domingo, 7 de junho de 2026

Um escândalo em Königsberg, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro reconstitui passos de julgamento envolvendo os Muckers, seita religiosa alemã do século 19

Processo envolveu fake news e opôs religiosidade popular a abordagem mais racionalista

Sir Christopher Clark é um dos grandes historiadores em atividade. Seu "Os Sonâmbulos", sobre as causas da Primeira Guerra Mundial, publicado em 2012, já virou clássico. Foi com avidez, portanto, que li "A Scandal in Königsberg", assim que soube da existência do livro.

As duas obras não poderiam ser mais diferentes. Se a primeira trata de um episódio literalmente global, a segunda investiga um caso obscuro que se passou numa área provinciana da Prússia do século 19. Mas Clark consegue extrair lições universais desse escândalo envolvendo religiosos na cidade natal de Kant.

Os protagonistas da obra são Johann Wilhelm Ebel e Georg Heinrich Diestel. Ambos eram pregadores luteranos que atuavam em Königsberg. Eram figuras carismáticas, mas que flertavam com uma religiosidade mais popular, na linha do pietismo. A "intelligentsia" prussiana via esse tipo de movimento com desconfiança. Seus seguidores ganharam o apelido de Muckers, palavra alemã que pode ser traduzida como santarrões.

Ebel em particular era um bom psicólogo. Sabia ouvir as queixas de mulheres, em especial em relação a seus casamentos. Fez tanto sucesso entre as moças da nobreza prussiana que acabou desencadeando uma rede de intrigas —pessoais, políticas e teológicas— que culminou num julgamento de seis anos. Ebel e Diestel foram acusados de manter uma seita na qual rolava até sexo grupal. A dupla não foi condenada pelos crimes relacionados a imoralidade, mas perdeu a licença para pregar.

Clark se debruçou sobre os arquivos do julgamento e mostra em detalhes a dinâmica do caso, que envolve muita fake news. O autor ainda nos remete a uma discussão sobre a esfera pública habermasiana. Não dá para dizer que ela sempre funcione.

A título de curiosidade —e isso não está no livro—, alguns Muckers vieram parar no Brasil nos anos 1860. Instalaram-se em São Leopoldo (RS), onde se envolveram em conflitos com autoridades e vizinhos, como ocorrera em Königsberg. O caso terminou em massacre, conhecido como a Revolta dos Muckers.

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