terça-feira, 23 de junho de 2026

Forma e conteúdo, por Merval Pereira

O Globo

Não se fala mais em fim da corrupção como projeto de governo. É como se dissessem: como todos são ladrões, quem rouba menos tem vantagem. Parece briga de crianças: “Foi ele quem começou”.

Os petistas agora fazem uma conta estranha: quantos bolsonaristas estão envolvidos no escândalo do Banco Master, e quantos petistas estão na mesma situação? Como se quem tenha menos indiciados ou investigados por corrupção leve vantagem sobre o outro grupo. Não se fala mais em fim da corrupção como projeto de governo. É como se dissessem: como todos são ladrões, quem rouba menos tem vantagem. Parece briga de crianças: “Foi ele quem começou”.

Perdeu-se o pudor, justifica-se tudo como se fosse normal ter coleção de relógios de luxo, símbolo internacional de ostentação dos novos-ricos, ou aceitar carona em jatinhos e pagamentos de diárias em hotéis. Guardar dinheiro vivo, de preferência em moedas valorizadas — dólar ou euro —, é normal. O ex-deputado Geddel Vieira Lima, que tinha malas de dinheiro num apartamento em que ninguém morava, perdeu a chance de usar a patética desculpa de diárias de viagens internacionais.

É preciso recuperar a noção de ética para os servidores públicos, sejam deputados, senadores ou ministros dos tribunais superiores. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, lidera esse movimento pelo Código de Ética, preparado pela relatora, ministra Cármen Lúcia. A reação de alguns ministros contra a medida dá bem a ideia de onde estamos. Se as exigências legais já estão na legislação da magistratura, como alegam seus opositores, por que ministros aceitam pegar carona em jatinhos particulares para ver jogos de futebol em camarotes especiais e posam para fotografias sorridentes? Não sabem que é proibido?

Podem participar de empreendimentos, mas por que não revelam seus ganhos? Por que, quando surgem informações de negócios nebulosos, não contrapõem às críticas documentos que mostram a legalidade? É o caso do financiamento do filme sobre Bolsonaro, teoricamente financiado por Daniel Vorcaro. Cadê o contrato? Cadê os comprovantes de gastos? Por que são contrários à Lei Rouanet e favoráveis a financiamento privado sem documentos que provem que ele realmente existiu? A triste conclusão é que nossa organização institucional está entranhada pelos vícios da corrupção, e seus representantes não se preocupam com isso.

Um político importante, presidente de partido, acusado de diversos desvios de conduta, aparecer despudoradamente no dolce far niente de Ibiza, na costa mediterrânea da Espanha, é sinal de perda de noção do que seja um servidor público. Os acordos por debaixo dos panos são comuns aos partidos políticos. Na Bahia, o escândalo do ex-governador Jaques Wagner parece não existir, pois seu principal adversário, o ex- prefeito de Salvador, candidato ao governo do estado, também tem lá suas ligações com o Banco Master. Fica-se, então, nessa disputa de quem “rouba menos”. Antigamente era o “rouba, mas faz”. Nada mudou no horizonte, só que, hoje, devido aos avanços tecnológicos, fotos, vídeos, gravações são mantidos “nas nuvens”, onde a Polícia Federal vai buscar informações valiosas que revelam o passado que gostariam de esconder.

Se os petistas trabalham nesse diapasão de aceitar os erros pelo bem do país, por que os bolsonaristas não deveriam fazer o mesmo? O bem do país, nesse caso, depende da visão de cada um dos lados, mas definitivamente nada tem a ver com a realidade. O cansaço dos eleitores é evidente pela rejeição dos dois candidatos mais conhecidos e bem votados: o quarto mandato de um contra o segundo do outro grupo. Não há novidades à frente, não há esperanças a estimular. Mais do mesmo, a abrir caminhos para novidades como o candidato Renan Santos, do Missão, que aparece com 10% de escolhas em São Paulo e tem o tamanho de ex-governadores da direita tradicional. Cresce no eleitorado, sobretudo jovem, com a autodefinição: “Sou Milei na forma e Bukele no conteúdo”.

 

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