Infiltração do PCC na Câmara de SP serve de alerta
Por o Globo
Operação que prendeu vereador petista expõe
elo preocupante da política com o crime organizado
Foi oportuna a operação deflagrada pela Polícia Civil e
pelo Ministério Público de São Paulo que
prendeu nesta quinta-feira o vereador Senival Moura (PT), suspeito de ligação
com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo
as investigações, Senival, primeiro secretário da Câmara Municipal de São
Paulo, atuava como figura central num esquema que usava uma empresa de ônibus
para lavar dinheiro da facção. É apontado pelos investigadores como controlador
indireto da transportadora e dono de parte da frota (ele alega inocência). A
operação expõe mais uma vez elos preocupantes da política com o crime
organizado.
A infiltração de facções criminosas na economia formal tem sido prática disseminada. Permite manter as atividades ilegais sem despertar a atenção das autoridades. Nesse campo, os bandidos têm sofrido reveses importantes. A Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto do ano passado, se tornou um marco ao expor um esquema gigantesco de sonegação e lavagem de dinheiro para o PCC, envolvendo o setor de combustíveis. As investigações mostraram que os tentáculos do crime se estendiam a fintechs e instituições financeiras da Avenida Faria Lima.
Não espanta que as ramificações do crime
tentem também se estender aos domínios da política, pois boa parte das
atividades na economia formal depende de decisões de organismos públicos ou
casas legislativas. É justamente o caso das empresas de ônibus, cada vez mais
usadas em esquemas de lavagem de dinheiro. Em São Paulo, Transwolff e UpBus já
tinham sido investigadas por associação ao PCC. A prisão de Senival está
vinculada a outra empresa, a Transunião. A Justiça decretou o bloqueio de até
R$ 194 milhões dos investigados, incluindo 117 ônibus, 21 imóveis e três
embarcações.
O avanço sobre o Legislativo não ocorre só em
São Paulo. No Rio, as milícias descobriram há tempos que a atuação política é
uma forma de legitimar e beneficiar o crime, barrando no nascedouro leis que
poderiam desfavorecer ou prejudicar a atuação de grupos paramilitares. Elegeram
vários representantes. O tráfico enveredou por caminho parecido. Em setembro do
ano passado, o então deputado estadual Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH
Joias, foi preso numa operação das polícias Federal e Civil do Rio, acusado de
atuar em favor do Comando Vermelho (CV), uma das maiores facções criminosas do
país. Ninguém menos que o então presidente da Assembleia Legislativa do Rio,
Rodrigo Bacellar, foi preso, acusado de ter vazado a TH Joias a operação que o
tinha como alvo. TH retirou documentos e saiu de casa, mas acabou detido noutro
local.
Nada indica que o crime organizado desistirá
de ocupar instituições ou empresas do mercado formal. Traficantes, milicianos,
corruptos e seus asseclas querem manter seus negócios, ocultar ganhos ilegais e
ficar longe da vista dos órgãos de fiscalização e controle. Cabe à sociedade
impedir que eles continuem usando a fantasia de cidadãos de bem para ajudar a
quem deveriam combater. Não há outra resposta possível além de investigações
rigorosas e operações sistemáticas de repressão com prisões, confisco, bloqueio
de ativos e empresas fajutas. Além de imporem prejuízo às quadrilhas, servem
para transmitir um recado a outros criminosos.
Novo ‘penduricalho’ do TCE-SP mostra que
problema continua sem solução
Por O Globo
Decisão do Supremo foi incapaz de disciplinar
criação de benesses pela elite do funcionalismo
Apesar de o Supremo Tribunal Federal (STF)
ter tentado disciplinar os abusos com as verbas indenizatórias que inflam o
salário da elite do funcionalismo, os proverbiais “penduricalhos”, as regras
estabelecidas pela Corte em março — mesmo benevolentes — não impuseram o freio necessário
à criação de novas benesses. O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo
(TCE-SP) aprovou em abril um adicional de 35% para conselheiros e procuradores
que acumulem funções administrativas. A resolução nem sequer foi publicada no
Diário Oficial do estado — em absoluta falta de transparência e descaso com o
contribuinte.
Na prática, o STF estabeleceu em março um
novo teto salarial, de R$ 78,9 mil, ao permitir que as verbas indenizatórias
ultrapassem em até 70% o limite constitucional de R$ 46,4 mil — equivalente ao
salário de um ministro do próprio Supremo. Mas reforçou que se trata de uma
decisão temporária, exigiu que as parcelas indenizatórias além do salário
estejam previstas em lei federal e instou o Legislativo a cumprir seu papel de
impor regras transparentes e eficazes para discipliná-las.
