sexta-feira, 26 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Infiltração do PCC na Câmara de SP serve de alerta

Por o Globo

Operação que prendeu vereador petista expõe elo preocupante da política com o crime organizado

Foi oportuna a operação deflagrada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo que prendeu nesta quinta-feira o vereador Senival Moura (PT), suspeito de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo as investigações, Senival, primeiro secretário da Câmara Municipal de São Paulo, atuava como figura central num esquema que usava uma empresa de ônibus para lavar dinheiro da facção. É apontado pelos investigadores como controlador indireto da transportadora e dono de parte da frota (ele alega inocência). A operação expõe mais uma vez elos preocupantes da política com o crime organizado.

A infiltração de facções criminosas na economia formal tem sido prática disseminada. Permite manter as atividades ilegais sem despertar a atenção das autoridades. Nesse campo, os bandidos têm sofrido reveses importantes. A Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto do ano passado, se tornou um marco ao expor um esquema gigantesco de sonegação e lavagem de dinheiro para o PCC, envolvendo o setor de combustíveis. As investigações mostraram que os tentáculos do crime se estendiam a fintechs e instituições financeiras da Avenida Faria Lima.

Não espanta que as ramificações do crime tentem também se estender aos domínios da política, pois boa parte das atividades na economia formal depende de decisões de organismos públicos ou casas legislativas. É justamente o caso das empresas de ônibus, cada vez mais usadas em esquemas de lavagem de dinheiro. Em São Paulo, Transwolff e UpBus já tinham sido investigadas por associação ao PCC. A prisão de Senival está vinculada a outra empresa, a Transunião. A Justiça decretou o bloqueio de até R$ 194 milhões dos investigados, incluindo 117 ônibus, 21 imóveis e três embarcações.

O avanço sobre o Legislativo não ocorre só em São Paulo. No Rio, as milícias descobriram há tempos que a atuação política é uma forma de legitimar e beneficiar o crime, barrando no nascedouro leis que poderiam desfavorecer ou prejudicar a atuação de grupos paramilitares. Elegeram vários representantes. O tráfico enveredou por caminho parecido. Em setembro do ano passado, o então deputado estadual Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Joias, foi preso numa operação das polícias Federal e Civil do Rio, acusado de atuar em favor do Comando Vermelho (CV), uma das maiores facções criminosas do país. Ninguém menos que o então presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Rodrigo Bacellar, foi preso, acusado de ter vazado a TH Joias a operação que o tinha como alvo. TH retirou documentos e saiu de casa, mas acabou detido noutro local.

Nada indica que o crime organizado desistirá de ocupar instituições ou empresas do mercado formal. Traficantes, milicianos, corruptos e seus asseclas querem manter seus negócios, ocultar ganhos ilegais e ficar longe da vista dos órgãos de fiscalização e controle. Cabe à sociedade impedir que eles continuem usando a fantasia de cidadãos de bem para ajudar a quem deveriam combater. Não há outra resposta possível além de investigações rigorosas e operações sistemáticas de repressão com prisões, confisco, bloqueio de ativos e empresas fajutas. Além de imporem prejuízo às quadrilhas, servem para transmitir um recado a outros criminosos.

Novo ‘penduricalho’ do TCE-SP mostra que problema continua sem solução

Por O Globo

Decisão do Supremo foi incapaz de disciplinar criação de benesses pela elite do funcionalismo

Apesar de o Supremo Tribunal Federal (STF) ter tentado disciplinar os abusos com as verbas indenizatórias que inflam o salário da elite do funcionalismo, os proverbiais “penduricalhos”, as regras estabelecidas pela Corte em março — mesmo benevolentes — não impuseram o freio necessário à criação de novas benesses. O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) aprovou em abril um adicional de 35% para conselheiros e procuradores que acumulem funções administrativas. A resolução nem sequer foi publicada no Diário Oficial do estado — em absoluta falta de transparência e descaso com o contribuinte.

Na prática, o STF estabeleceu em março um novo teto salarial, de R$ 78,9 mil, ao permitir que as verbas indenizatórias ultrapassem em até 70% o limite constitucional de R$ 46,4 mil — equivalente ao salário de um ministro do próprio Supremo. Mas reforçou que se trata de uma decisão temporária, exigiu que as parcelas indenizatórias além do salário estejam previstas em lei federal e instou o Legislativo a cumprir seu papel de impor regras transparentes e eficazes para discipliná-las.

