Agenda econômica comum merece atenção na eleição
Por O Globo
Movimento Brasil Competitivo elenca sete
prioridades sensatas para o Brasil dar um salto de desenvolvimento
Em tempos de polarização política, é bem-vinda a iniciativa do Movimento Brasil Competitivo (MBC), grupo formado por empresas e entidades empresariais, de apresentar uma agenda comum para o futuro do Brasil. A busca por um consenso mínimo na área econômica parte de três metas ambiciosas para os próximos quatro anos: aumentar a taxa de investimento dos atuais 17% para 20%; reduzir os custos de produzir e fazer negócios; e saltar da 65ª para a 30ª posição no ranking de competitividade do International Institute for Management Development (IMD) — na última edição, o país sofreu queda de sete posições.
No documento “Compromisso para um Brasil
competitivo”, o MBC lista sete prioridades. A primeira é promover o equilíbrio
fiscal de longo prazo e o aperfeiçoamento do sistema tributário, com foco em
sustentabilidade das contas
públicas, eficiência econômica e segurança jurídica. A própria
equipe econômica reconhece que o endividamento público não pode continuar a
crescer no ritmo atual. O presidente Luiz Inácio Lula da
Silva deverá fechar seu terceiro mandato tendo expandido a dívida pública em 10
pontos percentuais do PIB. Com a piora da saúde fiscal, as taxas exigidas pelos
investidores para comprar títulos de longo prazo do governo estão perto de 10%
acima da inflação projetada. Tal rumo não é sustentável.
A segunda prioridade é simplificar regras
para garantir previsibilidade ao ambiente de negócios. De acordo com o MBC, o
país tem 132 órgãos regulatórios e produz diariamente cerca de 900 normas
apenas no Executivo federal. Tal cipoal impõe elevado custo de conformidade e
gera insegurança jurídica. Em relação ao mercado de trabalho, o documento
propõe aumentar de 21,5% para 35% a parcela dos alunos do ensino médio em
cursos profissionalizantes, reduzir o número colossal de processos trabalhistas
e diminuir a taxa de informalidade da economia.
No setor de energia, o texto constata que o
país tem matriz de geração majoritariamente renovável, mas a custo alto. Entre
as propostas, defende “restabelecer a lógica econômica no setor elétrico,
garantindo geração competitiva, eliminando contratações obrigatórias, com
leilões sem reservas de mercado para fontes específicas e [assegurando] preços
que efetivamente reflitam os custos para oferta e contratação de energia”.
Sem enfrentar a ilegalidade e a insegurança,
o país também não terá como melhorar. “Mercados ilegais movimentam bilhões de
reais anualmente e provocam perdas tributárias, concorrência desleal e aumento
da informalidade”, diz o documento. Pirataria, falsificação e contrabando geram
sonegação fiscal e competição desleal. Outro desafio é promover a transformação
digital com a adoção de inteligência artificial como vetor de competitividade e
eficiência na digitalização do Estado.
Na lista de propostas do MBC, faltou
mencionar uma questão essencial: será determinante para o aumento da
competitividade brasileira abrir a economia à competição internacional. Em meio
a tantos desafios, o item foi deixado de lado na lista do MBC, mas não deveria
ser ignorado no programa dos candidatos.
Copa do Mundo expõe desafios da
profissionalização da gestão do futebol
Por O Globo
Brasil sofre com ambiente propício à
irresponsabilidade financeira, cuja solução passa por regras de ‘fair play’
A Copa do Mundo demonstra a importância dos
times locais na descoberta de talentos futebolísticos. Mesmo que depois venham
a disputar a inglesa Premier League, a alemã Bundesliga, a espanhola La Liga ou
a francesa Ligue 1, os craques voltam à seleção nacional de seus países de
origem na hora da Copa. Manter times financeiramente saudáveis, capazes de
assegurar a reprodução desses talentos, tem sido um dos principais desafios do
Brasil, cuja estatura nos gramados da Fifa tem
enfrentado limites ditados pela capacidade das equipes locais.
Por isso é saudável a evolução administrativa
propiciada pelas regras conhecidas como fair play financeiro, similares às
adotadas na Premier League ou na Ligue 1. O futebol passa a contar com uma
espécie de “lei de responsabilidade fiscal”, com o objetivo de evitar arroubos
de cartolas que compram reforços milionários, conquistam campeonatos, mas
implodem as finanças do clube. As normas serão aplicadas pela Agência Nacional
de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf), criada pela CBF como
órgão autônomo para fiscalizar a gestão financeira dos clubes.
