Folha de S. Paulo
Por cumprir seu papel, diretora de escola
infantil foi intimidada por PMs
Tratar de orixás nas escolas é tratar da
cultura brasileira
Doze policiais, um deles com uma
metralhadora, intimidaram a diretora de uma escola em São Paulo após
o pai de uma aluna, ele mesmo policial
militar, ter contestado uma atividade escolar sobre cultura
afro-brasileira.
O pai da estudante mente: a escola apenas aplicou uma atividade pedagogicamente adequada e determinada pela lei federal 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afrobrasileira. Os professores estavam trabalhando o livro "Ciranda de Aruanda", de Liu Oliveira, que apresenta os orixás em linguagem para crianças.
Tratar de orixás nas escolas é falar de
cultura brasileira. Da mesma forma que estudantes se debruçam sobre mitologia
greco-romana e sobre o papel do cristianismo na história do país — seja
levantando a cruz, seja empunhando a espada— , devem, sim, aprender sobre
Iansã, sobre Ogum, sem os quais nunca conseguirão ler um Jorge Amado,
uma Conceição
Evaristo, um Itamar
Vieira Junior, nunca entenderão nossas festas populares nem nossa própria
língua.
Invadir uma escola infantil armado não é
apenas intolerância; é racismo religioso
praticado por um Estado policial-cristão, para o qual liberdade religiosa tem
cor e um credo.
Chamar
de racismo religioso, não apenas de intolerância, ressalta o caráter
sistemático e odioso desse tipo de discriminação que atinge primordialmente
religiões de matriz africana. Os policiais devem ser punidos no rigor da lei,
por crime de racismo e por abuso de autoridade ao servir como capangas
privados, não como agentes republicanos da lei.
Não se trata de um caso isolado. Religiões de matriz africana predominam entre os casos de intolerância religiosa no Disque 100 —76% dos terreiros relataram ter sofrido violências físicas e/ou verbais, de acordo com estudo de 2025. Discriminação religiosa é um dos principais motivos de perseguição a professores e funcionários, de acordo com OLE (Observatório da Laicidade na Educação). O Brasil que veste branco todo fim de ano e fala Oxalá entra em escola infantil com metralhadora com a certeza da impunidade que apenas o racismo propicia.
*Advogado, é professor de direito internacional e direitos humanos na FGV Direito SP. Doutor pela Central European University (Budapeste),

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