O TCE-SP aproveitou que o grupo reunido para formatar um marco legal sobre os “penduricalhos” não concluiu seus trabalhos e criou logo mais um. Alega que se baseou em resoluções do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Ora, o fato de haver vantagens similares noutros segmentos do funcionalismo não justifica a nova benesse. O argumento frágil do TCE-SP se baseia no princípio arcaico da “equiparação”, que não estimula a prestação mais eficiente de serviços à população.

Pela lógica insidiosa da elite do funcionalismo, contudo, parece valer tudo para justificar toda sorte de benefício financeiro. No ano passado, o Conselho da Justiça Federal (CJF) e o CNMP aprovaram novas regras sobre as férias de 60 dias que podem gozar os servidores do Judiciário e do Ministério Público. Juízes, promotores e procuradores passaram a poder parcelar essas férias em até 12 períodos de cinco dias cada. O objetivo? Usufruí-las nos dias úteis, sem descontar delas os fins de semana, reservando parte da extensa folga para converter em “indenizações” futuras. Levantamento feito pelo GLOBO de outros benefícios dessas categorias revela que elas passaram agora a ter direito a até 202 dias de descanso entre os 365 do ano, mais da metade de todo um exercício. Dias à disposição para não trabalhar — ou apenas para reforçar a conta bancária.

Diante da sucessão de abusos, fica evidente que a distorção dos “penduricalhos” continua sem solução. Cabe ao Legislativo cumprir seu dever e estabelecer regras sensatas a respeito.

US$ 2 tri por ano não bastam contra crise climática

Por Folha de S. Paulo

Alcançada pela primeira vez, cifra mostra avanço aquém do necessário para transição energética

O grosso dos recursos é privado (US$ 1,2 tri), ante US$ 763 bi de recursos públicos, sendo que só US$ 198 bi foram para outros países

Soa portentosa a cifra de US$ 2 trilhões para financiar o enfrentamento global da mudança climática, alcançada pela primeira vez em 2024. Comparável ao PIB do Brasil naquele ano, ainda assim essa montanha de recursos se configura alarmantemente inadequada para equacionar o maior desafio planetário de médio e longo prazos.

O relatório da Iniciativa de Política Climática (CPI, na sigla em inglês), divulgado na segunda-feira (22), aponta que investimentos em transição energética, mitigação de emissões de carbono e adaptação a eventos extremos estão em desaceleração. A organização sem fins lucrativos estima que, no ano passado, o quantitativo tenha crescido meros 2%, chegando a US$ 2,1 trilhões.

O incremento para fazer frente às necessidades teria de montar a dois dígitos por ano, projeta a CPI. Na presente conjuntura mundial, com a desestabilização geopolítica e econômica desencadeada por Donald Trump e sua guerra errática contra o Irã, parece improvável mais investimento para estancar o aquecimento global —o risco maior é de haver o contrário, dado o negacionismo imperante na Casa Branca.

Coincidência ou não, as investidas do mandatário americano têm por alvo áreas com abundantes reservas de combustíveis fósseis (petróleo e gás natural), do Irã à Venezuela e à Groenlândia.

Governos do mundo todo redirecionam recursos para defesa, como ocorre na Europa, e para aumentar a autossuficiência em energia fóssil diante da turbulência, com mais investimento em prospecção e extração.

Com isso, avança lentamente a aplicação de fundos na redução de emissões, com a descarbonização de fontes de energia. Embora isso consuma a maior parte do investimento, ou US$ 1,9 trilhão em 2024, seria necessário atingir US$ 7,8 trilhões anuais em quatro anos e US$ 9 trilhões entre 2031 e 2035.

Não surpreende, assim, que o grosso do financiamento climático venha do setor privado (US$ 1,2 trilhão), ante US$ 763 bilhões de recursos públicos. Pior: dessa segunda fatia, só US$ 198 bilhões seguiram para outros países e não para aplicações domésticas, um recuo de 6% em relação a 2023 (US$ 210 bilhões).

Frustra-se, dessa maneira, a expectativa de países menos desenvolvidos de que governos de nações mais ricas aumentem sua contribuição para conter as temperaturas globais, os eventos extremos, como a elevação do nível do mar, e seu impacto sobre populações mais vulneráveis.

Dito de outra maneira, a pauta da justiça climática permanece no centro dos impasses da negociação internacional que tanto prejudicaram o resultado da COP30 em Belém do Pará.