Haverá um período de transição para o acerto
de dívidas antigas, e inicialmente as sanções serão leves. Mas, da mesma forma
como noutros países, a má administração financeira poderá levar à perda de
pontos ou até ao rebaixamento. É imperioso, como disse ao
GLOBO Caio Resende, primeiro diretor da Anresf, evitar a repetição
do que aconteceu nos últimos dois anos: as receitas dos clubes aumentaram 35%,
mas os gastos cresceram 40%, puxados por investimentos em contratações que
deram um salto de 140%. O resultado é que a dívida consolidada dos clubes
passou de R$ 7,8 bilhões em 2022 para mais de R$ 14 bilhões neste ano.
Em 2021, por inspiração europeia, passou a
vigorar no Brasil um outro modelo de gestão além do clube associativo: a
Sociedade Anônima do Futebol (SAF). Na Série A, clubes associativos ainda são
maioria, e entre eles estão Flamengo e Palmeiras, equipes mais fortes nos
campeonatos nacionais. Entre as SAFs estão Botafogo, Cruzeiro, Vasco da Gama,
Bahia e Atlético Mineiro, em diferentes estágios de desenvolvimento.
Os resultados da experiência brasileira com a SAF são ambivalentes. O Cruzeiro reorganizou as finanças, enquanto o Vasco se envolveu em disputa judicial com seu principal sócio na SAF depois de crise financeira. O Botafogo foi campeão brasileiro e da Libertadores depois que criou sua SAF, mas foi prejudicado por problemas financeiros na holding de que ela participa, a Eagle, e chegou a ser posto à venda em anúncio de jornal com outros times. O fair play financeiro, diz Resende, poderia evitar desequilíbrios como o ocorrido no Botafogo. As novas regras são um passo importante no rumo da profissionalização do nosso futebol e do consequente resgate de sua liderança no mundo.
Flávio estanca sangria após caso Master,
mostra Datafolha
Por Folha de S. Paulo
Foi limitado o impacto das revelações sobre o
envolvimento do senador bolsonarista com Daniel Vorcaro
Popularidade e intenção de voto de Lula não
reagem à sucessão de medidas eleitoreiras, como o Desenrola 2 e subsídios para
combustíveis
Na superfície, a mais recente pesquisa Datafolha trouxe
poucas novidades para Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
e Flávio
Bolsonaro (PL), candidatos que têm liderado
as intenções de voto para presidente da República. Afinal, o desempenho de
ambos ficou quase inalterado desde o levantamento anterior.
Quando se desce para a próxima camada,
contudo, a repetição dos números aparece como uma tela cheia de significados e
aberta às mais diversas interpretações —e não será estranho se muitas delas
soarem contraditórias.
Tome-se a simulação de primeiro turno como
exemplo. Do ponto de vista do senador Flávio, ostentar agora os mesmos 31
pontos registrados um mês atrás não deixa de ser uma boa notícia, mesmo que ele
esteja dez pontos atrás de Lula (o presidente passou de 40 para 41, um
movimento dentro da margem de erro).
É que, para o sucessor do ex-presidente
Bolsonaro (PL), o que mais importava era estancar a hemorragia provocada pelas
revelações chocantes acerca
de seu envolvimento com o ex-banqueiro Daniel
Vorcaro, principal nome do escândalo do Banco Master.
E isso ele parece ter conseguido, inclusive
na hipótese de um segundo turno. No começo de maio, Flávio computava os mesmos
45 pontos de Lula; uma semana depois, o cenário mudou para 47 a 43 a favor do
petista. Não soava despropositado imaginar que a distância aumentaria, mas isso
não aconteceu: os números permaneceram iguais.
O lado do PT sempre poderá dizer que, se o
adversário bolsonarista controlou a sangria, isso não altera o fato de que ele
está atrás nas pesquisas. E é verdade: antes de se tornarem conhecidas as
ligações de Flávio com Vorcaro, discutia-se se e quando ele passaria o petista;
agora se discute quanto ele ainda pode cair.
Para quem tem a máquina do governo, manter
uma vantagem contra o principal opositor é, sem dúvida, algo positivo. Sabe-se
muito bem que, em todos os níveis da Federação, os incumbentes não economizam
recursos quando buscam se reeleger.
