Folha de S. Paulo
É que perderam relevância marcadores de
sentido que orientavam a percepção pública, a exemplo da economia
Sem nada dizer, erige-se como totem de uma
espécie humana atormentada pela falta de esperanças, vulnerável ao marketing do
nada
Era um júri no interior nordestino, desses a que se assistiam por obrigação acadêmica, quando o advogado de defesa contestou o promotor: "A minha objurgatória é peremptória no rechaço às ilações vitriólicas de Vossência". Exatamente assim. É difícil saber por que não se esquece linguagem de sentido obscuro, mas sonoramente marcante. Acontece, porém, mesmo quando se trata da empolação verbal que relega significação ao segundo plano do som. A palavra nua, o nome, para além de uma etiquetagem prática, guarda velado poder simbólico.
No caso de sobrenome, pode haver expectativa
em vez de conhecimento dos atributos de alguém. Bolsonaro,
por exemplo. Seria redundante enfatizar o seu grau zero de qualidades humanas
ou discorrer sobre sua nefasta passagem pelo poder. Até mesmo os seguidores sabem
disso. Mas na percepção deles permanece um favorável "efeito halo":
fenômeno de influência febril, com matizes histéricos, transmissível, virótico.
Isso o antigo grego chamava propriamente de epidemia ("epi+demos"),
excitação ou efeito patológico que incide diretamente sobre o povo.
Essa é ao menos uma hipótese sugestiva para a
questão intrigante de como zeros à esquerda, candidatos adequados a reality
shows, obtêm resultados surpreendentes em urnas eleitorais de verdade. Veja-se
a grei Bolsonaro, que espalha brasas desde a prisão até legislativos nacionais
e lobbies antibrasileiros. Nessa trilha, o inexpressivo vereador carioca 03
pode transitar para a candidatura ao Senado em outro estado; o apagadíssimo 04
postular a Câmara Federal; o 02, foragido lobista, conspirar com antinacionais,
e o "garoto inteligente" de Trump, com jeitão de aluno de quinta
série, medíocre senador 01, pontuar nas pesquisas presidenciais. Incluindo-se o
00, prisioneiro, tem-se uma quinta-coluna a serviço da recolonização do país.
O fenômeno é elástico, comprova o notório evento
Gilmarpalooza: sem jamais ter produzido uma única frase jurídica
significativa, a etiqueta arrasta elites a Lisboa. É que fatos só existem pela
linguagem e pelas descrições que os produzem. Mas então há significações e
sentido. Isolado, um nome próprio, mesmo com eventual significado, apenas
classifica parentesco. "Bolso", em italiano, quer dizer
"oco", "vazio", e não seria por isso que comparece em
Bolsonaro. No entanto, o fato social por ele produzido, até avaliações atrás,
alçava 01 ao empate com Lula:
do túmulo do sentido emana uma tóxica nulidade existencial, espelhada em um
segmento de almas semimortas, bem vivas só em pesadelos cívicos.
É que perderam relevância marcadores de
sentido que orientavam a percepção pública, a exemplo da economia. Eleitores
desconsideram indicadores econômicos, não votam em PIB. Até mesmo a corrupção,
que indignava à esquerda e à direita, já não atiça tanto os espíritos, de tão
corriqueira. Se fosse o caso, 01, o popular Rachadinha, não teria adeptos
sequer nas hostes extremistas.
Resta o recado oculto: sem nada dizer, erige-se como totem de uma espécie humana atormentada pela falta de esperanças, vulnerável ao marketing do nada. De competitivo, 01 tem apenas um nome, já necrosado, zero referencial. O sentido é, então, desnecessário, a objurgatória é mesmo peremptória.

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