A próxima conferência do clima ocorrerá no final deste ano em Antália, na Turquia. Nada de muito promissor se deve esperar, a julgar pelas tratativas da reunião preparatória em Bonn. Como de hábito, o tema das finanças impediu avanço significativo.

Custo da obesidade vai além da saúde

Por Folha de S. Paulo

Estudo estima impactos no SUS e na arrecadação de impostos, dado que a doença prejudica a produtividade

Os gastos em saúde somariam R$ 29,6 bi anuais, sendo R$ 1,9 bi no tratamento direto da obesidade e o restante com enfermidades relacionadas

Segundo levantamento do Ministério da Saúde divulgado em janeiro, a taxa de obesidade entre adultos no país atingiu 25,7% em 2024, o que representa alta de 118% desde o início da série histórica, em 2006.

Entre crianças e adolescentes (de 5 a 19 anos), relatório da Federação Mundial de Obesidade aponta 38% de prevalência de obesidade e sobrepeso no país —acima da média global de 20,7%— e projeta que se chegará a 50% em 2040.

Considerando que a obesidade é tanto uma enfermidade quanto fator de risco para doenças crônicas não transmissíveis, que impactam um SUS já pressionado por restrições orçamentárias e pelo envelhecimento populacional, o poder público precisa conter o problema tanto para salvar vidas quanto para limitar custos.

Um estudo do Instituto Cordial financiado pela Nordisk, empresa que produz canetas emagrecedoras, estima que o custo anual da doença para os cofres públicos brasileiros seria de R$ 41,7 bilhões a R$ 44,6 bilhões.

Os gastos em saúde somam R$ 29,6 bilhões anuais, sendo R$ 1,9 bilhão no tratamento direto da obesidade, com internações e medicamentos, e o restante com doenças relacionadas, como hipertensão e diabetes.

Dado que a enfermidade e problemas de saúde a ela associados impactam empregabilidade, produtividade e salários, a arrecadação de impostos também fica prejudicada. A perda projetada no setor é de R$ 9,9 bilhões por ano, enquanto os gastos com invalidez somam R$ 6 bilhões.

O combate à obesidade é multifatorial. Portanto, é necessário que governos nas três esferas aloquem os recursos disponíveis em várias frentes. No sistema de ensino, merenda saudável nas escolas aliada à educação alimentar desde a primeira infância produz resultados duradouros.

O desenho urbanístico deve priorizar áreas verdes e espaços para atividades físicas principalmente em comunidades mais pobres, que também precisam ter acesso facilitado a produtos in natura, como frutas e verduras —nesse estrato, o consumo de ultraprocessados, em geral mais baratos, tende a ser alto.

No SUS, monitoramento, prevenção e orientação na atenção básica devem ser a tônica, com melhoria de diagnósticos e na prescrição de medicamentos.

O estudo do Instituto Cordial estima que cada 1% de queda nos índices de obesidade gera uma economia de R$ 444,6 milhões por ano. Assim, políticas públicas integradas no controle da doença são estratégicas para a saúde e para o Orçamento.

A onipresença das bets tem de acabar

Por O Estado de S. Paulo

Investigar um só canal é pouco diante da presença ostensiva das bets na mídia. O Estado tem de impor restrições amplas e compatíveis com os males sociais provocados pela jogatina

A decisão do Ministério da Justiça de investigar a prática de propaganda abusiva do canal CazéTV, que divulga promoções de bets durante a transmissão da Copa do Mundo, é correta, mas suscita dúvidas sobre a seletividade da iniciativa. Concentrar esforços em um veículo específico, enquanto a publicidade ostensiva das apostas online corre solta, de forma desavergonhada, por praticamente todos os espaços de comunicação do País, é um desserviço. É urgente que o Estado imponha regras muito mais restritivas à publicidade das bets, cujos efeitos nocivos para os apostadores há muito são estudados e sobejamente conhecidos.

Hoje, é impossível ignorar a publicidade das bets. Basta assistir a um jogo de futebol para perceber a extensão do problema. Mas não só. Os anúncios de bets, produto responsável por aumentar o endividamento das famílias e afetar a educação de jovens, entre tantos problemas, estão em plataformas digitais, rádios, TV, festas populares, nas ruas e em diversas transmissões esportivas, sem mais restrições além de avisos a serem lidos com lupa sobre a “moderação” na jogatina.

