relevantes foram excluídos das novas tarifas. E, sobretudo, a negociação continua aberta.

A ofensiva não se limita ao Brasil. Depois de perder boa parte de seu arsenal tarifário nos tribunais, o governo Trump passou a recorrer a outros instrumentos, entre eles as investigações conduzidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos. Dezenas de países foram alcançados por iniciativas semelhantes.

Há, em Washington, interesses comerciais, estratégicos e eleitorais operando simultaneamente. Há também diferentes correntes dentro do próprio governo. A disputa com a China, a busca por alternativas de minerais críticos, preocupações com cadeias produtivas estratégicas e temas ligados à segurança regional convivem com agendas mais diretamente associadas à política doméstica. Reduzir tudo a uma tentativa de afetar este ou aquele candidato brasileiro, além de irreal, produz mais calor do que luz.

As tarifas impactam setores importantes e exigem reação. Mas a impressão de que a economia brasileira está diante de um choque devastador não encontra respaldo nos fatos. Uma parcela das exportações para os EUA seria atingida. Outra parcela relevante – como café, suco de laranja, aeronaves e minerais críticos – foi excluída.

Essas exceções revelam que a política comercial de Trump é agressiva, mas não aleatória. Os EUA procuram ampliar sua capacidade de pressão sem prejudicar excessivamente empresas, consumidores e cadeias produtivas relevantes para seus interesses. Em negociações comerciais, os anexos costumam dizer mais que as manchetes.

É nesse espaço que o Brasil precisa atuar. Países que obtiveram melhores resultados diante das investidas tarifárias foram os que mantiveram canais de diálogo abertos, concentraram esforços em objetivos concretos e evitaram transformar disputas comerciais em cruzadas ideológicas. Nem sempre conseguiram eliminar tarifas. Mas frequentemente conseguiram reduzi-las, limitar danos ou ampliar exceções.

Isso exige um discernimento nem sempre fácil em ano eleitoral. A campanha seguirá seu curso. Lula continuará agitando a bandeira da soberania. Seus adversários continuarão associando os custos da crise ao governo. Nada disso é surpreendente. Política é política. Comércio é comércio. Confundir as duas esferas costuma produzir maus resultados.

O Brasil tem interesses permanentes a defender. Alguns são inegociáveis, como a autonomia de suas instituições. Outros exigem negociação paciente e pragmática. É o caso do acesso a mercados, da proteção de exportações relevantes, da atração de investimentos e da ampliação da cooperação econômica com parceiros estratégicos.

O Brasil continua sendo uma das economias mais fechadas do mundo. Exporta pouco para o tamanho de seu mercado e participa menos do comércio internacional do que poderia. A crise atual não foi criada por essa característica, mas ajuda a lembrar seus custos. Quanto maior a integração comercial de um país, mais opções ele tem diante de choques externos. Quanto mais diversificados forem seus mercados, menor será sua vulnerabilidade a decisões tomadas em qualquer capital estrangeira.

As tarifas americanas merecem atenção. Merecem também firmeza na defesa dos interesses nacionais. O que não merecem é pânico. Nem a ilusão de que slogans eleitoreiros resolverão negociações complexas. Em meio ao ruído político, o trabalho mais importante continua sendo o dos diplomatas que negociam, dos empresários que exportam e dos técnicos que ampliam espaços de manobra do País. É deles que dependerá o resultado concreto desta disputa. Não dos palanques.

Prefeito mira o alvo errado

Por O Estado de S. Paulo

Diante de suspeitas sobre contrato de Wi-Fi, Nunes deveria cobrar esclarecimentos e rigor, por se tratar de dinheiro público. Preferiu falar em perseguição política, um evidente absurdo

Quando surgem suspeitas de irregularidades envolvendo contratos públicos, espera-se que um governante adote uma atitude simples e previsível: manifeste apoio às investigações, cobre esclarecimentos e assegure que eventuais responsáveis sejam punidos. Afinal, seu dever institucional é proteger o interesse público. Foi justamente esse roteiro básico que o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), abandonou ao comentar a operação policial que investiga possíveis fraudes no programa WiFi Livre SP.