Só que Lula já mobiliza seu arsenal há algum
tempo, e o impacto das medidas eleitoreiras tem sido modesto. Não só porque não
se distanciou de Flávio mas também porque não viu a avaliação de sua gestão
melhorar. Seus índices de ótimo/bom (32%) e de ruim/péssimo (38%) continuam no
mesmo patamar de sempre.
E isso a despeito de iniciativas recentes
como a linha de crédito para taxistas e motoristas de aplicativos, a
renegociação de dívidas do Desenrola 2, o fim da chamada "taxa das blusinhas",
a criação de subsídios para a gasolina.
Ainda não se sabe qual o impacto da operação
da Polícia Federal contra Jaques Wagner (PT-BA)
—o líder do governo no Senado se tornou investigado dentro do escândalo do
Banco Master—, mas ele tende a ser limitado.
Ao menos por enquanto, os eleitores parecem
se guiar mais pela fidelidade e pela rejeição do que por qualquer outro fator.
Eleição por poucos votos prenuncia
turbulência no Peru
Por Folha de S. Paulo
Com apuração favorável a Keiko Fujimori por
margem mínima, candidato esquerdista pede anulações
Instabilidade política do país, estimulada
por hipertrofia do Congresso, parece longe do fim sem consenso mínimo em torno
do interesse nacional
Com mais de 95% dos votos revisados, a
apuração do segundo turno das eleições presidenciais
do Peru já
se vê maculada por contestações.
A vantagem minúscula da candidata Keiko
Fujimori, da direita populista, foi posta à prova pelo adversário, Roberto
Sánchez, que formalizou denúncias de manipulação de cédulas em Lima e nos EUA e
solicitou a anulação desses votos —apesar de o postulante esquerdista ter
afirmado, antes do pleito, que
respeitaria o resultado das urnas.
Seja qual for o desfecho oficial, a superação
do caos político vivenciado no Peru há uma década parece distante. A frágil
maioria da futura ou do futuro presidente —e serão dez em dez anos—
tende a ameaçar seu mandato.
O último presidente a cumprir os cinco anos
no poder foi Ollanta Humala (2011-2016). Desde então, quatro acabaram destituídos
pelo Congresso, munido de superpoderes pela Constituição de 1993, e outros três
renunciaram.
José María Balcázar, empossado em fevereiro
para o período de cinco meses, foi o terceiro a suceder Pedro
Castillo, eleito em 2021 e ceifado no ano seguinte após tentar um
golpe de Estado.
Defensora do legado da ditadura de
seu pai, Alberto Fujimori, nos anos 1990, Keiko angariou pouco mais de 50% dos
votos válidos; Sánchez, do Juntos pelo Peru, pouco menos. A diferença é de
dezenas de milhares num universo de 27,3 milhões de eleitores.
Keiko fracassou nas três últimas disputas.
Como líder do Força Popular, entretanto, contribuiu para a alta mobilidade de
titulares da Casa de Pizarro e a instabilidade política do país.
O partido fujimorista responde pela maior
bancada no Congresso peruano desde 2016, ainda sob o modelo unicameral. A
eleição legislativa de março indica que a legenda manterá peso relevante no
Parlamento, que volta a ser bicameral com a posse dos deputados e senadores em
julho.
Os cenários são preocupantes. Uma eventual
derrota de Keiko pode desencadear, no Legislativo, um movimento de
desestabilização do governo eleito.
A vitória da direitista tampouco prenuncia
tranquilidade. Dada sua agenda de combate à criminalidade, com traços da
truculência do regime de seu pai, não estará imune à inflexibilidade da segunda
maior bancada nas duas Casas legislativas, a do Juntos pelo Peru, e a protestos
populares incitados pela esquerda.
Num país onde o manejo da economia não é o problema, o moto-contínuo de turbulência institucional só terá fim com um mínimo de consenso político em torno do interesse nacional.
Orgulhosa sem-vergonhice
Por O Estado de S. Paulo
Reações de próceres da política às
investigações do caso Master sugerem que a honestidade não tem mais papel
moderador na vida pública e não é tratada como valor nem nas aparências
É espantosa a forma como próceres da política
vêm reagindo às investigações da Polícia Federal (PF) que os implicam no caso
Master. Reina a absoluta falta de compunção. É como se em Brasília a
honestidade tivesse deixado de ser um valor a ser cultivado até no campo das
aparências.