O TCE-SP aproveitou que o grupo reunido para
formatar um marco legal sobre os “penduricalhos” não concluiu seus trabalhos e
criou logo mais um. Alega que se baseou em resoluções do Conselho Nacional de
Justiça (CNJ) e do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Ora, o fato
de haver vantagens similares noutros segmentos do funcionalismo não justifica a
nova benesse. O argumento frágil do TCE-SP se baseia no princípio arcaico da
“equiparação”, que não estimula a prestação mais eficiente de serviços à
população.
Pela lógica insidiosa da elite do
funcionalismo, contudo, parece valer tudo para justificar toda sorte de
benefício financeiro. No ano passado, o Conselho da Justiça Federal (CJF) e o
CNMP aprovaram novas regras sobre as férias de 60 dias que podem gozar os
servidores do Judiciário e do Ministério Público. Juízes, promotores e
procuradores passaram a poder parcelar essas férias em até 12 períodos de cinco
dias cada. O objetivo? Usufruí-las nos dias úteis, sem descontar delas os fins
de semana, reservando parte da extensa folga para converter em “indenizações”
futuras. Levantamento feito pelo GLOBO de outros benefícios dessas categorias
revela que elas passaram agora a ter direito a até 202 dias de descanso entre
os 365 do ano, mais da metade de todo um exercício. Dias à disposição para não trabalhar
— ou apenas para reforçar a conta bancária.
Diante da sucessão de abusos, fica evidente que a distorção dos “penduricalhos” continua sem solução. Cabe ao Legislativo cumprir seu dever e estabelecer regras sensatas a respeito.
US$ 2 tri por ano não bastam contra crise
climática
Por Folha de S. Paulo
Alcançada pela primeira vez, cifra mostra
avanço aquém do necessário para transição energética
O grosso dos recursos é privado (US$ 1,2
tri), ante US$ 763 bi de recursos públicos, sendo que só US$ 198 bi foram para
outros países
Soa
portentosa a cifra de US$ 2 trilhões para financiar o
enfrentamento global da mudança
climática, alcançada pela primeira vez em 2024. Comparável ao PIB do
Brasil naquele ano, ainda assim essa montanha de recursos se configura
alarmantemente inadequada para equacionar o maior desafio planetário de médio e
longo prazos.
O relatório da Iniciativa de Política
Climática (CPI, na sigla em inglês), divulgado na segunda-feira (22), aponta
que investimentos em transição energética, mitigação de emissões de carbono e
adaptação a eventos extremos estão em desaceleração. A organização sem fins
lucrativos estima que, no ano passado, o quantitativo tenha crescido meros 2%,
chegando a US$ 2,1 trilhões.
O incremento para fazer frente às
necessidades teria de montar a dois dígitos por ano, projeta a CPI. Na presente
conjuntura mundial, com a desestabilização geopolítica e econômica desencadeada
por Donald Trump e
sua guerra errática contra o Irã, parece improvável mais investimento para estancar
o aquecimento global —o risco maior é de haver o contrário, dado o negacionismo
imperante na Casa Branca.
Coincidência ou não, as investidas do
mandatário americano têm por alvo áreas com abundantes reservas de combustíveis
fósseis (petróleo e gás natural), do Irã à Venezuela e
à Groenlândia.
Governos do mundo todo redirecionam recursos
para defesa, como ocorre na Europa, e para aumentar a autossuficiência em
energia fóssil diante da turbulência, com mais investimento em prospecção e
extração.
Com isso, avança lentamente a aplicação de
fundos na redução de emissões, com a descarbonização de fontes de energia.
Embora isso consuma a maior parte do investimento, ou US$ 1,9 trilhão em 2024,
seria necessário atingir US$ 7,8 trilhões anuais em quatro anos e US$ 9
trilhões entre 2031 e 2035.
Não surpreende, assim, que o grosso do
financiamento climático venha do setor privado (US$ 1,2 trilhão), ante US$ 763
bilhões de recursos públicos. Pior: dessa segunda fatia, só US$ 198 bilhões
seguiram para outros países e não para aplicações domésticas, um recuo de 6% em
relação a 2023 (US$ 210 bilhões).
Frustra-se, dessa maneira, a expectativa de
países menos desenvolvidos de que governos de nações mais ricas aumentem sua
contribuição para conter as temperaturas globais, os eventos extremos, como a
elevação do nível do mar, e seu impacto sobre populações mais vulneráveis.
Dito de outra maneira, a pauta da justiça
climática permanece no centro dos impasses da negociação internacional que
tanto prejudicaram
o resultado da COP30 em
Belém do Pará.
