O Estado de S. Paulo
O denominado ‘sertanismo’ desestimula o progresso da música popular, área em que nos destacamos durante todo o século 20
Esse “sertanismo” que ora inunda nossos meios
de comunicação é mais um blefe inventado nos grandes centros por artistas
principiantes de classe média, ansiosos por se divulgar, por estúdios de rádio
e TV, e por igrejas.
Devemos questioná-lo por três motivos, pelo menos. Primeiro, por um relevante motivo constitucional. Esse, digamos, gênero musical é difundido por potentes aparelhos eletroeletrônicos que penetram sem dificuldade os lares, veículos, hospitais e até – pasmem! – consultórios onde se realizam exames médicos.
Contra a difusão de ruídos por esse meio, os
velhos tampões de ouvido e as espessas paredes dos prédios antigos são
impotentes. Trata-se, portanto, de uma flagrante violação do artigo 5.º, XI, da
Constituição federal de 1988, que determina a “inviolabilidade” do domicílio. O
artigo mencionado não estipula que a violação do domicílio se configura só
quando o invasor chega armado com um aríete ou uma barra de ferro. Ruído
excessivo e contínuo também é violação. Eis o que dispõe o artigo 5.º, XI, na
íntegra: “A casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar
sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou
para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial.”
O fato que lhes relato a seguir começou no
dia 17 de abril, naquele sábado que precedeu a homenagem nacional a Tiradentes,
há dois meses, portanto. Naquele dia, no bairro de Higienópolis, fui
surpreendido por um grupo que tocava sem parar, em alto volume, uma fita que
não se identificava, mas que, pelo teor, era fácil concluir que se tratava de
um grupo de moços (suponho que sejam moços) tentando personificar um
“sertanismo”. Continuam a repeti-la diariamente, quase o dia inteiro, não raro
entrando pela madrugada. Sem esquecer que, contando as diversas músicas
agrupadas na fita, algumas delas vêm sendo tocadas centenas de vezes por dia.
São Paulo, com 11 milhões de habitantes, é a principal metrópole da América do
Sul. Atualmente, poderosos dispositivos de produção e difusão de som cabem numa
caixa de sapatos. Cumpre, pois, ressaltar que o fato relatado brevemente se
espalhará por todo o País. Sem uma legislação nacional abrangente, que ponha
fim, em pouco tempo estaremos todos sujeitos a essa barbaridade.
Frisemos que as camadas populares não são
idênticas de um Estado a outro. Os favelados do Rio de Janeiro, designação
claramente urbana, sim, prestaram uma grande contribuição, com ou sem
associação com artistas lá “de baixo”, ou seja, da classe média – mas este é
assunto para outro texto. Entre nós, o termo “sertão” faz referência muito mais
a uma área geográfica distante e despovoada que a um modo de vida. A verdade é
que o Brasil praticamente não teve arte legitimamente “sertaneja”. Ao contrário
de países nos quais houve extensa vida associativa no meio rural, no Brasil os
pobres eram escravos ou ex-escravos, que permaneceram em sua quase totalidade
analfabetos durante pelo menos três décadas após a abolição.
É também certo que, no século 20, alguns
(poucos) músicos começaram a se dirigir às camadas mais pobres, às rurais
inclusive, mas isso nada tem a ver com o “sertanismo”, conforme o defini acima.
Por esse caminho vamos dar em Maringá, essa sim, merecedora do importante lugar
que ocupa em nossa história musical, notadamente nas lindas gravações de
Orlando Silva e Fagner.
Mas de quem é Maringá? De um moço de Uberaba,
Joubert de Carvalho, que a compôs no Rio de Janeiro, onde estudava Medicina.
Ele teria se comovido com a história de uma família que fora para o Sul, em
busca de sobrevivência. Isso no final do século 19, sendo tal família,
portanto, a precursora dos paus-de-arara que décadas mais tarde viriam para São
Paulo em busca de trabalho. Em 1947 surgiu outro clássico, a belíssima Asa
Branca, de Luís Gonzaga. Mas a partir de 1945 a história tomou outro rumo,
assaz e duvidoso em termos de autenticidade. Foi quando uma dupla paulista,
Tonico e Tinoco, lançou a canção Chico Mineiro, fraca como melodia e péssima
como letra. Essa foi a origem das “duplas caipiras”, que daí em diante
proliferaram para valer.
Importante, pois, destacar que o denominado
“sertanismo” desestimula o progresso da música popular, área em que nos
destacamos durante todo o século 20.
Naqueles tempos remotos, poucos imaginaram
que a agropecuária poderia se tornar a base da economia brasileira. Sem ela,
viveríamos constantemente assustados com nossas contas externas. Hoje, quem
teve recentemente chance de viajar na direção oeste, certamente reparou que o
campo está quase vazio. A mecanização expulsou o trabalho manual. Em centros
menores, há fazendas à venda, por falta de mão de obra.
O panorama atual nós conhecemos bem. Os
rodeios, antigamente só masculinos, hoje estão repletos de belas senhoras,
todas portando grandes chapéus de abas largas, divertindo-se bastante, quanto a
isto, não cabe dúvida; mas atrevo-me a afirmar que muitas delas prefeririam
estar se bronzeando em alguma praia.

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