A investigação conduzida pela Polícia Civil aponta indícios que justificam apuração rigorosa. Os investigadores falam em possível fraude na seleção da entidade responsável pelo serviço, sobrepreço e potencial prejuízo milionário aos cofres públicos. Segundo o inquérito, ao menos R$ 26 milhões podem ter sido desembolsados sem a correspondente prestação dos serviços. Também são apuradas suspeitas de desvio de recursos e confusão patrimonial envolvendo a organização contratada.

Em vez de concentrar sua manifestação na necessidade de esclarecer os fatos apurados, Nunes preferiu sugerir que a operação poderia decorrer de motivações políticas ligadas à produção de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A estranheza aumenta quando se observa o argumento escolhido pelo prefeito. “Eu tenho empresa de embalagem, eu tenho empresa de aterro sanitário, eu tenho fazenda, eu tenho várias atividades”, afirmou. A comparação é curiosa. O que os investigadores procuram esclarecer não é se alguém pode exercer atividades econômicas diversas. Tampouco se discute a legitimidade de produzir filmes, administrar empresas ou explorar propriedades rurais. O que está sob exame é um contrato público específico e a aplicação dos recursos a ele destinados.

Ninguém abriu um inquérito para investigar um filme. Ninguém realizou buscas para examinar opiniões políticas de produtores culturais. O objeto da investigação continua sendo exatamente o mesmo desde o início: um contrato público de internet gratuita e a correta aplicação dos recursos destinados a ele. O filme Dark Horse aparece muito mais nas especulações que passaram a circular nas redes sociais do que nos fatos que fundamentam a apuração policial.

Também não parece fazer sentido falar em perseguição política. A investigação é conduzida pela Polícia Civil de São Paulo. Para que a tese levantada pelo prefeito se sustentasse, seria necessário admitir que a própria estrutura policial do Estado estivesse mobilizando uma investigação sobre um contrato administrativo por razões político-partidárias. Não por acaso, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), ao comentar a operação, limitou-se a reafirmar a autonomia da polícia e a lembrar que se trata de uma instituição de Estado que atua a partir de demandas do Ministério Público. Foi exatamente a atitude que se espera de um agente público diante de uma investigação em curso.

Mas o aspecto mais preocupante da reação do prefeito não está apenas na fragilidade do argumento. Está na inversão de prioridades que ela revela.

Quando surgem suspeitas de que milhões de reais possam ter sido desperdiçados, a primeira preocupação de um governante deveria ser descobrir se a população foi prejudicada. No caso do WiFi Livre, a questão é ainda mais sensível porque se trata de um serviço criado para ampliar o acesso à internet em comunidades vulneráveis. Se as suspeitas forem confirmadas, haverá prejuízo direto aos cidadãos que deveriam ser beneficiários da política pública.

Prefeitos são eleitos para zelar pelo patrimônio público e exigir que cada real arrecadado dos contribuintes produza o resultado prometido à sociedade.

A pergunta que deveria orientar a reação de qualquer administrador público é simples: houve ou não prejuízo ao interesse coletivo? Ao deslocar a discussão para uma suposta perseguição política, Nunes ajuda a obscurecer justamente aquilo que mais interessa aos paulistanos: saber se o dinheiro público foi empregado da forma correta. Diante de suspeitas dessa gravidade, essa não deveria ser apenas sua principal preocupação. Deveria ser a única.

A batalha da CVM

Por O Estado de S. Paulo

Farpas entre a Fazenda e o xerife do mercado em nada ajudam o País a impedir um novo Master

Em vez de utilizarem o escândalo do Master para fortalecer o diálogo entre órgãos de Estado, o Ministério da Fazenda e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) vêm se dedicando a uma troca de farpas que, além de desnecessária, em nada colabora para que novas fraudes financeiras não voltem a ocorrer.