A próxima conferência do clima ocorrerá
no final deste ano em Antália, na Turquia.
Nada de muito promissor se deve esperar, a julgar pelas tratativas da reunião
preparatória em Bonn. Como de hábito, o tema das finanças impediu avanço
significativo.
Custo da obesidade vai além da saúde
Por Folha de S. Paulo
Estudo estima impactos no SUS e na
arrecadação de impostos, dado que a doença prejudica a produtividade
Os gastos em saúde somariam R$ 29,6 bi
anuais, sendo R$ 1,9 bi no tratamento direto da obesidade e o restante com
enfermidades relacionadas
Segundo levantamento do Ministério da
Saúde divulgado em janeiro, a taxa de obesidade entre
adultos no país atingiu
25,7% em 2024, o que representa alta de 118% desde o início da série
histórica, em 2006.
Entre crianças e adolescentes (de 5 a 19
anos), relatório da Federação Mundial de Obesidade aponta 38% de prevalência de
obesidade e sobrepeso no país —acima da média global de 20,7%— e projeta que se
chegará a 50% em 2040.
Considerando que a obesidade é tanto uma
enfermidade quanto fator de
risco para doenças crônicas não transmissíveis, que impactam
um SUS já
pressionado por restrições orçamentárias e pelo envelhecimento populacional, o
poder público precisa conter o problema tanto para salvar vidas quanto para
limitar custos.
Um estudo do Instituto Cordial financiado
pela Nordisk, empresa que produz canetas
emagrecedoras, estima que o custo anual da doença para os cofres
públicos brasileiros seria de R$
41,7 bilhões a R$ 44,6 bilhões.
Os gastos em saúde somam
R$ 29,6 bilhões anuais, sendo R$ 1,9 bilhão no tratamento direto da obesidade,
com internações e medicamentos,
e o restante com doenças relacionadas, como hipertensão e diabetes.
Dado que a enfermidade e problemas de saúde a
ela associados impactam empregabilidade, produtividade e salários, a
arrecadação de impostos também fica prejudicada. A perda projetada no setor é
de R$ 9,9 bilhões por ano, enquanto os gastos com invalidez somam R$ 6 bilhões.
O combate à obesidade é multifatorial.
Portanto, é necessário que governos nas três esferas aloquem os recursos
disponíveis em várias frentes. No sistema de ensino, merenda saudável nas escolas
aliada à educação alimentar
desde a primeira infância produz resultados duradouros.
O desenho urbanístico deve priorizar áreas
verdes e espaços para atividades físicas principalmente em comunidades mais
pobres, que também precisam ter acesso facilitado a produtos in natura, como
frutas e verduras —nesse estrato, o consumo de ultraprocessados, em geral mais
baratos, tende a ser alto.
No SUS, monitoramento, prevenção e orientação
na atenção básica devem ser a tônica, com melhoria de diagnósticos e na
prescrição de medicamentos.
O estudo do Instituto Cordial estima que cada 1% de queda nos índices de obesidade gera uma economia de R$ 444,6 milhões por ano. Assim, políticas públicas integradas no controle da doença são estratégicas para a saúde e para o Orçamento.
A onipresença das bets tem de acabar
Por O Estado de S. Paulo
Investigar um só canal é pouco diante da
presença ostensiva das bets na mídia. O Estado tem de impor restrições amplas e
compatíveis com os males sociais provocados pela jogatina
A decisão do Ministério da Justiça de
investigar a prática de propaganda abusiva do canal CazéTV, que divulga
promoções de bets durante a transmissão da Copa do Mundo, é correta, mas
suscita dúvidas sobre a seletividade da iniciativa. Concentrar esforços em um
veículo específico, enquanto a publicidade ostensiva das apostas online corre
solta, de forma desavergonhada, por praticamente todos os espaços de
comunicação do País, é um desserviço. É urgente que o Estado imponha regras
muito mais restritivas à publicidade das bets, cujos efeitos nocivos para os
apostadores há muito são estudados e sobejamente conhecidos.
Hoje, é impossível ignorar a publicidade das
bets. Basta assistir a um jogo de futebol para perceber a extensão do problema.
Mas não só. Os anúncios de bets, produto responsável por aumentar o
endividamento das famílias e afetar a educação de jovens, entre tantos
problemas, estão em plataformas digitais, rádios, TV, festas populares, nas
ruas e em diversas transmissões esportivas, sem mais restrições além de avisos
a serem lidos com lupa sobre a “moderação” na jogatina.
