segunda-feira, 15 de junho de 2026

Um golpe à reputação dos EUA, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

O que está sobre a mesa não é um tratado de paz, mas o compromisso de continuar negociando

Há mais de cem dias, a maior potência do mundo entrou em guerra contra o Irã para eliminar o programa nuclear iraniano, destruir suas capacidades militares e derrubar o regime. Nenhum desses objetivos foi atingido. Pelo contrário: não há sinais de que o Irã tenha interrompido seu programa nuclear; suas forças seguem atacando os vizinhos e o regime, antes fragilizado, passou por uma renovação e radicalização.

Quem parece acuado não é Teerã, mas Washington. Ontem, em seu aniversário de 80 anos, Donald Trump anunciou que o acordo estava concluído, autorizou a reabertura do Estreito de Ormuz e o fim do bloqueio aos portos iranianos. O entendimento, mediado por Paquistão e Catar, prevê a assinatura na Suíça e estende por 60 dias o cessar-fogo.

Mas o anúncio, mais do que encerrar a crise, expõe a posição em que os EUA se enfiaram: uma superpotência que ditou ultimatos, mas dependeu de mediadores para amarrar um texto cujos termos centrais ficaram adiados para uma negociação que apenas começa.

Tudo isso é notável por dois motivos. Primeiro: os EUA haviam negociado um acordo nuclear com o Irã em 2015 (sob Obama), antes de Trump rasgá-lo em 2018. Segundo: a guerra impôs um custo. Como escreveu Robin Wright na revista

The New Yorker: “A guerra custou US$ 28 bilhões, a vida de 13 americanos e de milhares de iranianos, o fechamento de Ormuz, a interrupção do fornecimento global de energia, uma crise econômica que atingiu centenas de milhões no mundo e um dano possivelmente irreversível à reputação dos EUA.”

QUEDA. Além de perceber que está com influência limitada sobre Teerã, Trump enfrenta dificuldades de controlar Israel e Hezbollah, atores-chave no conflito. Ontem, um ataque israelense a Beirute quase descarrilou o acordo e obrigou Trump a declarar que o ataque “não deveria ter acontecido”.

Que o entendimento tenha sobrevivido a esse episódio não apaga o fato de que TelAviv demonstrou, mais uma vez, poder de veto informal sobre qualquer diálogo entre EUA e Irã.

Internamente, a guerra deu força aos radicais da Guarda Revolucionária, que não temem continuar ou até intensificar o conflito que os levou ao centro do poder. O que está sobre a mesa não é um tratado de paz, mas, segundo a revista The Economist, um compromisso de continuar negociando: a trègua estendida de 60 dias, a reabertura gradual do estreito, à medida que o Irã remove as minas, princípios gerais sobre o programa nuclear e um alívio de sanções condicionado e faseado, com os detalhes adiados.

Foi Trump quem mais recuou. Por exemplo, a entrega do urânio enriquecido, antes inegociável, deu lugar à aceitação de que o Irã dilua o material e fique com ele. O resultado mais relevante, porém, não envolve o Irã, mas os aliados dos EUA no Golfo, que absorveram danos de uma guerra que não pediram e se deram conta de que ter uma base americana não os protegeu. Pelo contrário, tornou-os alvos do Irã.

Ao perceber que os EUA não estavam dispostos a protegêlo, o Catar tentou negociar um acordo com o Irã, oferecendo suspender a produção de gás em troca do compromisso iraniano de não atacar suas principais instalações de energia.

RISCO. Daí decorre a lição para empresas e investidores: o petróleo disparou com a destruição da oferta e depois recuou diante da expectativa de acordo, num vaivém que não foi episódio isolado, mas sintoma de um novo regime de risco – a volatilidade veio para ficar. Contratos futuros, seguros e reservas amortecem choques, mas não substituem o fluxo físico. Prêmios de seguro e fretes, enquanto isso, viraram custo permanente.

Há, contudo, um beneficiário da instabilidade: ao tornar imprevisíveis os preços do petróleo, a guerra acelerou a corrida por energia limpa, e países castigados pela escassez passaram a enxergar painéis solares, baterias e veículos elétricos chineses como rota de fuga.

Para Trump, sobra um caminho amargo: oferecer concessões para destravar um estreito cuja travessia, antes da guerra, ninguém precisava negociar, enquanto a questão nuclear fica para depois. Para o mundo, a herança é mais duradoura. Qualquer que seja o desenho final do cessar-fogo, o risco geopolítico elevado da energia virou um custo fixo.

*Pesquisador do Carnegie Endowment, na Harvard Kennedy School, e professor de relações internacionais da FGV-SP

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