Tendo reconhecidamente falhado na fiscalização do Master e de outras instituições financeiras, a CVM não gostou de um plano de reestruturação elaborado pela Advocacia-Geral da União (AGU). A proposta da AGU atende a uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), a quem a CVM pretende recorrer por entender que há resistência da União para, entre outras coisas, cumprir a decisão do ministro do STF Flávio Dino de que a autarquia deve ficar com pelo menos 70% do que arrecada com a taxa de fiscalização do mercado.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a autarquia está “desautorizada” a procurar a CVM por conta própria. Ainda segundo Durigan, o governo está comprometido com a reestruturação da CVM, desde que isso seja feito de acordo com as regras fiscais do País.

Já o presidente interino da autarquia, João Accioly, diz que o plano do governo ignorou, por exemplo, a recomendação da CVM de que um adicional de 50% seja pago aos servidores que participem de mutirões para reduzir a longa fila de processos da autarquia.

Para a equipe econômica, o adicional é ilegal, uma vez que não está previsto em lei. Ademais, há o temor de que outros órgãos também recorram ao STF em busca de adicionais, comprometendo ainda mais a já frágil situação fiscal do País.

Trata-se de uma típica briga na qual os dois lados conseguem ter razão e estar errados ao mesmo tempo. É verdade que a Fazenda deve zelar pela situação fiscal, mas a pasta vem fazendo inúmeros malabarismos para justificar o pacote infindável de bondades da gestão Lula em ano eleitoral, ou seja, acaba incentivando atores que não se sentem “contemplados” pelo governo a fazer demandas.

Ao determinar que a CVM fique com 70% do que arrecada, o STF reconheceu o “quadro inequívoco de atrofia institucional e asfixia orçamentária” que a autarquia enfrenta. Nos últimos anos, ao mesmo tempo que o mercado de capitais cresceu e sofisticou-se de forma significativa, a CVM perdeu recursos e funcionários, o que obviamente limita sua capacidade fiscalizatória.

É inegável que o órgão precisa de um orçamento mais robusto, inclusive para modernizar-se tecnologicamente. Mas um maior volume de recursos pouco ou nada mudará, sem prioridades que realmente façam sentido.

Nesse contexto, a realização de mutirões causa apreensão entre observadores do mercado. O temor é de que, sob o pretexto de zerar a fila de processos, a CVM, em vez de punir infratores de maneira exemplar, celebre acordos apressadamente. Assim, a autarquia investiria numa solução pontual, em vez de focar numa mudança estrutural de longo prazo.

Pena que, em vez de portarem-se como adultos e trabalharem juntos pelo fortalecimento da CVM, a Fazenda e a autarquia prefiram bater boca pelos jornais.

IA traz ameaça ao jornalismo e à democracia

Por O Globo

Treinados com conteúdo roubado em escala jamais vista, modelos corroem fontes fidedignas de informação

Impulsionada por investimentos de centenas de bilhões de dólares, a inteligência artificial (IA) tem evoluído com rapidez vertiginosa. São a cada dia mais persuasivas as evidências de que poderá atingir capacidade cognitiva e intelectual superior à humana. Um sistema de IA previu a estrutura de 200 milhões de proteínas, rendendo o Nobel de Química a seus desenvolvedores. No mês passado, um modelo da OpenAI resolveu um problema que desafiava os matemáticos desde que fora proposto pelo húngaro Paul Erdös em 1946. Há um ano, outro modelo do Google alcançou o nível dos medalhistas de ouro em Olimpíadas Internacionais de Matemática. Conquistas assim corroboram a previsão de solução em série para problemas até agora intratáveis.