É um escárnio. Não faltam dados sobre o estrago que a ludopatia tem feito no País. O Instituto Locomotiva constatou que 86% dos apostadores têm dívidas, 64% dos quais já estão negativados pelos serviços de proteção ao crédito. Entre os brasileiros inadimplentes, quase um terço aposta regularmente. Os efeitos extrapolam o orçamento doméstico: ansiedade, estresse, culpa e alterações de humor aparecem de forma recorrente entre os próprios jogadores. Seis em cada dez entrevistados na pesquisa admitem que as apostas afetam seu estado emocional e provocam sentimentos negativos.

Em um aspecto ainda mais alarmante, o estudo O impacto das bets na educação superior, realizado pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), mostra que 34% dos jovens entre 18 e 35 anos que planejavam iniciar uma faculdade em 2025 adiaram a matrícula por causa de gastos com apostas. Isso representa quase 1 milhão de brasileiros fora do ensino superior.

Já passou da hora de o Estado determinar regras restritivas às propagandas das apostas online, assim como ocorre com a publicidade de cigarros e bebidas alcoólicas. Não se trata de ferir as liberdades individuais, mas de limitar a publicidade de produtos de altíssimo potencial de dano, que obviamente devem estar submetidos a regras compatíveis com os estragos que provocam. Aqueles que quiserem seguir jogando têm todo o direito de fazê-lo, mas sem incentivos sedutores nem tampouco desconhecimento dos riscos que estão correndo.

Há iniciativas em curso para tentar conter o avanço das apostas online no Brasil. No início de junho, os Ministérios da Justiça e da Fazenda firmaram uma parceria para combater violações de casas de apostas e ampliar a regulamentação do mercado. Um dos focos da cooperação técnica são as interfaces e recursos que enganam os usuários e os induzem a tomar decisões que beneficiam as bets. Mas essas ações claramente são insuficientes. A restrição tem de ser muito mais draconiana.

Como mostrou o Estadão, a publicidade feita por influenciadores, atletas e até medalhistas olímpicos durante as transmissões esportivas edulcora as bets, faz com que as apostas pareçam um entretenimento inofensivo, ampliando os riscos inerentes aos jogos de azar, acelerando sua difusão e convertendo vícios individuais em danos coletivos.

Diante de todos esses fatos, é difícil entender o que ainda impede autoridades com poder de barrar a onipresença das bets na vida dos brasileiros de tomar uma decisão de interesse público. Não há dúvida sobre o que precisa ser feito, mas o que sobressai é a falta de coragem para desafiar o lobby dessa indústria deletéria, sob o falso pretexto de risco de colapso do mercado publicitário.

A história está aí para denunciar a falácia. Tal como ocorreu à época da imposição de restrições à propaganda de álcool e tabaco, o mercado encontrará rapidamente novos anunciantes. Times, atletas, influenciadores, canais do YouTube e eventos culturais vão seguir atraindo patrocinadores dos mais diversos produtos para sustentar seus modelos de negócio, sem que isso seja feito à custa da saúde física, psíquica e financeira dos brasileiros.

O Brasil na lanterna da competitividade

Por O Estado de S. Paulo

Queda no ranking do IMD retrata um país que cresce aos solavancos sem se desenvolver e aspira ao padrão de vida dos países desenvolvidos sem fazer as escolhas duras que eles fizeram

O Brasil conseguiu a proeza de cair sete posições no Ranking Mundial de Competitividade, elaborado pelo International Institute for Management Development (IMD) em parceria com a Fundação Dom Cabral. O que já era ruim ficou ainda pior. Na edição de 2026, o País aparece num desalentador 65.º lugar, em um rol de 70 economias, à frente apenas de Botsuana, Mongólia, Nigéria, Namíbia e Venezuela.

Entre outros vizinhos latino-americanos, o Brasil amarga a pior posição. Chile (43.º), Porto Rico (52.º), Argentina (58.º), Colômbia (59.º), Peru (60.º) e México (62.º) estão todos à sua frente.

Apesar de desempenho razoável em indicadores como “atração de investimento estrangeiro” e “geração de energia renovável”, o País segue falhando em áreas fundamentais para a competitividade. No quesito “eficiência governamental”, ficou na penúltima colocação: 69.ª entre 70 países, superando apenas a Venezuela. Por si só, esse resultado é bastante revelador.