Para começar, o relatório da PF tornado
público há poucos dias por decisão do ministro André Mendonça, relator do caso
Master no Supremo Tribunal Federal, expôs com ainda mais riqueza de detalhes
uma relação entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e Daniel Vorcaro, dono do
Banco Master, que, se confirmada em todos os seus contornos, materializa a
venda de um mandato parlamentar. Nada menos. Segundo os investigadores, Vorcaro
bancou uma frenética vida de luxos ao redor do mundo para Ciro num “mutualismo
ilícito” que misturou a defesa dos interesses privados do banqueiro e o
exercício do múnus público. Ciro segue impassível diante desses achados.
Por sua vez, o presidente da Câmara, Hugo
Motta (Republicanos-PB), declarou não ver problema algum, ora vejam, em ter sua
hospedagem de luxo na capital portuguesa custeada por Vorcaro quando de sua
participação no Fórum Jurídico de Lisboa, organizado pelo decano do Supremo,
ministro Gilmar Mendes. Em que lugar decente do mundo uma imoralidade dessas
pode ser tratada como aceitável? Em troca de que o presidente de uma casa
legislativa aceita favores de um empresário – principalmente de alguém como
Vorcaro – e trata isso como se fosse prática trivial? É esse o grau de
desorientação da bússola moral na Praça dos Três Poderes?
Recorde-se, ainda, que o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, foi outro que tratou como reles
negociação privada, no fim do ano passado, a cobrança de milhões de dólares
feita por ele a Vorcaro – à época já tido e havido como o responsável pelo
maior crime financeiro da história do País – para, supostamente, financiar um
filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Nesse inventário de descalabros, não se pode
deixar de mencionar o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA),
alcançado por nova fase da Operação Compliance Zero em razão de seu suposto
envolvimento com o caso Master. Wagner é investigado por ter sido agraciado com
um apartamento avaliado em R$ 2,5 milhões em Salvador em troca de
contrapartidas legislativas de interesse do banco. Sua explicação para o
negócio é um insulto à inteligência alheia. Wagner afirmou que pediu a um
amigo, o investidor Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, que comprasse o
imóvel em seu lugar enquanto ele providenciava recursos para recomprá-lo,
inclusive com a venda do apartamento de sua filha.
É o caso de relembrar que a política
republicana sustenta-se sobre um primado elementar: um mandatário tem o dever
de impedir que interesses privados conspurquem sua independência. E isso não se
limita ao cumprimento da lei, de resto uma obviedade. Há certas condutas que
até podem escapar aos limites estritos dos textos legais, mas, ainda assim, são
rigorosamente incompatíveis com a dignidade do mandato eletivo.
Desde Cícero, o trato da res publica
pressupõe que aqueles investidos de poder público o exerçam em benefício da
coletividade. Mas nem é preciso voltar tanto. Montesquieu e os federalistas
americanos conceberam robustos sistemas de freios e contrapesos, vigentes no
mundo civilizado até hoje, porque compreenderam que o poder, quando dissociado
da virtude, corrompe. Aqui, a Constituição de 1988 não fez diferente ao
estabelecer como princípios da administração pública a probidade, a moralidade e
a impessoalidade.
Em tese, hospedar-se à custa de um
investigado pode não ser crime, mas é moralmente inaceitável para quem exerce
cargo público. Receber emendas legislativas prontas das mãos de um banqueiro
pode, também em tese, não configurar corrupção na acepção estrita do Código
Penal, mas desfigura a essência do mandato parlamentar. Ainda em tese, Vorcaro
pode ser só um mecenas, fã da história pessoal de Bolsonaro. Ou, ainda, um
generoso corretor imobiliário. Mas a distinção entre ilegal e imoral, aqui, não
é sutil, é a base sobre a qual repousa a confiança nas instituições deste país.
O que se vê, porém, é que essa distinção foi varrida da prática política
cotidiana com uma orgulhosa sem-vergonhice.