Há razão para otimismo, mas não faltam motivos para apreensão. Em sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV enfatizou as consequências econômicas e sociais da IA em diversas atividades. No 77º Congresso da Associação Mundial de Jornais e Editores de Notícias, o presidente do jornal The New York Times, Arthur G. Sulzberger, chamou a atenção para um dos efeitos mais alarmantes: o impacto no jornalismo e na imprensa. Exatamente como fizeram os pioneiros da internet, as empresas que lideram a corrida da IA têm treinado seus modelos com base no roubo descarado de conteúdos protegidos por direito autoral, em escala nunca vista. As gigantes de tecnologia invadem sites de notícias sem permissão, copiam e reelaboram informações, depois passam a competir em audiência e receita com as empresas de comunicação.

Não é difícil imaginar um momento em que sumirão as fontes fidedignas de informação. “Temo que caminhemos a passos largos para um futuro com cada vez menos jornalistas para fazer o trabalho caro e difícil da reportagem — ir aos lugares, conversar com pessoas, cavar informações, cobrir assuntos e eventos importantes, fornecer contexto e análise, investigar os poderosos”, disse Sulzberger. “Um futuro em que o manancial necessário para uma sociedade saudável e uma democracia estável — a verdade, a compreensão e a responsabilidade social proporcionadas pelo jornalismo — continua a secar.”

O estrago não se resume às empresas jornalísticas. Os sistemas de IA não conhecem limites. Invadem acervos de livros, filmes, música e pesquisas acadêmicas. O significado e a importância desse conjunto de bens transcendem o peso cultural. Na estimativa apresentada por Sulzberger, as profissões “criativas” empregam mais de 50 milhões de pessoas no mundo e geram anualmente US$ 12 trilhões em riqueza.

Os críticos da rapina promovida pelos modelos de IA costumam ser acusados de retrógrados, apegados ao passado. Nada mais falso. As empresas de jornalismo estão entre as primeiras a adotar novas tecnologias, inclusive ferramentas de IA. Não se trata, como ponderou Leão XIV, de ser contra a IA, mas de discutir que versão de IA será mais benéfica para a sociedade. Em seu discurso, Sulzberger relatou como o avanço das redes sociais resultou no fechamento de jornais. Nas comunidades afetadas, diminuíram a confiança e a tolerância, cresceram o isolamento e o ódio. “O engajamento cívico diminui e a corrupção pública aumenta”, disse. Nesse cenário de declínio do jornalismo, a IA pode representar um golpe fatal em democracias já abaladas. É um futuro que deve preocupar os entusiastas ingênuos das novas tecnologias.

Mercado clandestino de armas exige estratégia sofisticada de combate

Por O Globo

Com regras e fiscalização mais rigorosas, volume desviado de CACs quase quadruplicou desde 2023

Alcança volumes assustadores o desvio de armas em poder de amadores identificados pela sigla CAC (colecionador, atirador desportivo e caçador). O relaxamento na concessão dessas licenças no governo Jair Bolsonaro ampliou o mercado clandestino, criando uma nova fonte para os arsenais da criminalidade. Desde a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, explodiu o número de registros de perda, furto ou roubo de armas e munições de CACs. Levantamento do GLOBO identificou 11 mil comunicações à polícia, crescimento de 260% ante os três anos anteriores.

O aumento coincide com a adoção de regras mais rígidas para concessão de licença de CAC e com a transferência dos registros do Exército para a Polícia Federal (PF), que começou a investigar desvios e promoveu o recadastramento. “Os anos de 2023 e 2024 mostram aceleração [de registros e desvios de armas], influenciada pelo recadastramento e pela expectativa de fiscalização mais rigorosa do controle dos CACs pela PF”, afirma Bruno Langeani, pesquisador do Instituto Sou da Paz. “Isso sugere que parte das armas registradas já não estava mais com seus proprietários originais, que formalizaram registros posteriores na expectativa de se proteger de investigações.”