A ineficiência do Estado está na raiz de muitos dos problemas crônicos do Brasil, a começar pela educação básica de baixa qualidade. Da primeira infância à capacitação profissional, o País falha sistematicamente na qualificação de seus cidadãos. Não por acaso, a produtividade medida pelas horas efetivamente trabalhadas recuou 0,5% no primeiro trimestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ibre).

O contraste com economias asiáticas é constrangedor. China e Coreia do Sul, outrora mais pobres do que o Brasil, investiram décadas em educação, infraestrutura e tecnologia. Hoje, superam o País, e muito, em PIB per capita, indicadores educacionais e produtividade do trabalho.

O Brasil só não está ainda pior no ranking porque em critérios como “performance econômica” aparece uma posição acima da Suíça (36.ª, ante 37.ª). Mas a comparação é enganosa. A economia suíça, além de figurar há décadas entre as mais maduras do mundo, combina alta eficiência governamental com excelente infraestrutura. Basta dizer que, no ranking geral, a Suíça ocupa o 3.º lugar, atrás apenas de Singapura e Hong Kong. Seu PIB per capita é praticamente dez vezes maior que o brasileiro.

O crescimento econômico do Brasil não tem bases sólidas. O País insiste em estratégias de curto prazo, como o estímulo ao consumo imediato, em vez de reformas estruturais com horizonte mais largo. Corre, assim, o risco de perder posições até mesmo nos quesitos em que ainda não figura na lanterna.

Como se o quadro já não fosse grave o suficiente, o País está prestes a aprovar o fim da escala de trabalho 6x1, medida cujos efeitos deletérios sobre a produtividade são sobejamente conhecidos. Vale dizer, almeja-se desfrutar das condições de trabalho típicas das nações desenvolvidas, onde as jornadas são mais curtas justamente porque a produtividade é alta, sem passar pelas reformas estruturais e pelos investimentos de longo prazo que tornaram essa realidade possível.

Os números do Fundo Monetário Internacional (FMI) dimensionam o fosso que separa o Brasil daquelas nações mais prósperas. Entre 1980 e 2025, o PIB per capita global cresceu 675%; o do Brasil, no mesmo período, avançou 428%, ou seja, menos de dois terços da média mundial. Enquanto Coreia do Sul, Taiwan e Singapura se desvencilharam da chamada armadilha da renda média, o Brasil parece ter se acomodado nela. Como já sublinhamos nesta página, nada disso é fortuito (ver editorial O Brasil escolheu o atraso, 10/5/2026).

A opção pelo desperdício é tanto mais lamentável quanto maiores são as oportunidades desperdiçadas pela Nação. O País dispõe de capital humano, extensão territorial e diversidade de recursos que poucos no mundo podem contrastar. Se não está inscrito em pedra que o Brasil está condenado à mediocridade, há, no entanto, escolhas que há anos nos mantêm aprisionados a esse fado. E enquanto essas escolhas não mudarem, os rankings continuarão a retratar este país que decidiu ser medíocre.

A Colômbia volta à direita

Por O Estado de S. Paulo

De La Espriella vence nas urnas, mas herda um país dividido e muitos desafios na área de segurança

Mau perdedor, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, alegou “fraude” para não reconhecer de imediato a derrota de seu candidato, Iván Cepeda, para o oposicionista Abelardo de la Espriella nas eleições presidenciais. Em vão. A Registraduría, órgão responsável pela apuração dos votos, confirmou a vitória de De La Espriella.

O futuro ocupante da Casa de Nariño é o mais novo político dito “antissistema” a derrotar o partido no poder, fenômeno que vem ganhando força em todo o mundo.

Embora muito se fale em guinada à direita na América do Sul – o triunfo eleitoral de De La Espriella soma-se ao de Javier Milei, na Argentina, de Rodrigo Paz, na Bolívia, e de José Antonio Kast, no Chile –, o resultado colombiano parece antes um sintoma do cansaço generalizado do eleitor com quem quer que esteja no poder, uma fadiga que tem beneficiado candidatos outsiders.

É verdade que, no momento, com exceções como o Brasil, a maioria dos países sul-americanos é governada pela direita, ao contrário do que se viu no início dos anos 2000, quando partidos de esquerda dominavam a região – movimento que ficou conhecido como “onda rosa”.

Contudo, é preciso matizar as cores dessas ondas – rosa, à esquerda, e azul, à direita. A onda de esquerda ocorreu em um momento no qual o discurso antissistema não era tão prevalente como agora. Os partidos, de uma orientação ou de outra, confrontavam-se, não raro com ferocidade, mas sem pregar contra a ordem político-institucional vigente, como se observa nos últimos anos.

