domingo, 28 de junho de 2026

Um destino tão funesto, por Muniz Sodré*

Folha de S. Paulo

Episódio chocante na ponte do Esqueleto, em Limeira (SP), provoca reflexão

Detrás de uma aberração individual pode haver uma microestrutura, que funciona pela obliteração despercebida da razão e da atenção, normalizando o anormal

Há algo de funesto, isto é, de mau augúrio e desastroso, no incidente da ponte do Esqueleto em Limeira (SP), quando três homens assistidos por um técnico levantaram nos braços uma jovem para lançá-la "em aviãozinho" do alto de 40 metros. Seria uma experiência de rope jump, em que grossas cordas sustentam a pessoa no ar. Só que, contra toda a razão, esqueceram de amarrar as cordas. "Horribile visu", medonho de contemplar, o chocante episódio provoca uma reflexão.

Sujeitos à acusação de homicídio, os instrutores, perplexos consigo mesmos, alegam ter sofrido um apagão, nenhum deles notou a ausência das amarras de segurança. Inexplicável assomo de inconsciência: um fenômeno análogo ao do pai ou mãe que esquece o bebê num automóvel trancado enquanto faz compras num supermercado. Com uma diferença gritante: na ponte, eram várias pessoas. A atenção que se deveria prestar à segurança competia com a câmera GoPro fixada no corpo da jovem. Só quem estava fora do circuito imediato desse holofote pôde perceber e avisar que faltavam as cordas.

Não há como se eximir de culpa. Mas detrás de uma aberração individual pode haver uma microestrutura, que funciona pela obliteração despercebida da razão e da atenção, normalizando o anormal. Pertinente é a metáfora de Engels de que "olhar apenas para o indivíduo seria o mesmo que observar a árvore e não considerar o bosque" (em "Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico"). Em "bosques" implausíveis, mas verossímeis, se expande a aura popular da anestesia perceptiva e do descaso.

Divisa-se assim um pequeno paradigma extensivo à generalidade do corpo social. De fato, essa aberração de comportamento evoca o blecaute perceptivo e moral que acomete as massas dessensibilizadas de sua espoliação pelas gestões incivis dos mecanismos de Estado ou de imposição das dinâmicas de sujeição social e psíquica pelas políticas neoliberais.

Outro não é o quadro atual, em que o senso comum assiste bestificado à desagregação institucional e à fragmentação do laço social por efeito da indiferença das elites ao território e do cinismo como marcador da ética social imediata. O apagão sensível e moral em instituições como o Congresso, o Judiciário e os blocos partidários tem consequências ainda não plenamente avaliadas sobre o corpo social. A dinâmica da necropolítica, orientada para a destruição da vida comum e o extermínio dos descartáveis, não aparece nas macroanálises noticiáveis.

Além do evidente sofrimento da família pelo sacrifício banal de uma filha, depreende-se da imagem do episódio nas redes uma metáfora descritiva da atualidade: o país a caminho de um voo instagramável sobre o abismo, sem cordas de sustentação, carregado por sujeitos de um apagão adverso. É o senador, o deputado, o juiz, o executivo eleito, quando submersos no vórtex escabroso da corrupção. Esse grupo inclui o cidadão anestesiado. A analogia é consistente, levando-se em conta que, fora do blecaute da consciência, houve quem gritasse pelas cordas. Espera-se que esse grito possa repercutir nas urnas eleitorais.

*Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”

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