terça-feira, 23 de junho de 2026

Onde está a magia do futebol brasileiro? Por Fernando Gabeira

O Globo

O futebol era o nosso principal recurso em ‘soft power’, era a forma pacífica de afirmar a influência nacional

Como a maioria dos brasileiros, sou apaixonado por futebol. Isso me dá o direito de escrever sobre o tema, dentro de certos limites. Perguntar, por exemplo, onde está a velha magia do nosso futebol. O que fazer para recuperá-la?

No passado, sempre reagiam com um sorriso ao saber que éramos brasileiros. Brasil? Ah, sim, Pelé, Garrincha, Rivelino. O futebol era nosso principal recurso em soft power, era a forma pacífica de afirmar a influência nacional.

Foi usado no Haiti, em 2004, para fortalecer o papel militar do Brasil na pacificação daquele caos que motivou a presença da ONU. Nossos craques desfilaram nos tanques que faziam o patrulhamento de áreas perigosas, como a favela Cité Soleil. Arrastaram multidões para saudá-los e agregaram simpatia às nossas tropas, que continuariam ali para patrulhar a turbulenta vida cotidiana.

Mas ali, em 2004, já desfrutávamos glórias passadas. Em 2014, descobrimos perplexos que havia algo errado com nosso futebol. O placar de 7 a 1 passou a ser a medida nacional para uma derrota desastrosa. Sempre que algo sai errado, dizemos: perdemos de 7 a 1.

De lá para cá, no futebol, não conseguimos ainda dar a volta por cima. Às vezes, fico preso aos detalhes. Não temos mais laterais como antigamente. Cafu, Carlos Alberto, Roberto Carlos, o lendário Nilton Santos, só vemos os sobreviventes nos camarotes da Copa. Não são um retrato na parede, mas um rápido zoom das câmeras de TV.

Às vezes penso que o calendário é o nosso problema. Muitos jogos. Talvez isso explique por que acho o futebol mais intenso na Europa. Será que é o cansaço que nos obriga a um jogo tão pouco vertical? Por que fazemos um gol e passamos a administrar o resultado? Somos devagar.

Na minha busca por respostas, às vezes, me volto aos cartolas que me parecem tão sospechosos, como aqueles políticos que pintam o cabelo e dão um beliscão no bumbum da secretária. Leio nas redes que o presidente da CBF levou a mulher e amante para a Copa, hospedando uma nos Estados Unidos, outra no México. Ele se submete ao mesmo rigoroso regime imposto por Trump ao time do Irã: joga nos Estados Unidos, mas dorme no México.

A Argentina continua brilhando. Seus cartolas não são melhores que os brasileiros. Não devemos descartar esse item, mas não podemos superestimá-lo. De qualquer forma, será necessário um esforço nacional para reerguer o futebol do Brasil. As empresas que faturam em cima da paixão deveriam destinar parte de seus investimentos a esse projeto. Quando começarmos a nos sentir como os neozelandeses sentem por sua seleção, a galinha dos ovos de ouro estará morta.

Talvez fosse pedir muito que o governo também se interessasse pelo assunto, embora seu papel seja secundário. As bets conseguiram monetizar a paixão. Grande parte dos impostos vai para os cofres públicos. Uma boa parte desse dinheiro deveria ser reinvestida no estímulo ao futebol. De talento, ruas, praias e becos estão cheios. O enigma é reencontrar a velha magia e nosso perdido soft power.

 

Um comentário:

  1. Eu nunca gostei do esporte bretão,quando menino,eu gostava mesmo era de bola-queimada.

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