É um escárnio. Não faltam dados sobre o
estrago que a ludopatia tem feito no País. O Instituto Locomotiva constatou que
86% dos apostadores têm dívidas, 64% dos quais já estão negativados pelos
serviços de proteção ao crédito. Entre os brasileiros inadimplentes, quase um
terço aposta regularmente. Os efeitos extrapolam o orçamento doméstico:
ansiedade, estresse, culpa e alterações de humor aparecem de forma recorrente
entre os próprios jogadores. Seis em cada dez entrevistados na pesquisa admitem
que as apostas afetam seu estado emocional e provocam sentimentos negativos.
Em um aspecto ainda mais alarmante, o
estudo O impacto das bets na
educação superior, realizado pela Associação Brasileira de
Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), mostra que 34% dos jovens entre 18 e
35 anos que planejavam iniciar uma faculdade em 2025 adiaram a matrícula por
causa de gastos com apostas. Isso representa quase 1 milhão de brasileiros fora
do ensino superior.
Já passou da hora de o Estado determinar
regras restritivas às propagandas das apostas online, assim como ocorre com a
publicidade de cigarros e bebidas alcoólicas. Não se trata de ferir as
liberdades individuais, mas de limitar a publicidade de produtos de altíssimo
potencial de dano, que obviamente devem estar submetidos a regras compatíveis
com os estragos que provocam. Aqueles que quiserem seguir jogando têm todo o
direito de fazê-lo, mas sem incentivos sedutores nem tampouco desconhecimento
dos riscos que estão correndo.
Há iniciativas em curso para tentar conter o
avanço das apostas online no Brasil. No início de junho, os Ministérios da
Justiça e da Fazenda firmaram uma parceria para combater violações de casas de
apostas e ampliar a regulamentação do mercado. Um dos focos da cooperação
técnica são as interfaces e recursos que enganam os usuários e os induzem a
tomar decisões que beneficiam as bets. Mas essas ações claramente são
insuficientes. A restrição tem de ser muito mais draconiana.
Como mostrou o Estadão, a publicidade feita
por influenciadores, atletas e até medalhistas olímpicos durante as
transmissões esportivas edulcora as bets, faz com que as apostas pareçam um
entretenimento inofensivo, ampliando os riscos inerentes aos jogos de azar,
acelerando sua difusão e convertendo vícios individuais em danos coletivos.
Diante de todos esses fatos, é difícil
entender o que ainda impede autoridades com poder de barrar a onipresença das
bets na vida dos brasileiros de tomar uma decisão de interesse público. Não há
dúvida sobre o que precisa ser feito, mas o que sobressai é a falta de coragem
para desafiar o lobby dessa indústria deletéria, sob o falso pretexto de risco
de colapso do mercado publicitário.
A história está aí para denunciar a falácia.
Tal como ocorreu à época da imposição de restrições à propaganda de álcool e
tabaco, o mercado encontrará rapidamente novos anunciantes. Times, atletas,
influenciadores, canais do YouTube e eventos culturais vão seguir atraindo
patrocinadores dos mais diversos produtos para sustentar seus modelos de
negócio, sem que isso seja feito à custa da saúde física, psíquica e financeira
dos brasileiros.
O Brasil na lanterna da competitividade
Por O Estado de S. Paulo
Queda no ranking do IMD retrata um país que
cresce aos solavancos sem se desenvolver e aspira ao padrão de vida dos países
desenvolvidos sem fazer as escolhas duras que eles fizeram
O Brasil conseguiu a proeza de cair sete
posições no Ranking Mundial de Competitividade, elaborado pelo International
Institute for Management Development (IMD) em parceria com a Fundação Dom
Cabral. O que já era ruim ficou ainda pior. Na edição de 2026, o País aparece
num desalentador 65.º lugar, em um rol de 70 economias, à frente apenas de
Botsuana, Mongólia, Nigéria, Namíbia e Venezuela.
Entre outros vizinhos latino-americanos, o
Brasil amarga a pior posição. Chile (43.º), Porto Rico (52.º), Argentina
(58.º), Colômbia (59.º), Peru (60.º) e México (62.º) estão todos à sua frente.
Apesar de desempenho razoável em indicadores
como “atração de investimento estrangeiro” e “geração de energia renovável”, o
País segue falhando em áreas fundamentais para a competitividade. No quesito
“eficiência governamental”, ficou na penúltima colocação: 69.ª entre 70 países,
superando apenas a Venezuela. Por si só, esse resultado é bastante revelador.