De acordo com a PF, os CACs têm hoje 1,5 milhão de armas, das quais 700 mil adquiridas entre 2020 e 2022, período de afrouxamento das normas. Como reflexo das regras mais rígidas, entre 2023 e 2025, foram concedidas 160 mil licenças, redução de 77% ante os três anos anteriores. Há inúmeros casos de apreensão dessas armas legais em mãos de criminosos.

Em abril de 2023, policiais militares trocaram tiros com dois bandidos e apreenderam uma pistola em Peixoto de Azevedo (MT). Em seguida, um CAC foi à delegacia dar queixa do furto da arma. Investigações constataram que ele usava sua licença para comprar armas e vendê-las no mercado clandestino. Foi condenado a dois anos e oito meses de prisão em regime semiaberto. Em janeiro, foi preso um CAC foragido havia dois anos, acusado de negociar armas e munições para uma facção criminosa da Bahia. Há casos insólitos. Em outubro passado, a Justiça condenou o responsável pela venda de rifas de armas por meio do WhatsApp. Em sua casa foram encontradas três pistolas com numeração irregular. CACs estavam por trás do negócio.

Manifesto do Conselho Nacional de Secretários de Segurança Pública (Consesp) propõe que o poder público indenize os CACs que entregarem suas armas, principalmente as de grosso calibre, para evitar a venda no mercado clandestino. O problema dessa proposta é premiar quem se dispõe a fazer negócios com bandidos. As respostas das autoridades deveriam ter outra natureza. Primeiro, as penas para esse tipo de crime precisam ser mais pesadas, para coibir o uso de licenças de CACs por criminosos. Segundo, é essencial dar todo o apoio à PF, para apertar o cerco a esse mercado subterrâneo. É preciso adotar uma estratégia mais sofisticada para conter e punir esse tipo de crime.

A guerra é dos homens

Por Correio Braziliense

A chaga do abuso sexual, que se expressa com especial ferocidade contra as mulheres, convida a refletir sobre algo mais profundo e permanente que a dinâmica própria dos conflitos armado

Relatório das Nações Unidas vem de apontar, no ano passado, quase 10 mil casos de violência sexual contra mulheres em situações de conflito armado. O número corresponde a mais do que o dobro do registrado pelos organismos da ONU no ano anterior. A publicação documenta o recurso à violação, à escravidão sexual e ao casamento forçado, bem como ao tráfico e aos raptos, em 21 países afetados por conflitos na África, no Oriente Médio, na Europa e no Caribe.

A representante especial do comando da ONU para o tema, Pramila Patten, alerta que "os números contidos no relatório devem ser entendidos não como o quadro completo, mas como indicador de um padrão muito mais amplo de violações que permanecem em grande parte invisíveis e subnotificadas".

Desde a Segunda Guerra Mundial, civis têm sido a maior parte das vítimas em conflitos armados — uma tendência que se acentua. E, nesse quadro, a violência sexual contra as mulheres assoma como um dos viéses mais acentuados e repetidos. Ainda mais chocante: repetem-se as denúncias em que os violadores são militares de terceiros países que integram forças de paz da ONU. É o caso de brasileiros que serviram como "capacetes azuis" no Haiti.

O estupro é documentado como recorrente nas guerras desde sempre. Traduz, em boa medida, uma concepção que é preciso ser confrontada ainda hoje: a de que a mulher seja objeto individual das investidas militares para dominação e conquista territorial.

Relatos datados da antiguidade, passando pelas idades Média e Moderna, coincidem no relato da violência sexual sistemática contra as mulheres de países vencidos ou conquistados. O padrão se repete, por mais que pareça anacrônico, em conflitos que se desenrolam diante dos olhos do mundo inteiro.

Foi assim nas guerras de secessão da ex-Iugoslávia, em especial a da Bósnia. Tem sido igual nos conflitos étnico-religiosos que se multiplicam na África. Denúncias de violência sexual repetem-se também nos relatos das israelenses feitas reféns pelo movimento palestino Hamas após os ataques de 7 de outubro de 2023. Como da parte de palestinos (homens) prisioneiros em Israel.

