Folha de S. Paulo
Bancas de heteroidentificação criam mais um
caso polêmico, agora no Itamaraty
Biologia não oferece critérios objetivos
consistentes para classificar humanos em raças
Flávia
Goes de Medeiros foi exonerada do cargo de servidora no Itamaraty, no qual
ingressara por concurso como cotista, após veto da comissão de
heteroidentificação. Para a banca encarregada de verificar a autenticidade da
autodeclaração racial dos candidatos, Medeiros não era negra. "Conhecereis
a verdade, e a verdade vos libertará". OK, mas o que é a verdade?
A pergunta assombra filósofos há milênios. Uma resposta, que talvez frustre nossa imaginação metafísica, mas que se mostrou produtiva, é a contida nas teorias correspondenciais da verdade, que a definem como adequação da proposição ao objeto. Um corolário disso é que, se o objeto inexiste no mundo, é impossível fazer afirmações fáticas verdadeiras sobre ele.
É quase consensual entre biólogos que não
existem raças humanas. No nível dos genes, partilhamos todos 99,9% do DNA.
Entre cães, o DNA de dois indivíduos de raças distintas pode diferir em 25%.
Tamanha homogeneidade entre humanos é consequência dos gargalos evolutivos por
que nossa espécie passou. Biologicamente, somos muito pouco diversos.
Daí se segue que é impossível fazer políticas
de ação afirmativa para combater o racismo, que segue teimosamente existindo
como fenômeno social? Não necessariamente. O IBGE e a
própria lei de cotas original
resolvem a dificuldade recorrendo à autodeclaração. Não há marcadores
biológicos confiáveis para diferenciar grupos humanos, mas cada um pode
perfeitamente dizer em qual categoria se coloca. A autodeclaração se torna
então o critério de verdade relevante.
A fórmula alternativa, a heteroidentificação
baseada em características fenotípicas, dada a inexistência de marcadores
objetivos consistentes, não passa de um juízo estético que a banca profere
sobre o candidato. Destruir os projetos de uma pessoa que se viu a vida inteira
como negra e pôr-lhe a pecha de fraudadora a partir de mera manifestação de
gosto é de uma crueldade ímpar.
Autorizar a heteroidentificação foi um dos
grandes erros que o STF cometeu
nos últimos anos.
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