A ineficiência do Estado está na raiz de
muitos dos problemas crônicos do Brasil, a começar pela educação básica de
baixa qualidade. Da primeira infância à capacitação profissional, o País falha
sistematicamente na qualificação de seus cidadãos. Não por acaso, a
produtividade medida pelas horas efetivamente trabalhadas recuou 0,5% no
primeiro trimestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2025, segundo o
Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ibre).
O contraste com economias asiáticas é
constrangedor. China e Coreia do Sul, outrora mais pobres do que o Brasil,
investiram décadas em educação, infraestrutura e tecnologia. Hoje, superam o
País, e muito, em PIB per
capita, indicadores educacionais e produtividade do trabalho.
O Brasil só não está ainda pior no ranking
porque em critérios como “performance econômica” aparece uma posição acima da
Suíça (36.ª, ante 37.ª). Mas a comparação é enganosa. A economia suíça, além de
figurar há décadas entre as mais maduras do mundo, combina alta eficiência
governamental com excelente infraestrutura. Basta dizer que, no ranking geral,
a Suíça ocupa o 3.º lugar, atrás apenas de Singapura e Hong Kong. Seu PIB per capita é praticamente dez
vezes maior que o brasileiro.
O crescimento econômico do Brasil não tem
bases sólidas. O País insiste em estratégias de curto prazo, como o estímulo ao
consumo imediato, em vez de reformas estruturais com horizonte mais largo.
Corre, assim, o risco de perder posições até mesmo nos quesitos em que ainda
não figura na lanterna.
Como se o quadro já não fosse grave o
suficiente, o País está prestes a aprovar o fim da escala de trabalho 6x1,
medida cujos efeitos deletérios sobre a produtividade são sobejamente conhecidos.
Vale dizer, almeja-se desfrutar das condições de trabalho típicas das nações
desenvolvidas, onde as jornadas são mais curtas justamente porque a
produtividade é alta, sem passar pelas reformas estruturais e pelos
investimentos de longo prazo que tornaram essa realidade possível.
Os números do Fundo Monetário Internacional
(FMI) dimensionam o fosso que separa o Brasil daquelas nações mais prósperas.
Entre 1980 e 2025, o PIB per
capita global cresceu 675%; o do Brasil, no mesmo período,
avançou 428%, ou seja, menos de dois terços da média mundial. Enquanto Coreia
do Sul, Taiwan e Singapura se desvencilharam da chamada armadilha da renda
média, o Brasil parece ter se acomodado nela. Como já sublinhamos nesta página,
nada disso é fortuito (ver editorial O Brasil escolheu o atraso, 10/5/2026).
A opção pelo desperdício é tanto mais
lamentável quanto maiores são as oportunidades desperdiçadas pela Nação. O País
dispõe de capital humano, extensão territorial e diversidade de recursos que
poucos no mundo podem contrastar. Se não está inscrito em pedra que o Brasil
está condenado à mediocridade, há, no entanto, escolhas que há anos nos mantêm
aprisionados a esse fado. E enquanto essas escolhas não mudarem, os rankings
continuarão a retratar este país que decidiu ser medíocre.
A Colômbia volta à direita
Por O Estado de S. Paulo
De La Espriella vence nas urnas, mas herda um
país dividido e muitos desafios na área de segurança
Mau perdedor, o presidente da Colômbia,
Gustavo Petro, alegou “fraude” para não reconhecer de imediato a derrota de seu
candidato, Iván Cepeda, para o oposicionista Abelardo de la Espriella nas
eleições presidenciais. Em vão. A Registraduría,
órgão responsável pela apuração dos votos, confirmou a vitória de De La Espriella.
O futuro ocupante da Casa de Nariño é o mais
novo político dito “antissistema” a derrotar o partido no poder, fenômeno que
vem ganhando força em todo o mundo.
Embora muito se fale em guinada à direita na
América do Sul – o triunfo eleitoral de De La Espriella soma-se ao de Javier
Milei, na Argentina, de Rodrigo Paz, na Bolívia, e de José Antonio Kast, no
Chile –, o resultado colombiano parece antes um sintoma do cansaço generalizado
do eleitor com quem quer que esteja no poder, uma fadiga que tem beneficiado
candidatos outsiders.
É verdade que, no momento, com exceções como
o Brasil, a maioria dos países sul-americanos é governada pela direita, ao
contrário do que se viu no início dos anos 2000, quando partidos de esquerda
dominavam a região – movimento que ficou conhecido como “onda rosa”.
Contudo, é preciso matizar as cores dessas
ondas – rosa, à esquerda, e azul, à direita. A onda de esquerda ocorreu em um
momento no qual o discurso antissistema não era tão prevalente como agora. Os
partidos, de uma orientação ou de outra, confrontavam-se, não raro com
ferocidade, mas sem pregar contra a ordem político-institucional vigente, como
se observa nos últimos anos.