A epidemia das emendas
Por O Estado de S. Paulo
Levantamento mostra que a lógica das emendas
já contaminou as Câmaras Municipais, corroendo o planejamento público e
capturando recursos para interesses paroquiais
Se alguém ainda tinha dúvidas sobre o
verdadeiro problema das emendas parlamentares, uma recente reportagem do Estadão e um levantamento
da Confederação Nacional de Municípios (CNM) prestam um serviço didático ao
País. Ao mostrar que a lógica das emendas impositivas deixou de ser uma
peculiaridade do Congresso Nacional e se espalhou pelas Câmaras Municipais,
dissipam a última névoa sobre a natureza desse mecanismo.
Seis em cada dez municípios brasileiros já
têm ou estudam adotar emendas obrigatórias para vereadores. A expansão do
fenômeno ajuda a desmontar uma das principais justificativas usadas durante
anos para defender a crescente transferência de poder orçamentário do Executivo
para o Legislativo.
Durante sua presidência da Câmara, o deputado
Arthur Lira (PP-AL) e outros defensores das emendas sustentaram que se tratava
de um instrumento de “orçamento municipalista”. O argumento era conhecido:
Brasília concentra recursos demais, deputados conhecem melhor as necessidades
locais e, por isso, precisam ter meios para direcionar verbas a municípios
negligenciados pela burocracia federal. Era uma tese discutível, mas ao menos
tinha alguma coerência.
A pesquisa mostra o que ocorre quando essa
lógica é levada às últimas consequências. Afinal, qual é o sentido de um
vereador dispor de uma emenda “municipalista” dentro do próprio município?
O vereador já conhece os bairros, fiscaliza a
prefeitura, participa da elaboração do orçamento e representa exatamente a
população beneficiada pelos recursos. Se até no nível municipal parlamentares
passaram a reivindicar fatias obrigatórias do orçamento para distribuir
diretamente, fica evidente que a discussão nunca foi apenas sobre
descentralização administrativa. Trata-se de poder.
Em 47% dos municípios os vereadores já
possuem emendas impositivas, e outros 24% discutem adotá-las. Em 35% dos
municípios que têm emendas individuais já existem também emendas de bancada –
uma reprodução quase caricata do modelo federal.
Os resultados ajudam a explicar o problema.
Em 44% dos municípios os valores definidos pelos vereadores são insuficientes
para executar as obras ou serviços prometidos. Para 37% dos gestores, as
emendas já dificultam o cumprimento das metas previstas no orçamento.
A ironia é que o sistema se apresenta como um
instrumento de aproximação entre o gasto público e as necessidades da
população, mas frequentemente produz o contrário. O orçamento existe para
organizar prioridades coletivas. As emendas transformam parcela crescente
desses recursos em instrumentos de negociação política fragmentada.
Em vez de discutir quais obras são mais
importantes para a cidade, discute-se qual vereador ficará com os méritos da
obra. Em vez de planejamento, pulverização. Em vez de políticas estruturantes,
uma coleção de iniciativas pontuais de elevado retorno eleitoral.
Há, ainda, um aspecto frequentemente
ignorado. Quando se diz que as emendas representam apenas 1%, 2% ou 3% da receita,
cria-se a impressão de que se trata de parcela irrelevante do orçamento. Não é.
Os municípios já precisam cumprir pisos
constitucionais de saúde e educação, manter folha de pagamento, previdência,
contratos continuados e serviços essenciais. O espaço efetivamente livre para
planejamento é muito menor do que sugerem os porcentuais brutos. O próprio
estudo alerta para o aumento da rigidez orçamentária e para a dificuldade
crescente de execução das políticas estruturantes.
O que a pesquisa revela é que o Brasil está
institucionalizando uma má ideia. Primeiro vieram as emendas federais. Depois,
as estaduais. Agora surgem as municipais. Amanhã virão fundos de equalização,
mecanismos de compensação e novas disputas pela repartição dos recursos,
reproduzindo em escala local deformações já conhecidas de Brasília.
A epidemia das emendas mostra que o chamado
orçamento municipalista era menos uma teoria sobre descentralização e mais uma
teoria sobre repartição de poder. Quando até vereadores reivindicam suas próprias
emendas, a ficção fica clara.
