terça-feira, 2 de junho de 2026

Políticos têm um olho em 2026 e outro em 2030, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Última eleição de Lula incentiva centro-direita a reeditar frente ampla para barrar avanço bolsonarista

Fim do ciclo do PT e reinício da era Bolsonaro pautam decisões dos independentes à direita e à esquerda

Se é precipitado fazer apostas definitivas sobre o resultado da eleição presidencial que acontecerá daqui a quatro meses, soa a temeridade mergulhar em projeções sobre o cenário de 2030.

No entanto, é exatamente o que já se faz no mundo político, levando em conta dois fatores: o fim do ciclo de êxitos do PT e a longevidade da era de influência da franquia Bolsonaro no poder central.

As forças que se movimentam no hoje estreito espaço entre os dois polos de direita e esquerda atuam com um olho no peixe da corrida atual e outro no gato do que pode, ou não, vir a ser uma renovação no cardápio de opções e nos critérios de escolhas do eleitorado ainda pautado por estimas e rejeições extremadas.

Começa a circular no centro, na centro-direita e até na direita interessada em se livrar no jugo do bolsonarismo a seguinte ideia: a se confirmar o quadro de disputa entre Luiz Inácio da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) seria melhor para os negócios futuros investir na reeleição de Lula.

Por essa avaliação, o PT reassumiria o governo enfraquecido no quesito expectativa de poder que já estaria em disputa no dia seguinte à posse. Já no caso da vitória de Flávio Bolsonaro, o Palácio do Planalto estaria entregue ao reinício de um ciclo de domínio do clã. Com anistia ao ex-presidente e perspectiva de reaglutinação de forças.

Note-se que não há entre os adversários de Lula esforço por unidade. Os grupos de Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) falam em aliança entre si no primeiro turno, mas não cogitam aderir ao PL.
Deixam em aberto apoio na etapa final como se fosse óbvia a possibilidade de que estejam juntos, mas sem firmar compromissos de antemão. Por ora escorados na alegação de que disputam vaga no segundo turno. De verdade não é com o que contam.

Dão tempo ao tempo, acreditando numa pragmática reedição da frente ampla em prol de Lula ao centro, enquanto a direita olharia a cena de camarote, dedicada ao apoio fictício no exercício da lavagem das mãos.

 

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