O Globo
No domingo, o repórter Vinícius Valfré
revelou que o Ministério da Fazenda impôs um sigilo de até cem anos aos
documentos que tratam da autorização para o funcionamento de casas de apostas no
Brasil. A mordaça excluiu até a hipótese de liberar somente os trechos que não
contivessem informações sensíveis.
Na segunda-feira, o ministro Dario Durigan informou que a medida foi revogada, e será criado um grupo de trabalho para examinar o caso, dando “ampla transparência” aos processos. Tudo bem, mas mordaça, como jabuti, não sobe em árvore, alguém a colocou lá. Para atender a que finalidade? Falta saber.
São cerca de 25 mil documentos, muitos deles
triviais. No lote estão algumas notas técnicas produzidas pela máquina do
governo. Lê-los poderá jogar alguma luz sobre a liberação dessas casas de
apostas.
A mais alta autoridade que tratou do assunto
foi Lula,
e ele é contra, mas, como já explicou, “não é dono do Brasil”.
Num ano eleitoral em que o governo brasileiro
bate cabeça com o americano por causa da classificação do Comando Vermelho e do
Primeiro Comando da Capital como terroristas, não poderia haver presente melhor
para os adversários do governo do que um sigilo nessa área.
O governo finge que é contra a jogatina, mas
desde 2025 concedeu 85 licenças, somando 187 sites autorizados a operar apostas
eletrônicas, aquelas que Lula condena.
O repórter Pedro S. Teixeira mostrou que a
jogatina movimentou R$ 4,5 bilhões nos quatro primeiros meses deste ano.
Semelhante ervanário equivale ao dobro do valor das apostas no mesmo período do
ano passado. Mais: o governo arrecadou com as apostas um valor próximo ao que
morde com o tabaco e com o agronegócio.
Existem casas de apostas que seguem as
normas, e existem braços do crime organizado infiltrados na jogatina. Quando o
Ministério da Fazenda tentou impor sigilo de cem anos nos processos de venda
das outorgas, quem ganharia? As que estão contaminadas pelo crime, pois elas
detestam falar dos seus negócios.
A porteira da jogatina foi aberta no governo
Bolsonaro, que tinha planos mirabolantes para a construção de cassinos (podem
chamá-los de resorts). Um deles poderia ficar dentro da Baía de Guanabara. Lula
3.0, movido pela febre arrecadatória do ministro Fernando Haddad, escancarou a
venda de outorgas e, em três anos, já arrecadou com as apostas algo como R$ 30
bilhões. Para ver o tamanho desse dinheiro, basta lembrar que a falecida “taxa
das blusinhas” gerou desconforto e impopularidade, rendendo apenas R$ 8,2
bilhões. A jogatina tem certa popularidade (para quem ganha), e suas
consequências vão para os consultórios médicos e para as cruéis estatísticas do
aumento do endividamento das famílias.
Sigilo de até cem anos envolvendo licenças
para o funcionamento de casas de jogos poderia ter algumas justificativas, mas
a seco, com explicações mambembes, deixou um cheiro de queimado na mordaça.
Até domingo era necessário acabar com embargo
centenário. Desativado, é preciso saber quem o pôs lá, porque virão outros. O
mundo da jogatina tem novidades para dar e vender.

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