Portanto, a onda azul que parece varrer a
América Latina configura um fenômeno mais complexo, já que engloba tanto
políticos com longa carreira pública, como Paz e Kast, quanto neófitos
estridentes, como Milei e o próprio De La Espriella.
O fato de a Colômbia ter rejeitado nas urnas
sua única administração de esquerda – que, a despeito de algum avanço social,
implementou uma política de “paz total” que só agravou a violência – não
significa que De La Espriella terá governabilidade fácil. Primeiro, porque sua
vitória, incontestável, deu-se por margem estreitíssima: cerca de 250 mil votos
o separam do derrotado Cepeda.
Além disso, as propostas do presidente eleito
para livrar a Colômbia de um de seus principais traumas históricos – a
violência – são controversas. Compreende-se que a população, vítima de
criminosos, guerrilhas e dissidências envolvidas nas mais diversas atividades
ilícitas, tenha, por esperança ou desespero, optado por De La Espriella. Mas,
se quiser de fato melhorar a vida do colombiano atormentado pelo crime, o
futuro presidente precisará buscar outra inspiração além de seu homólogo salvadorenho,
Nayib Bukele.
Encarceramento em massa e supressão de direitos humanos são políticas que podem aplacar a raiva dos cidadãos, mas, cedo ou tarde, cobram um preço elevado sem necessariamente garantir uma paz estável. No caso da Colômbia, país tão marcado pelo crime, é indispensável muita responsabilidade política para lidar com a legítima angústia de sua população.
Juros futuros recuam com a perspectiva de
novo corte na Selic
Por Valor Econômico
Contribuiu para a queda o IPCA-15 de junho,
que veio abaixo das projeções dos analistas
Após a surpresa de um comunicado pouco claro
acerca do corte de 0,25 ponto percentual na reunião do Copom, os juros futuros
começaram a ceder. Contribuiu para a queda o IPCA-15 de junho, que veio abaixo
das projeções dos analistas, com reduções expressivas na variação dos preços da
alimentação no domicílio e fora dele em relação aos meses anteriores. No
relatório de Política Monetária divulgado pelo Banco Central, as projeções para
o primeiro trimestre de 2028 indicam o IPCA em 3,2%, praticamente no centro da
meta. As apostas do mercado em novo corte na reunião do Copom em agosto
tornaram-se majoritárias.
O Banco Central apresentou dados que
mostraram uma piora da inflação pelo menos até meados do ano que vem. O hiato
do produto, a distância entre o que a economia está crescendo e seu potencial,
continua positivo em 0,4% no segundo trimestre do ano, mas se estreitará gradativamente
até se tornar negativo em 0,5% no quarto trimestre de 2027.
A aceleração da economia levou o BC a elevar
a previsão de crescimento da economia de 1,6% para 2% em 2026, não muito abaixo
da taxa observada em 2025, de 2,3%. Os estímulos fiscais jogaram um papel para
ampliar a demanda, como mostra, por exemplo, a projeção de expansão do crédito,
de 9% em 2026, praticamente inalterada, porém com outra composição: os
empréstimos com recursos livres desaceleram, enquanto os direcionados, com
taxas que não são de mercado, avançam.
A mudança de rumo da economia do primeiro
trimestre alterou as projeções para o aumento do consumo das famílias,
reestimado de 1,4% para 2,1%, e dos investimentos, de 0,5% para 1,5%. O mercado
de trabalho aquecido joga grande peso no consumo e especialmente na inflação de
serviços. O crescimento do rendimento médio real habitual no trimestre
finalizado em abril teve alta anual de 5,4%. O rendimento médio está 13,1%
acima da média de 2019, antes da pandemia, e 5,7% maior do que se prevalecesse
a tendência de evolução dos salários observada entre 2017 e 2019.
A Renda Nacional Disponível Bruta das
Famílias, que inclui outras fontes de renda além do trabalho, cresceu 2,2% em
termos reais no período, ante 1,6% no trimestre findo em fevereiro. Além do
aumento real do salário mínimo e das aposentadorias, a alta da renda refletiu a
antecipação da primeira parcela do 13 salário de aposentados e a isenção ou
redução do IRPF para as faixas de até R$ 7,5 mil. O BC observa que tanto a
renda disponível como a massa de rendimentos, na comparação interanual,
registram crescimento bastante acima da inflação.