Sócios no desastre
Por O Estado de S. Paulo
Generosos, governo e Congresso Nacional abrem
mão de receitas e rasgam regras fiscais
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou
ou sancionou dez propostas de renúncia de receitas no ano passado sem que
estimativas de impacto, memória de cálculo detalhada ou medidas compensatórias
tivessem sido apresentadas. Isso significa que quase metade das 21 desonerações
instituídas no ano passado foram criadas sem que as normas fiscais tenham sido
integralmente cumpridas, segundo o parecer do Tribunal de Contas da União (TCU)
sobre as contas presidenciais, aprovado com ressalvas no dia 10 de junho. O
impacto fiscal dessas propostas foi de R$ 4,2 bilhões no ano passado, mais que
dobrou neste ano, para R$ 9,8 bilhões, e chegará a R$ 135,5 bilhões até 2028.
A lista de setores alcançados não surpreende
e vai do incentivo ao financiamento de fontes renováveis a desonerações para a indústria
do petróleo, sem esquecer os setores químico, automotivo e o agronegócio.
Todos, sem exceção, já foram beneficiados por medidas semelhantes no passado.
De forma geral, não há meta para cada uma dessas políticas públicas nem um
prazo para atingir objetivos, o que impede a aferição de seus resultados
efetivos e a possibilidade de que sejam aprimoradas ou extintas. É exatamente
assim que elas se acumulam ao longo do tempo.
Segundo o TCU, o valor total de renúncias
tributárias chegou a R$ 544,4 bilhões em 2025, ou 4,78% do PIB. Somando os
benefícios tributários aos financeiros e creditícios, a conta chega a R$ 759
bilhões, ou 5,98% do PIB. Tais benesses são “componente central da política
fiscal brasileira, com implicações diretas sobre o espaço fiscal disponível e a
trajetória de sustentabilidade da dívida pública”, avalia a corte de contas.
Trata-se basicamente de dinheiro do qual a
União abriu mão. Não é por acaso, portanto, que as metas fiscais sejam
insuficientes para estabilizar a dívida bruta na proporção do Produto Interno
Bruto (PIB) – problema que, por sinal, foi listado entre as ressalvas
mencionadas pelo TCU. O valor dos benefícios superou não só o déficit primário
do governo central, de R$ 58,7 bilhões, como também o rombo do Regime Geral de
Previdência Social, de R$ 321 bilhões.
A verdade é que o governo Lula adota uma
prática que não condiz com seu discurso. Ao mesmo tempo que defendeu o corte de
benefícios como uma forma de combater os privilégios e garantir o interesse
público, a ponto de ter enviado ao Congresso uma proposta para aprovar uma
redução linear de 10% nos subsídios, foi o próprio Executivo quem propôs
regalias aos setores por meio de outros projetos, um incentivo para que outros
busquem conquistá-las.
O relatório do TCU será encaminhado ao Congresso Nacional, a quem cabe julgar a prestação de contas, mas nada indica que os parlamentares pretendem rejeitá-las. Afinal, de acordo com a reportagem publicada pelo Estadão, das dez propostas que tiveram algum tipo de violação legal ou constitucional, cinco tiveram origem no Legislativo, quatro no Executivo e uma teve coautoria entre os dois Poderes. Seria até hipocrisia, uma vez que são sócios na construção do desastre fiscal.
A tolerância com o intolerável
Por Correio Braziliense
O que mais impressiona no escândalo do Banco
Master é a crescente naturalização do inaceitável. O intolerável passou a ser
tratado como banal.
O escândalo do Banco Master é uma revelação
perturbadora sobre a vida pública brasileira. Não apenas pelas cifras
bilionárias envolvidas, pelos sofisticados mecanismos de corrupção e obstrução
da Justiça ou pelas conexões com figuras influentes da política nacional. O que
mais impressiona é a crescente naturalização do inaceitável. O intolerável
passou a ser tratado como banal.
A sucessão de fatos revelados pela Polícia
Federal (PF) expõe uma promiscuidade entre interesses privados e agentes
públicos que deveria provocar indignação nacional. Entretanto, o que se vê é
uma impressionante desfaçatez dos envolvidos e uma preocupante complacência das
instituições. Viagens em jatinhos particulares, hospedagens em hotéis de luxo,
empréstimos milionários, contratos vultosos, patrocínios extravagantes e
negócios imobiliários suspeitos são apresentados como se fizessem parte da
rotina normal das relações entre empresários e autoridades.
