Correio Braziliense
Em um país em que a renda média da população
é de pouco mais de R$ 3 mil mensais, faz todo o sentido priorizar a redução de
custos referente aos meios de pagamento
Há cerca de um ano e meio, o Pix sofria seu
primeiro ataque massivo. Uma enxurrada de fake news, liderada pelo deputado
Nikolas Ferreira (PL-MG), fez milhares de brasileiros acreditarem que seriam
tributados em suas movimentações financeiras. As consequências desse episódio
tiveram reflexo imediato na economia real, impulsionando o governo federal a
adiar em sete meses a implementação de uma Instrução Normativa da Receita
Federal essencial no combate ao crime organizado e que nada tinha a ver com
qualquer taxação do Pix. Essa normativa apenas amplia para fintechs obrigações
de prestação de informações que já tem sido exigida dos bancos tradicionais e
que fortalece mecanismos de rastreamento de operações utilizadas em esquemas de
lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial.
Agora, o governo norte-americano, por meio do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), afirma que o Banco Central do Brasil teria criado uma situação de concorrência desleal ao desenvolver, operar e regular o sistema, supostamente prejudicando empresas norte-americanas de pagamentos eletrônicos. Ou seja, um governo estrangeiro ataca de forma explícita o Pix para proteger interesses privados de seu país.
Embora tenham origens distintas, ambos os
episódios revelam o mesmo fenômeno: a tentativa de atacar uma política pública
que transformou e facilitou a forma como os brasileiros movimentam o seu
dinheiro.
O argumento do governo norte-americano parte
de uma premissa de mercado que em nada se encaixa no caso brasileiro. O Pix é
apenas uma solução pública para pagamentos e movimentações financeiras e não
constitui uma empresa estatal disputando clientes com empresas privadas.
Trata-se de uma infraestrutura pública de pagamentos. O que o tornou um
fenômeno popular, utilizado por 170 milhões de pessoas, é o fato de que é
barato, instantâneo e acessível para toda a população.
Vale ressaltar que o Pix, antes de mais nada,
é uma política pública de inovação, desenvolvida por servidores públicos — ou
seja, pelo Estado brasileiro. Em nada impede a competitividade de bancos,
fintechs ou aplicativos; pelo contrário, ele promove a democratização
financeira da população. Desde a sua chegada, estima-se que o meio de pagamento
foi responsável pela inclusão de 49 milhões de pessoas no sistema financeiro,
permitindo que eles acessem serviços bancários tradicionais.
O Pix movimentou R$ 26,4 trilhões em 2024, o
equivalente a quase duas vezes o produto interno bruto (PIB) do Brasil naquele
ano. Pode-se afirmar que se trata de uma das políticas públicas de maior
alcance já criadas no país, que facilita processos e está integrada no dia a
dia da população e nos processos da administração pública. Hoje, contribuintes
que informam chave Pix vinculada ao CPF recebem prioridade na restituição do
Imposto de Renda (IR). O maior lote de restituição da história do país,
destinado a 8,7 milhões de contribuintes, utilizou esse mecanismo para tornar
os pagamentos mais rápidos e eficientes.
Ou seja, o Pix passou a fazer parte do
financiamento estatal. Seu sucesso técnico foi tamanho que, em pouco tempo de
existência, já foi incorporado ao aparato burocrático do Estado, facilitando o
pagamento e o recebimento de impostos que, posteriormente, se tornam políticas
públicas, como saúde, educação e benefícios sociais.
Talvez, o incômodo norte-americano revele uma
dificuldade de adaptação e de conhecimento da realidade brasileira. Em um país
em que a renda média da população é de pouco mais de R$ 3 mil mensais, faz todo
o sentido priorizar a redução de custos referente aos meios de pagamento.
Durante décadas, consumidores e comerciantes foram obrigados a conviver com
custos elevados de transferência, taxas de cartões e soluções que não cabiam em
seu orçamento e que esterilizam parte dos recursos da economia real.
O Pix demonstrou que é possível construir uma
alternativa mais simples e gratuita. Por isso, mudou a realidade de milhões de
brasileiros e se transformou em um verdadeiro patrimônio nacional. Atacar o Pix
é, em certa medida, como atacar o Sistema Único de Saúde (SUS), as
universidades públicas ou outras políticas de interesse coletivo, em favor dos
interesses do mercado financeiro internacional.
*Dão Real Pereira dos Santos — presidente do Sindifisco Nacional (Sindicato dos Auditores-Fiscais da Receita Federal)

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