Portanto, a onda azul que parece varrer a América Latina configura um fenômeno mais complexo, já que engloba tanto políticos com longa carreira pública, como Paz e Kast, quanto neófitos estridentes, como Milei e o próprio De La Espriella.

O fato de a Colômbia ter rejeitado nas urnas sua única administração de esquerda – que, a despeito de algum avanço social, implementou uma política de “paz total” que só agravou a violência – não significa que De La Espriella terá governabilidade fácil. Primeiro, porque sua vitória, incontestável, deu-se por margem estreitíssima: cerca de 250 mil votos o separam do derrotado Cepeda.

Além disso, as propostas do presidente eleito para livrar a Colômbia de um de seus principais traumas históricos – a violência – são controversas. Compreende-se que a população, vítima de criminosos, guerrilhas e dissidências envolvidas nas mais diversas atividades ilícitas, tenha, por esperança ou desespero, optado por De La Espriella. Mas, se quiser de fato melhorar a vida do colombiano atormentado pelo crime, o futuro presidente precisará buscar outra inspiração além de seu homólogo salvadorenho, Nayib Bukele.

Encarceramento em massa e supressão de direitos humanos são políticas que podem aplacar a raiva dos cidadãos, mas, cedo ou tarde, cobram um preço elevado sem necessariamente garantir uma paz estável. No caso da Colômbia, país tão marcado pelo crime, é indispensável muita responsabilidade política para lidar com a legítima angústia de sua população.

Juros futuros recuam com a perspectiva de novo corte na Selic

Por Valor Econômico

Contribuiu para a queda o IPCA-15 de junho, que veio abaixo das projeções dos analistas

Após a surpresa de um comunicado pouco claro acerca do corte de 0,25 ponto percentual na reunião do Copom, os juros futuros começaram a ceder. Contribuiu para a queda o IPCA-15 de junho, que veio abaixo das projeções dos analistas, com reduções expressivas na variação dos preços da alimentação no domicílio e fora dele em relação aos meses anteriores. No relatório de Política Monetária divulgado pelo Banco Central, as projeções para o primeiro trimestre de 2028 indicam o IPCA em 3,2%, praticamente no centro da meta. As apostas do mercado em novo corte na reunião do Copom em agosto tornaram-se majoritárias.

O Banco Central apresentou dados que mostraram uma piora da inflação pelo menos até meados do ano que vem. O hiato do produto, a distância entre o que a economia está crescendo e seu potencial, continua positivo em 0,4% no segundo trimestre do ano, mas se estreitará gradativamente até se tornar negativo em 0,5% no quarto trimestre de 2027.

A aceleração da economia levou o BC a elevar a previsão de crescimento da economia de 1,6% para 2% em 2026, não muito abaixo da taxa observada em 2025, de 2,3%. Os estímulos fiscais jogaram um papel para ampliar a demanda, como mostra, por exemplo, a projeção de expansão do crédito, de 9% em 2026, praticamente inalterada, porém com outra composição: os empréstimos com recursos livres desaceleram, enquanto os direcionados, com taxas que não são de mercado, avançam.

A mudança de rumo da economia do primeiro trimestre alterou as projeções para o aumento do consumo das famílias, reestimado de 1,4% para 2,1%, e dos investimentos, de 0,5% para 1,5%. O mercado de trabalho aquecido joga grande peso no consumo e especialmente na inflação de serviços. O crescimento do rendimento médio real habitual no trimestre finalizado em abril teve alta anual de 5,4%. O rendimento médio está 13,1% acima da média de 2019, antes da pandemia, e 5,7% maior do que se prevalecesse a tendência de evolução dos salários observada entre 2017 e 2019.

A Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias, que inclui outras fontes de renda além do trabalho, cresceu 2,2% em termos reais no período, ante 1,6% no trimestre findo em fevereiro. Além do aumento real do salário mínimo e das aposentadorias, a alta da renda refletiu a antecipação da primeira parcela do 13 salário de aposentados e a isenção ou redução do IRPF para as faixas de até R$ 7,5 mil. O BC observa que tanto a renda disponível como a massa de rendimentos, na comparação interanual, registram crescimento bastante acima da inflação.