Está em jogo a capacidade de o Estado
brasileiro reagir a um esquema que, segundo a Polícia Federal, operava como uma
verdadeira organização mafiosa, destinada a influenciar decisões públicas,
manipular agentes estatais e neutralizar investigações. É nesse contexto que
ganha relevância o debate travado na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal
(STF). O confronto entre os ministros Gilmar Mendes e André Mendonça
ultrapassou a discussão jurídica sobre a manutenção das prisões preventivas de
Henrique e Felipe Vorcaro. Na realidade, revelou duas leituras distintas sobre
os limites do combate à corrupção.
Ao votar contra a manutenção das prisões,
Gilmar Mendes evocou os excessos da Lava-Jato e enxergou "desconfortantes
semelhanças" entre os métodos empregados naquela operação e os utilizados
na investigação do caso Master. O alerta não pode ser descartado. O país
aprendeu, a duras penas, que investigações não estão acima da lei. Garantias
processuais existem precisamente para impedir abusos e arbitrariedades.
Mas analogias exigem cuidado. A Lava-Jato
tornou-se um problema institucional porque houve colaboração imprópria entre
magistrados e acusadores, manipulação de competências e contaminação política
de procedimentos judiciais. Nada disso aparece demonstrado, até o momento, nos
autos do caso Master.
Ao contrário. O que se observa é uma
investigação sustentada por indícios de obstrução da Justiça, intimidação de
testemunhas, monitoramento ilegal de autoridades e tentativas de interferência
no curso das apurações. As prisões preventivas não foram decretadas para forçar
confissões nem para antecipar punições. Foram justificadas pela necessidade de
interromper atividades que, segundo os investigadores, continuavam em
andamento.
O voto de André Mendonça chamou atenção. O ministro descreveu uma estrutura com características mafiosas, capaz de operar simultaneamente nos campos político, econômico, informacional e criminal. Sua advertência merece reflexão. O combate à corrupção não pode ser confundido com perseguição política, mas tampouco pode ser desarmado pelo receio permanente de repetir erros do passado.
Muitos desafios na educação
Por Correio Braziliense
Pela primeira vez, a taxa de analfabetismo
ficou abaixo de 5%, no menor índice da série histórica iniciada em 2016
O Brasil avança a passos lentos nos
indicadores educacionais, segundo a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílios Contínua (Pnad) voltada para o tema. Houve melhorias sutis em
determinados aspectos, como a quantidade de crianças matriculadas na série
correspondente — esse índice chegou a 96,1% em 2025, acima da meta de 95%
estabelecida pelo Plano Nacional de Educação (PNE). Mas existem chagas antigas
e graves.
Pela primeira vez, a taxa de analfabetismo
ficou abaixo de 5%, no menor índice da série histórica iniciada em 2016. Apesar
disso, o país convive com uma realidade dolorosa: 8,4 milhões de brasileiros
não sabem ler ou escrever um bilhete simples. Trata-se de praticamente a
população de Portugal. Esse contingente se concentra especialmente entre os
brasileiros acima de 60 anos, que não tiveram a oportunidade de serem
beneficiados pela universalização do ensino. Essa parcela da população, avaliam
especialistas, representa um desafio para educadores, pois enfrenta as
dificuldades típicas da idade, como mobilidade limitada, menor disposição para
aprendizagem e pouca familiaridade com tecnologias que permitem o ensino
remoto.
Em relação aos brasileiros acima de 15 anos,
o cenário é um pouco melhor. O analfabetismo está em uma faixa de 2,6%, muito
abaixo dos 13,8% verificados na população idosa. É importante ainda observar a
queda no percentual de jovens até 29 anos que não frequentam escola nem têm uma
ocupação profissional. Essa geração nem-nem representa 17,5% da população nessa
faixa etária, percentual bastante inferior aos 22,4% registrados em 2019. Ainda
assim, em números absolutos, os dados impressionam: há 8,1 milhões de brasileiros
entre 15 e 29 anos que não trabalham, não estudam nem frequentam algum curso de
qualificação profissional. É o futuro do Brasil atingido em cheio.
Os números divulgados pelo IBGE revelam o
desafio monumental que o país tem pela frente. O Brasil jamais abandonará o
estado de mediocridade econômica e civilizatória se não enfrentar firmemente as
questões de fundo que definem o retrato educacional. A primeira tarefa é
reduzir a desigualdade social. Tome-se novamente o exemplo do analfabetismo. Mais
da metade dos brasileiros desprovidos de instrução mínima — 57,4% — estão
concentrados na Região Nordeste. É na Região Nordeste também que está
concentrada a maior população em extrema pobreza. Há, portanto, um claro
alinhamento entre miséria e educação, que precisa ser debelado por meio de
políticas sérias e consistentes.
