quarta-feira, 10 de junho de 2026

Quem ganharia com sigilo para a jogatina? Por Elio Gaspari

O Globo

No domingo, o repórter Vinícius Valfré revelou que o Ministério da Fazenda impôs um sigilo de até cem anos aos documentos que tratam da autorização para o funcionamento de casas de apostas no Brasil. A mordaça excluiu até a hipótese de liberar somente os trechos que não contivessem informações sensíveis.

Na segunda-feira, o ministro Dario Durigan informou que a medida foi revogada, e será criado um grupo de trabalho para examinar o caso, dando “ampla transparência” aos processos. Tudo bem, mas mordaça, como jabuti, não sobe em árvore, alguém a colocou lá. Para atender a que finalidade? Falta saber.

São cerca de 25 mil documentos, muitos deles triviais. No lote estão algumas notas técnicas produzidas pela máquina do governo. Lê-los poderá jogar alguma luz sobre a liberação dessas casas de apostas.

A mais alta autoridade que tratou do assunto foi Lula, e ele é contra, mas, como já explicou, “não é dono do Brasil”.

Num ano eleitoral em que o governo brasileiro bate cabeça com o americano por causa da classificação do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital como terroristas, não poderia haver presente melhor para os adversários do governo do que um sigilo nessa área.

O governo finge que é contra a jogatina, mas desde 2025 concedeu 85 licenças, somando 187 sites autorizados a operar apostas eletrônicas, aquelas que Lula condena.

O repórter Pedro S. Teixeira mostrou que a jogatina movimentou R$ 4,5 bilhões nos quatro primeiros meses deste ano. Semelhante ervanário equivale ao dobro do valor das apostas no mesmo período do ano passado. Mais: o governo arrecadou com as apostas um valor próximo ao que morde com o tabaco e com o agronegócio.

Existem casas de apostas que seguem as normas, e existem braços do crime organizado infiltrados na jogatina. Quando o Ministério da Fazenda tentou impor sigilo de cem anos nos processos de venda das outorgas, quem ganharia? As que estão contaminadas pelo crime, pois elas detestam falar dos seus negócios.

A porteira da jogatina foi aberta no governo Bolsonaro, que tinha planos mirabolantes para a construção de cassinos (podem chamá-los de resorts). Um deles poderia ficar dentro da Baía de Guanabara. Lula 3.0, movido pela febre arrecadatória do ministro Fernando Haddad, escancarou a venda de outorgas e, em três anos, já arrecadou com as apostas algo como R$ 30 bilhões. Para ver o tamanho desse dinheiro, basta lembrar que a falecida “taxa das blusinhas” gerou desconforto e impopularidade, rendendo apenas R$ 8,2 bilhões. A jogatina tem certa popularidade (para quem ganha), e suas consequências vão para os consultórios médicos e para as cruéis estatísticas do aumento do endividamento das famílias.

Sigilo de até cem anos envolvendo licenças para o funcionamento de casas de jogos poderia ter algumas justificativas, mas a seco, com explicações mambembes, deixou um cheiro de queimado na mordaça.

Até domingo era necessário acabar com embargo centenário. Desativado, é preciso saber quem o pôs lá, porque virão outros. O mundo da jogatina tem novidades para dar e vender.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário