Folha de S. Paulo
Livro faz uma arqueologia do conceito,
mostrando sua origem, desenvolvimento e contradições
Liberalismo é compatível tanto com ideias de
esquerda como com de direita
Você é liberal? A pergunta é capciosa, porque "liberal" e "liberalismo" podem significar mais ou menos qualquer coisa e o seu contrário. Nos EUA, o termo "liberal" é sinônimo de "de esquerda". Mas o liberalismo também é compatível com as ideias de Von Mises e Hayek, autores de direita. No meio do caminho, temos Adam Smith, Stuart Mill e Keynes. Liberalismo é um conceito não só naturalmente polissêmico como também um que adquiriu diferentes significados em diferentes momentos históricos.
Eu não conhecia Helena Rosenblatt, mas ela
deu uma entrevista ao The New York
Times, que me chamou a atenção. Fui atrás de seu livro, que já foi
até vertido para o português. É "A História Perdida do Liberalismo",
no qual ela põe um pouco de ordem no caos. Ou revela a verdadeira dimensão da
balbúrdia, para os que a ignoravam. Seja como for, é uma obra muito
interessante.
A autora começa na Roma
Antiga. Naquele tempo não havia nada que hoje identifiquemos
com o liberalismo, mas já tínhamos Cícero defendendo um conjunto de virtudes
típicas do homem livre que deveriam fazer parte da República. A palavra
"liberalismo" e sua identificação com doutrinas políticas só vão
surgir no século 19, principalmente pela pena de Benjamin Constant. A ideia do
francês era tentar preservar os avanços da revolução de 1789 dos movimentos
reacionários que a sucederam.
Hoje, quando pensamos em liberalismo, pensamos
também em democracia. O binômio "democracia liberal" nos parece até
inevitável. Mas nem sempre foi assim. Liberais do século 18 e 19 desconfiavam
da democracia. Não dá para dizer que não tinham motivos. A primeira eleição com
sufrágio universal, para a Convenção Nacional de 1792, desembocou no terror. E
a ditadura de Napoleão foi aprovada em plebiscito.
Instituições evoluem. A capacidade do
liberalismo de adaptar-se a novos tempos é que o transformou num sistema que,
hoje, dando mais peso a métodos de governança do que a teses específicas, pode
ser defendido tanto pela esquerda como pela direita.
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