Com o avanço da economia acima do potencial e dos rendimentos médios, a inflação aumentou. Em 12 meses, a diferença entre o que o Banco Central previa e o IPCA realizado foi de um ponto percentual. Para isso contribuiu muito o aumento dos preços de combustíveis decorrente da guerra no Oriente Médio, mas com prevalência de componentes domésticos. No trimestre encerrado em maio, o IPCA teve variação anualizada de 7,9%, e a média dos núcleos teve alta de 5,5%, muito acima do teto da meta de inflação (4,5%). Em 12 meses, a média dos núcleos de inflação foi de 4,52%.

Há alta expressiva de preços em muitos itens. A elevação anualizada das séries trimestrais com ajuste sazonal de alimentos foi de 15,3%. A dos bens industriais, que vinha até há pouco apresentando variação comportada, subiu de 3,21% para 3,95%. A variação de preços de serviços continua muito alta. Sem passagens aéreas, a alta dessazonalizada e anualizada de serviços foi de 4,65% para 5,56% entre os trimestres encerrados em fevereiro e maio. Em 12 meses, os preços de serviços acumularam alta de 5,97% até maio, quase o mesmo valor do acumulado até fevereiro (6,01%).

Ao utilizar trajetórias semelhantes às mencionadas no boletim Focus, mas incorporando dados com a virada negativa do hiato do produto, que mostrará a economia crescendo abaixo de seu potencial, e juros mais altos que no relatório apresentado em março, a conclusão do BC foi que a projeção de inflação para o primeiro trimestre de 2028, que será o horizonte relevante da política monetária, não se alterou: permanece em 3,2%.

O BC considerou cenários com um El Niño potente em 2026, mas cujos efeitos terão se dissipado totalmente até o início de 2028. Diante da forte incerteza que ronda os cenários, que afetam suas próprias projeções e as de mercado, o BC considerou, como anotado na ata, a possibilidade de pausas para calibragem dos juros em função do novos dados econômicos. Mas pode estar contando não só com uma queda dos juros de ritmo mais lento que antes previsto como com uma taxa terminal do ciclo de afrouxamento mais alta.

O relatório menciona que o pico da taxa Selic real (descontada a inflação), de 9,6%, foi atingido no terceiro trimestre de 2025, e que ela deve chegar a 6,4% no final do horizonte. Como a taxa de juros neutra (nem contracionista nem expansionista) calculada pelo BC é de 5%, os juros nominais poderão estacionar entre 11,25% e 11,5% em 2028, patamar maior que os 10,25% previstos pelo Focus para aquele ano.

O desafio da nova aliança venezuelana

Por Correio Braziliense

Se a nova aliança entre o trumpismo e os remanescentes do chavismo capitular diante do primeiro grande teste real, restará provado que a mudança foi apenas cosmética

Os terremotos gêmeos de magnitude 7,2 e 7,5 que devastaram a Venezuela na quarta-feira, deixando centenas de mortos e lançando o país em estado de emergência, transcendem a catástrofe natural. A tragédia humanitária acelera o calendário geopolítico e põe à prova a sustentabilidade da nova arquitetura de poder desenhada por Washington. O desastre ocorre no exato momento em que o governo de transição, liderado por Delcy Rodríguez, preparava o anúncio da reestruturação de uma dívida externa de US$ 240 bilhões (aproximadamente R$ 1,2 trilhão), passivo muito superior às projeções iniciais de mercado. 

A velocidade e a escala da resposta humanitária coordenada pelos Estados Unidos servirão como termômetro do peso político de Delcy Rodríguez perante a Casa Branca. O envio de socorro é a validação de que a dirigente é, de fato, a escolha do presidente Donald Trump e do secretário de Estado Marco Rubio para estabilizar o país sem o custo de uma ruptura violenta, após a prisão do ex-presidente Nicolás Maduro, em janeiro deste ano, em uma operação militar. Resta saber o que está por vir.

A assistência emergencial funciona como o selo de garantia de que a transição necessita para demonstrar capacidade administrativa perante uma população historicamente fustigada pela escassez. Mais do que tendas e equipes de resgate, a tragédia oferece o pretexto técnico e moral para que o Tesouro americano viabilize um socorro financeiro de proporções inéditas, contornando travas burocráticas no Congresso. Sob o manto da reconstrução de infraestrutura crítica, recursos que antes seriam retidos por sanções podem agora irrigar uma economia paralisada. É uma oportunidade real de aliviar a pressão de uma dívida que ameaçava sufocar a transição antes mesmo de sua consolidação.