A chaga do abuso sexual, que se expressa com especial ferocidade contra as mulheres, convida a refletir sobre algo mais profundo e permanente que a dinâmica própria dos conflitos armados. Trata-se de um traço mais ancestral, relacionado à ascensão do modelo social assentado no patriarcado.

A partir do ponto em que os homens se estabeleceram como força dominante daquilo que, ainda hoje, chamamos de civilização, a mulher passou a ser vista e tratada como bem. E a faculdade exclusiva de gerar prole passou a servir como arma de guerra.

Erradicar o estupro como instrumento de dominação exige, por certo, que o crime seja perseguido e punido. Mas, em alcance mais amplo, passa por uma batalha mais profunda e permanente — de ordem cultural. Inclui gestos e atitudes cotidianas. Exige, igualmente, o combate intransigente à cultura patriarcal que normaliza o feminicídio e as violências patriarcais cotidianas.

EUA quer ampliar influência na América Latina

Por O Povo (CE)

Seria de se esperar que, diante dos fatos, houvesse um entendimento mínimo, um ponto de partida para todas as correntes ideológicas brasileiras, reconhecendo que os interesses nacionais estão sob ataque

Tornou-se evidente que o pacote de medidas aplicado pelos Estados Unidos contra o Brasil tem propósito maior do que "castigar" o País por uma relação comercial supostamente desfavorável à Casa Branca. Ou ainda porque o presidente americano, Donald Trump, esteja preocupado com o meio ambiente ou com uma alegada insuficiência de fiscalização para evitar o trabalho forçado no Brasil.

Quanto aos negócios entre EUA e Brasil, a balança comercial é favorável a Washington; o desmatamento no Brasil caiu mais de 20% em 2025, ficando pela primeira vez abaixo de um milhão de hectares, desde 2019; sobre a alegação de trabalho forçado, o Brasil tem diversos programas para combater essa prática.

Em visita ao Brasil (agosto de 2025), o Relator Especial das Nações Unidas sobre Formas Contemporâneas de Escravidão, Tomoya Obokata, afirmou que a ONU tinha interesse em compreender a experiência brasileira, considerada "referência internacional" no combate ao trabalho análogo à escravidão.

Quanto ao Pix, que mais incomoda os americanos, levantamento do Banco Central (2024) observou ter havido aumento nas quatro formas de pagamento mais comuns no Brasil, sem haver substituição de uma por outra. Sobre os cartões de crédito, dados do BC mostram aumento de 11% nas transações, sendo que o número de cartões de crédito ativos cresceu 14%, em comporação a 2023. Os estudos sugerem não haver prejuízo entre as diversas formas de pagamento, mas complementaridade.

Tudo demonstra que o objetivo dos Estados Unidos é ampliar a sua influência na América Latina para fazer frente à China. Os EUA, como qualquer outro país, têm o direito de estabelecer como encaminhar sua política interna e externa. Porém, respeitando as regras democráticas, a legislação internacional e a soberania de outras nações. No entanto, parece que Trump optou pelo caminho da força e da interferência direta na política de outros países, intrometendo-se inclusive em eleições.

Quem age abertamente dessa maneira é o chefe da diplomacia americana, o secretário de Estado Marco Rubio, encarregado da política externa dos EUA, mas dedicando especial atenção à América Latina. Amigo da família Bolsonaro, ele já declarou que o Brasil não pode ser considerado um país "amigável", o que ajuda a explicar o tratamento agressivo que o País vem sofrendo do governo americano.

Seria de se esperar que, diante desses fatos, houvesse um entendimento mínimo, um ponto de partida para todas as correntes ideológicas, reconhecendo que os interesses nacionais estão sob ataque. As possíveis divergências internas, incluindo a disputa eleitoral, não podem servir de biombo para que as prioridades do Brasil e as demandas do povo brasileiro sejam tragadas por uma agenda imposta por um país estrangeiro.

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