sábado, 20 de junho de 2026

Sertanismo – mais uma autêntica nota de R$ 3, por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

O denominado ‘sertanismo’ desestimula o progresso da música popular, área em que nos destacamos durante todo o século 20

Esse “sertanismo” que ora inunda nossos meios de comunicação é mais um blefe inventado nos grandes centros por artistas principiantes de classe média, ansiosos por se divulgar, por estúdios de rádio e TV, e por igrejas.

Devemos questioná-lo por três motivos, pelo menos. Primeiro, por um relevante motivo constitucional. Esse, digamos, gênero musical é difundido por potentes aparelhos eletroeletrônicos que penetram sem dificuldade os lares, veículos, hospitais e até – pasmem! – consultórios onde se realizam exames médicos.

Contra a difusão de ruídos por esse meio, os velhos tampões de ouvido e as espessas paredes dos prédios antigos são impotentes. Trata-se, portanto, de uma flagrante violação do artigo 5.º, XI, da Constituição federal de 1988, que determina a “inviolabilidade” do domicílio. O artigo mencionado não estipula que a violação do domicílio se configura só quando o invasor chega armado com um aríete ou uma barra de ferro. Ruído excessivo e contínuo também é violação. Eis o que dispõe o artigo 5.º, XI, na íntegra: “A casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial.”

O fato que lhes relato a seguir começou no dia 17 de abril, naquele sábado que precedeu a homenagem nacional a Tiradentes, há dois meses, portanto. Naquele dia, no bairro de Higienópolis, fui surpreendido por um grupo que tocava sem parar, em alto volume, uma fita que não se identificava, mas que, pelo teor, era fácil concluir que se tratava de um grupo de moços (suponho que sejam moços) tentando personificar um “sertanismo”. Continuam a repeti-la diariamente, quase o dia inteiro, não raro entrando pela madrugada. Sem esquecer que, contando as diversas músicas agrupadas na fita, algumas delas vêm sendo tocadas centenas de vezes por dia. São Paulo, com 11 milhões de habitantes, é a principal metrópole da América do Sul. Atualmente, poderosos dispositivos de produção e difusão de som cabem numa caixa de sapatos. Cumpre, pois, ressaltar que o fato relatado brevemente se espalhará por todo o País. Sem uma legislação nacional abrangente, que ponha fim, em pouco tempo estaremos todos sujeitos a essa barbaridade.

Frisemos que as camadas populares não são idênticas de um Estado a outro. Os favelados do Rio de Janeiro, designação claramente urbana, sim, prestaram uma grande contribuição, com ou sem associação com artistas lá “de baixo”, ou seja, da classe média – mas este é assunto para outro texto. Entre nós, o termo “sertão” faz referência muito mais a uma área geográfica distante e despovoada que a um modo de vida. A verdade é que o Brasil praticamente não teve arte legitimamente “sertaneja”. Ao contrário de países nos quais houve extensa vida associativa no meio rural, no Brasil os pobres eram escravos ou ex-escravos, que permaneceram em sua quase totalidade analfabetos durante pelo menos três décadas após a abolição.

É também certo que, no século 20, alguns (poucos) músicos começaram a se dirigir às camadas mais pobres, às rurais inclusive, mas isso nada tem a ver com o “sertanismo”, conforme o defini acima. Por esse caminho vamos dar em Maringá, essa sim, merecedora do importante lugar que ocupa em nossa história musical, notadamente nas lindas gravações de Orlando Silva e Fagner.

Mas de quem é Maringá? De um moço de Uberaba, Joubert de Carvalho, que a compôs no Rio de Janeiro, onde estudava Medicina. Ele teria se comovido com a história de uma família que fora para o Sul, em busca de sobrevivência. Isso no final do século 19, sendo tal família, portanto, a precursora dos paus-de-arara que décadas mais tarde viriam para São Paulo em busca de trabalho. Em 1947 surgiu outro clássico, a belíssima Asa Branca, de Luís Gonzaga. Mas a partir de 1945 a história tomou outro rumo, assaz e duvidoso em termos de autenticidade. Foi quando uma dupla paulista, Tonico e Tinoco, lançou a canção Chico Mineiro, fraca como melodia e péssima como letra. Essa foi a origem das “duplas caipiras”, que daí em diante proliferaram para valer.

Importante, pois, destacar que o denominado “sertanismo” desestimula o progresso da música popular, área em que nos destacamos durante todo o século 20.

Naqueles tempos remotos, poucos imaginaram que a agropecuária poderia se tornar a base da economia brasileira. Sem ela, viveríamos constantemente assustados com nossas contas externas. Hoje, quem teve recentemente chance de viajar na direção oeste, certamente reparou que o campo está quase vazio. A mecanização expulsou o trabalho manual. Em centros menores, há fazendas à venda, por falta de mão de obra.

O panorama atual nós conhecemos bem. Os rodeios, antigamente só masculinos, hoje estão repletos de belas senhoras, todas portando grandes chapéus de abas largas, divertindo-se bastante, quanto a isto, não cabe dúvida; mas atrevo-me a afirmar que muitas delas prefeririam estar se bronzeando em alguma praia.

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