A crise, porém, bifurca o futuro venezuelano em duas direções. O primeiro caminho aponta para o êxito de uma engenharia política pragmática, onde o apoio econômico de Washington ancora a governabilidade e moderniza o aparato estatal. O segundo aprofunda a catástrofe e evidenciaria o fracasso na gestão da ajuda e a manutenção dos vícios da estrutura chavista sob nova roupagem. Se a parceria falhar em entregar resultados práticos além da retórica de cúpula, a frustração social acumulada pode converter-se em nova onda de convulsões civis.

A história oferece precedentes pouco animadores. Transições ancoradas em catástrofes naturais e socorro externo raramente entregam o que prometem quando o aparato institucional do país receptor permanece intacto em sua lógica interna. O Haiti de 2010, também devastado por um terremoto, é o exemplo mais doloroso: bilhões em ajuda internacional e presença militar prolongada resultaram em um Estado ainda mais frágil do que antes do terremoto. A Venezuela carrega vulnerabilidades distintas — recursos naturais reais, uma diáspora com capital humano e uma oposição organizada —, mas compartilha o risco central: o de que a ajuda externa financie a sobrevivência das mesmas estruturas que produziram o colapso.

A reconstrução da Venezuela não se resolverá com discursos de solidariedade ou alinhamentos provisórios. Se a nova aliança entre o trumpismo e os remanescentes do chavismo capitular diante do primeiro grande teste real, restará provado que a mudança foi apenas cosmética. Para um povo que já suporta o peso da história e da negligência, o colapso das instituições seria um abalo muito mais definitivo do que os terremotos devastadores.

O comportamento indevido de Gilmar Mendes

Por O Povo (CE)

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes acrescentou mais um componente aos problemas que o STF enfrenta ao participar do programa Roda Viva, da TV Cultura, criticando colegas. Como decano do tribunal, Mendes deveria ser um elemento agregador, um fator de equilíbrio, pelo poder simbólico que o título lhe propicia, como um ministro com mais experiência e conhecimento. Agisse assim, ele destacaria o importante papel do Supremo na distribuição da Justiça. Porém, seu comportamento é o oposto do que se espera de um ministro da mais alta Corte do País.

Sempre vocal, o ministro costuma falar sobre qualquer assunto, como se fosse um político e não um magistrado. Tanto é que, na entrevista, ele se definiu como um "animador cultural", ainda que o tivesse feito de forma aparentemente irônica, porém não longe da verdade quanto ao seu comportamento.

Durante o programa, Gilmar Mendes criticou o ministro André Mendonça pela condução do caso sobre o banco Master e demonstrou contrariedade com o presidente da Corte, Edson Fachin, pela sua insistência em criar um código de conduta para o STF. Até a sempre discreta ministra Cármen Lúcia foi censurada pela sua atuação, quando presidia o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), devido à suposta demora em julgar o processo contra o ex-governador do Rio, Cláudio Castro.

Segundo anotou o jurista Wálter Maierovitch (Uol), a Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman), no seu artigo 36, inciso III, "proíbe os magistrados, fora dos autos, fazer críticas de decisões e despachos aos colegas juízes. Também não podem criticar a forma de condução dos procedimentos e dos processos".

O fato é que se tornou comum a exposição das divergências entre os ministros, em qualquer assunto, e não apenas durante os julgamentos — e nos limites dos assuntos a que se referem os processos. As tensões existentes, que deveriam ser resolvidas em reuniões reservadas à procura de um consenso, tornam-se públicas, intensificando as diferenças e alimentando confrontos desnecessários.

Esses fatos levam descrédito ao STF, como também as suspeitas de uma possível relação de Daniel Vorcaro com os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, que precisam ser explicadas.

Pesquisa recente do Datafolha mostra que o STF tem sua imagem pública desgastada. O levantamento indica que 43% dos brasileiros dizem "não confiar" no STF, com 38% afirmando "confiar pouco" e apenas 16% respondendo "confiar muito".

Frente a esse cenário era de se esperar que os ministros se esmerassem em buscar soluções para ajudar a superar a crise de credibilidade provocada pela disputa interna, mas o inverso prevalece. Ressalte-se que não se pede aos ministros que se submetam à "opinião pública", mas que mantenham uma postura que restaure a confiança na instituição. Assim, suas decisões serão aceitas, mesmo quando o resultado de um julgamento desagradar a um ou outro segmento social ou político da sociedade. 

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