Com o avanço da economia acima do potencial e
dos rendimentos médios, a inflação aumentou. Em 12 meses, a diferença entre o
que o Banco Central previa e o IPCA realizado foi de um ponto percentual. Para
isso contribuiu muito o aumento dos preços de combustíveis decorrente da guerra
no Oriente Médio, mas com prevalência de componentes domésticos. No trimestre
encerrado em maio, o IPCA teve variação anualizada de 7,9%, e a média dos
núcleos teve alta de 5,5%, muito acima do teto da meta de inflação (4,5%). Em
12 meses, a média dos núcleos de inflação foi de 4,52%.
Há alta expressiva de preços em muitos itens.
A elevação anualizada das séries trimestrais com ajuste sazonal de alimentos
foi de 15,3%. A dos bens industriais, que vinha até há pouco apresentando
variação comportada, subiu de 3,21% para 3,95%. A variação de preços de
serviços continua muito alta. Sem passagens aéreas, a alta dessazonalizada e
anualizada de serviços foi de 4,65% para 5,56% entre os trimestres encerrados
em fevereiro e maio. Em 12 meses, os preços de serviços acumularam alta de
5,97% até maio, quase o mesmo valor do acumulado até fevereiro (6,01%).
Ao utilizar trajetórias semelhantes às
mencionadas no boletim Focus, mas incorporando dados com a virada negativa do
hiato do produto, que mostrará a economia crescendo abaixo de seu potencial, e
juros mais altos que no relatório apresentado em março, a conclusão do BC foi
que a projeção de inflação para o primeiro trimestre de 2028, que será o
horizonte relevante da política monetária, não se alterou: permanece em 3,2%.
O BC considerou cenários com um El Niño
potente em 2026, mas cujos efeitos terão se dissipado totalmente até o início
de 2028. Diante da forte incerteza que ronda os cenários, que afetam suas
próprias projeções e as de mercado, o BC considerou, como anotado na ata, a
possibilidade de pausas para calibragem dos juros em função do novos dados
econômicos. Mas pode estar contando não só com uma queda dos juros de ritmo
mais lento que antes previsto como com uma taxa terminal do ciclo de
afrouxamento mais alta.
O relatório menciona que o pico da taxa Selic real (descontada a inflação), de 9,6%, foi atingido no terceiro trimestre de 2025, e que ela deve chegar a 6,4% no final do horizonte. Como a taxa de juros neutra (nem contracionista nem expansionista) calculada pelo BC é de 5%, os juros nominais poderão estacionar entre 11,25% e 11,5% em 2028, patamar maior que os 10,25% previstos pelo Focus para aquele ano.
O desafio da nova aliança venezuelana
Por Correio Braziliense
Se a nova aliança entre o trumpismo e os
remanescentes do chavismo capitular diante do primeiro grande teste real,
restará provado que a mudança foi apenas cosmética
Os terremotos gêmeos de magnitude 7,2 e 7,5
que devastaram a Venezuela na quarta-feira, deixando centenas de mortos e
lançando o país em estado de emergência, transcendem a catástrofe natural. A
tragédia humanitária acelera o calendário geopolítico e põe à prova a
sustentabilidade da nova arquitetura de poder desenhada por Washington. O
desastre ocorre no exato momento em que o governo de transição, liderado por Delcy
Rodríguez, preparava o anúncio da reestruturação de uma dívida externa de US$
240 bilhões (aproximadamente R$ 1,2 trilhão), passivo muito superior às
projeções iniciais de mercado.
A velocidade e a escala da resposta
humanitária coordenada pelos Estados Unidos servirão como termômetro do peso
político de Delcy Rodríguez perante a Casa Branca. O envio de socorro é a
validação de que a dirigente é, de fato, a escolha do presidente Donald Trump e
do secretário de Estado Marco Rubio para estabilizar o país sem o custo de uma
ruptura violenta, após a prisão do ex-presidente Nicolás Maduro, em janeiro
deste ano, em uma operação militar. Resta saber o que está por vir.
A assistência emergencial funciona como o
selo de garantia de que a transição necessita para demonstrar capacidade
administrativa perante uma população historicamente fustigada pela escassez.
Mais do que tendas e equipes de resgate, a tragédia oferece o pretexto técnico
e moral para que o Tesouro americano viabilize um socorro financeiro de
proporções inéditas, contornando travas burocráticas no Congresso. Sob o manto
da reconstrução de infraestrutura crítica, recursos que antes seriam retidos
por sanções podem agora irrigar uma economia paralisada. É uma oportunidade
real de aliviar a pressão de uma dívida que ameaçava sufocar a transição antes
mesmo de sua consolidação.
