Revista Será? Nº 712, 05/06/2026
Edgar est mort: foi assim que nos chegou a notícia do falecimento do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, às vésperas de completar 105 anos, por sua filha Véronique. Era uma tarde de sexta-feira (29). Estávamos em um carro na Asa Norte (Brasília) retornando para casa, e um silêncio pesado se abateu sobre nós. Há algumas semanas ele lutava contra uma septicemia em Paris. Marianne Cohen, sua sobrinha, que estava conosco, o tinha visitado na terça-feira (26), antes de viajar ao Brasil. Sabíamos, portanto, dos riscos que sofria, mas tínhamos a esperança de que aquele que venceu o nazismo, o estalinismo e a perseguição por seu pensamento fora da curva resistiria ainda e mais uma vez.
Tristes e abatidos, logo nos lembramos de que
a vida do pensador da complexidade não se extingue com sua partida. Morreu o
ser humano, mas sua obra continua, pois Morin é um homem de muitos séculos. Sua
obra, explicitada em quase cem livros e traduzida em 30 países, persistirá e
será cada vez mais importante em um mundo em que a complexidade e a incerteza
aumentam, e no qual a desinformação se generaliza. Ela será fundamental para
compreendermos as mudanças, as incertezas e as ameaças que nos cercam. Uma bússola,
nesta tempestade que marcam o espirito do tempo.
Morin, com sua imensa obra[2], tem muitas facetas; a mais renomada é a
do pensador da complexidade, que ele definia como o ato de religar, de tecer
juntos. Por isso, um pensamento complexo é aquele que religa as partes do todo,
sabendo que o todo é mais do que a soma de suas partes. Do diálogo de suas
partes nasce o fenômeno da emergência, do novo, do inesperado. As qualidades da
água (H2O) não se encontram em seus componentes isolados (hidrogênio e
oxigênio).
Vivemos um tempo de múltiplas ameaças, uma
policrise como dizia Morin, que produz angústia, ansiedade e o declínio da
esperança. Apenas a ruptura com o pensamento linear pode nos despertar a
esperança, pois o seu fenecimento entre nós decorre da incompreensão de que a
trajetória do mundo se constrói em movimentos contraditórios, de que o
imprevisto nos cerca a cada momento. É o reducionismo, que tanto Morin
combateu, que nos leva à desesperança. No pensamento complexo, o futuro é uma
simbiose entre continuidade e descontinuidade, que resulta de nossas decisões;
cabe a todos nós definir o que deve persistir e o que deve perecer. Uma
tendência dominante hoje não o será necessariamente amanhã.
Isso ele me ensinou em uma viagem entre
Poitiers e Paris, contando sua participação na resistência ao nazismo durante a
Segunda Guerra Mundial. Até 1942, dizia-me ele “estávamos certos que Hitler
venceria, dominando toda a Europa”, quando então os americanos declararam
guerra ao Eixo (Alemanha, Itália e Japão) em dezembro de 1941 e, sobretudo, os
russos venceram a batalha de Stalingrado (02/02/1943), fazendo os alemães
recuarem. Ninguém esperava por esta vitória, que custou mais de 20 milhões de
vidas do povo russo. Nos dias atuais, temos que aprender que o imprevisto é
possível.
O filósofo do pensamento complexo,
explicitado em seis volumes sob o título geral de O Método, nos ensina que os eventos
e os seres são formados por dimensões diversas e contraditórias, parte
integrante da incerteza que rege o mundo. Os humanos são criados pela sociedade
e são eles que criam a sociedade; portanto, são simultaneamente produtos e
produtores.
Para Morin, a incerteza não deve ser um
elemento paralisante de nossa ação, mas um componente do processo de
aprendizagem humana. A certeza emburrece, a incerteza enriquece. Ele nos
estimula a conhecer para vencer a incerteza do saber, aquela que nasce dos
limites de nossos conhecimentos, que podemos sempre ultrapassar. E, diante da
incerteza do ser, reconhecer as restrições de nosso intelecto nos impede a
arrogância e o descomedimento que ameaçam nossa civilização.
Morin nos ensina também que os humanos são
uma trindade: biológica (é um animal), com uma dimensão psíquica única, que nos
dá a autoconsciência, e que se constroem apenas como ser social. Fora da
sociedade não existe o ser humano. O grande desafio é vencer a disjunção que se
faz entre as dimensões da complexidade do humano, isolando-as. O humano é muitos
em um só. É um Homo
sapiens, dotado de razão; um Homo ludens, aquele que brinca; um Homo economicus, que produz; e
um Homo demens,
possuído pela loucura, pela irracionalidade e pelo descomedimento, entre
outros. É tudo isso, e não pode ser reduzido a uma só dimensão.
Para resumir, pois não se pode fazer diferente, Morin não nos deixou um dogma, mas um método: o método de abraçar a incerteza e a contradição, encantar-se com a emergência, praticar o comedimento e saber aguardar o improvável. Este homem iluminado, longevo, nos ensinou a ter esperança em todas as circunstancias. Em sua última entrevista publicada pelo Le Monde em abril deste ano, ele nos dizia “Duvido da humanidade, mas acredito na Humanidade”.
[1] Titulo do livro
publicado pelo Sesc São Paulo em 2021, sob organização minha, Alfredo Pena-Vega
e Maurício Amazonas.
[2] Sobre sua obra, com Alfredo Pena-Vega, publicamos um artigo no Ilustríssima da FSP no dia 31/05 – Morin morreu, agora viva Morin.
*Sociólogo, doutor em sociologia, professor
associado II da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de
Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011).

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