A necessidade imperiosa de melhorar os
índices educacionais se impõe ainda mais urgente considerando as rápidas
mudanças na economia, fortemente afetada pelos avanços espantosos da tecnologia.
Os brasileiros que têm dificuldades de adquirir o hábito de ler e estudar
ficarão cada vez mais apartados da evolução econômica e tecnológica. Não apenas
terão menores chances de conseguir um emprego qualificado; terão dificuldade
até de interagir com realidades cada vez mais tangíveis, como o uso de
inteligência artificial na prestação de serviços.
Em diferentes épocas, diversas nações
experimentaram um salto qualitativo expressivo quando decidiram dar prioridade
à educação. Grandes potências, como China e Estados Unidos, além de vários
outros países asiáticos e europeus de uma forma geral, obtiveram ganhos
espetaculares quando implantaram sistemas educacionais que atendiam ao máximo a
sua população.
No caso do Brasil, como apontam os dados mais recentes da Pnad, é obrigação do país combater o legado de exclusão educacional perpetuado durante séculos. Trata-se de um assunto de Estado, que deveria ser avaliado com rigor e seriedade por qualquer autoridade. Recomenda-se ao eleitor que, em outubro, identifique qual candidato tem compromisso real com essa causa.
O ataque ao nosso sistema de alertas
Por O Povo (CE)
A Defesa Civil Nacional agiu com a rapidez
aceitável e ainda na madrugada de ontem retirou do ar a plataforma da qual foi
possível
É grave o que aconteceu entre a noite de
sexta-feira e a madrugada de ontem (sábado), com o registro de alertas falsos
através do Sistema Nacional de Defesa Civil que chegaram a moradores de pelo
menos sete estados brasileiros. O pânico que chegou a se estabelecer por alguns
momentos poderia ter levado a consequências concretas difíceis de prever, o que
dá sentido à preocupação das autoridades com o registro e a decisão, já
oficializada, de pedir à Polícia Federal que investigue a fundo o evento de
aparente caráter criminoso.
A tese mais factível, até o momento, indica
que um ataque hacker esteja por trás do que aconteceu, valendo aprofundar as
investigações e chegar aos responsáveis para entender as suas motivações. No
caso, claro, de a hipótese vir a ser confirmada, porque nada deve ser
descartado no momento como causa efetiva de um problema que, dentre outras
coisas, pode ter exposto pontos de fragilidade de um sistema que tem como sua
base principal a confiança para gerar as reações corretas da população, e no
tempo certo, diante de um quadro verdadeiro de ameaça que se esteja
enfrentando.
O Ceará não está na lista das unidades
federativas por onde o tal alerta andou circulando. Isso aconteceu nas
seguintes cidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba, Brasília,
Belo Horizonte e Campo Grande. Porém, a ausência na lista de alvos da ação
ainda por ser esclarecida não pode reduzir a preocupação que devemos ter com o
problema diante, repita-se, do que ele expõe de aparentes brechas técnicas para
que maus cidadãos se aproveitem para espalhar pânico através de um mecanismo
cujo objetivo, ao contrário, é proteger a sociedade diante de fenômenos que o
homem não consegue controlar.
A Defesa Civil Nacional agiu com a rapidez
aceitável e ainda na madrugada de ontem retirou do ar a plataforma da qual foi
possível, a partir do que se entende ter sido uma invasão externa, emitir o
falso comunicado que espalhou medo e apreensão. O alerta extremo que chegou a
brasileiros de sete estados, com a palavra "misantropia" a ele
vinculado, pode ter sido apenas uma molecagem produzida por alguém desprovido
de sentimento cidadão. Inclusive porque em alguns casos registra-se até menções
a um alegado "ataque alienígina".
Um cenário até jocoso sob alguma perspectiva, mas que não deve diminuir a preocupação com o que aconteceu e agora se espera uma ação rápida e eficaz das autoridades policiais para que tudo seja esclarecido e a confiança que temos no sistema de alertas passe incólume por um episódio cuja gravidade não pode ser medida pela intenção de quem o promoveu. Qualquer que seja ela, a punição precisa vir com todo o peso exemplar que envolva.

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