A crise, porém, bifurca o futuro venezuelano
em duas direções. O primeiro caminho aponta para o êxito de uma engenharia
política pragmática, onde o apoio econômico de Washington ancora a
governabilidade e moderniza o aparato estatal. O segundo aprofunda a catástrofe
e evidenciaria o fracasso na gestão da ajuda e a manutenção dos vícios da
estrutura chavista sob nova roupagem. Se a parceria falhar em entregar
resultados práticos além da retórica de cúpula, a frustração social acumulada
pode converter-se em nova onda de convulsões civis.
A história oferece precedentes pouco
animadores. Transições ancoradas em catástrofes naturais e socorro externo
raramente entregam o que prometem quando o aparato institucional do país
receptor permanece intacto em sua lógica interna. O Haiti de 2010, também
devastado por um terremoto, é o exemplo mais doloroso: bilhões em ajuda internacional
e presença militar prolongada resultaram em um Estado ainda mais frágil do que
antes do terremoto. A Venezuela carrega vulnerabilidades distintas — recursos
naturais reais, uma diáspora com capital humano e uma oposição organizada —,
mas compartilha o risco central: o de que a ajuda externa financie a
sobrevivência das mesmas estruturas que produziram o colapso.
A reconstrução da Venezuela não se resolverá com discursos de solidariedade ou alinhamentos provisórios. Se a nova aliança entre o trumpismo e os remanescentes do chavismo capitular diante do primeiro grande teste real, restará provado que a mudança foi apenas cosmética. Para um povo que já suporta o peso da história e da negligência, o colapso das instituições seria um abalo muito mais definitivo do que os terremotos devastadores.
O comportamento indevido de Gilmar Mendes
Por O Povo (CE)
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)
Gilmar Mendes acrescentou mais um componente aos problemas que o STF enfrenta
ao participar do programa Roda Viva, da TV Cultura, criticando colegas. Como
decano do tribunal, Mendes deveria ser um elemento agregador, um fator de
equilíbrio, pelo poder simbólico que o título lhe propicia, como um ministro
com mais experiência e conhecimento. Agisse assim, ele destacaria o importante
papel do Supremo na distribuição da Justiça. Porém, seu comportamento é o
oposto do que se espera de um ministro da mais alta Corte do País.
Sempre vocal, o ministro costuma falar sobre
qualquer assunto, como se fosse um político e não um magistrado. Tanto é que,
na entrevista, ele se definiu como um "animador cultural", ainda que
o tivesse feito de forma aparentemente irônica, porém não longe da verdade
quanto ao seu comportamento.
Durante o programa, Gilmar Mendes criticou o
ministro André Mendonça pela condução do caso sobre o banco Master e demonstrou
contrariedade com o presidente da Corte, Edson Fachin, pela sua insistência em
criar um código de conduta para o STF. Até a sempre discreta ministra Cármen
Lúcia foi censurada pela sua atuação, quando presidia o Tribunal Superior
Eleitoral (TSE), devido à suposta demora em julgar o processo contra o
ex-governador do Rio, Cláudio Castro.
Segundo anotou o jurista Wálter Maierovitch
(Uol), a Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman), no seu artigo 36,
inciso III, "proíbe os magistrados, fora dos autos, fazer críticas de
decisões e despachos aos colegas juízes. Também não podem criticar a forma de
condução dos procedimentos e dos processos".
O fato é que se tornou comum a exposição das
divergências entre os ministros, em qualquer assunto, e não apenas durante os
julgamentos — e nos limites dos assuntos a que se referem os processos. As
tensões existentes, que deveriam ser resolvidas em reuniões reservadas à
procura de um consenso, tornam-se públicas, intensificando as diferenças e
alimentando confrontos desnecessários.
Esses fatos levam descrédito ao STF, como
também as suspeitas de uma possível relação de Daniel Vorcaro com os ministros
Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, que precisam ser explicadas.
Pesquisa recente do Datafolha mostra que o
STF tem sua imagem pública desgastada. O levantamento indica que 43% dos
brasileiros dizem "não confiar" no STF, com 38% afirmando
"confiar pouco" e apenas 16% respondendo "confiar muito".
Frente a esse cenário era de se esperar que os ministros se esmerassem em buscar soluções para ajudar a superar a crise de credibilidade provocada pela disputa interna, mas o inverso prevalece. Ressalte-se que não se pede aos ministros que se submetam à "opinião pública", mas que mantenham uma postura que restaure a confiança na instituição. Assim, suas decisões serão aceitas, mesmo quando o resultado de um julgamento desagradar a um ou outro segmento social ou político da sociedade.

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