Correio Braziliense
Embora faça gestos para beneficiar parcelas
excluídas da população, nossa democracia nega a adesão social. Mantém a renda
concentrada, a desigualdade social, o analfabetismo e uma educação básica sem
qualidade nem equidade, ao mesmo tempo em que preserva privilégios
Em A oligarquia dos Poderes: e a crise da democracia, Joaquim Falcão nos oferece um livro que fará parte do cânone das obras de interpretação do Brasil neste momento de nossa história. Ao mesmo tempo defende e aponta os defeitos da democracia brasileira, apropriada por uma oligarquia que usa o Estado para obter benefícios para seus grupos e parentes. Falcão faz uma espécie de autópsia de como nossa democracia é usada por oligarquias — sejam escravocratas, latifundiários, usineiros, advogados, políticos, juízes, banqueiros, industriais, sindicalistas — que se sucedem sem respeitos aos interesses do povo ou da nação. Ele explicita que a legalidade foi criada e é usada para beneficiar oligarcas, seus grupos e famílias, por meio de manipulações das leis e dos orçamentos que elaboram e operam em benefício próprio.
Com robusta base analítica, lucidez,
conhecimento e coragem, o autor mostra a ossatura histórica de nosso sistema
político e expõe com tal crueza as entranhas das instituições que nos permite
usar o termo degenerada como adjetivo para qualificar nossa democracia. Essa é
a impressão que permanece ao longo de uma leitura que deslumbra pelo estilo e
assusta pelo conteúdo, desferindo verdadeiros tapas na consciência do leitor
brasileiro.
Com estilo leve, mas conteúdo rigoroso e
conhecimento profundo, Joaquim Falcão define as características da
"democracia originária importada, cujas adaptações a tornaram oligárquica
politicamente e degenerada socialmente". Sustenta que as seis intenções
originais não sobreviveram no Brasil: pluralidade dos Poderes, independência
dos Poderes, freios e contrapesos, existência de uma palavra final, eleições
gerais, livres e periódicas e, sobretudo, a necessária adesão social, sem a
qual a democracia carece de justificativa ética e de sustentação política.
Embora faça gestos para beneficiar parcelas
excluídas da população, nossa democracia nega a adesão social. Mantém a renda
concentrada, a desigualdade social, o analfabetismo e uma educação básica sem
qualidade nem equidade, ao mesmo tempo em que preserva privilégios como
supersalários, isenções fiscais, penduricalhos, aposentadorias especiais,
benesses e subsídios e, sobretudo, um sistema de segregação educacional. É um
sistema de privilégios construído graças ao que o autor chama de conluio entre
grupos e "parentela".
Cada capítulo permite ver a imoralidade
política e a maldade social da elite oligárquica que dirige o país nos Três
Poderes ao longo da história, inclusive no quase meio século desde a
redemocratização e a promulgação da Constituição de 1988. De tempos em tempos,
essa democracia degenerada promove uma falsa adesão social: condecora alguns
plebeus com títulos de nobreza sem romper os privilégios aristocráticos. É como
se, em vez de abolir a senzala, alguns escravos fossem escolhidos para morar na
casa-grande. É o que ocorre com as cotas sociais para dar ingresso de alguns
pobres no ensino superior sem que os filhos do povo sejam todos alfabetizados e
colocados no mesmo sistema nacional de educação básica com qualidade e
equidade.
Ao ler os capítulos sobre como se constrói a
práxis oligárquica do conluio e da parentela, o leitor sente um misto de
indignação e vergonha ao perceber que somos parte desse conluio e ao refletir
sobre como regenerar a democracia. O livro terá papel fundamental para o futuro
se os seus leitores se lembrarem que também são eleitores: responsáveis,
culpados e capazes de romper a oligarquia dos poderosos, enfrentando a
principal causa da degeneração — a desigualdade como a educação separa os
filhos do povo dos filhos da elite para perpetuar a democracia oligárquica
brasileira.
O pequeno livro de ficção Jogados ao mar transmite
essa realidade em um capítulo no qual uma médica, militante no seu sindicato e
em um partido de esquerda, demite sua empregada doméstica porque ela
reivindicava que seus filhos estudassem na mesma escola que os filhos da
patroa. Tanto quanto os trabalhadores brancos na África do Sul, ela faz parte
da oligarquia.
A oligarquia sabe que, mais do que a
manipulação das leis ou o uso de militares como fantoches, a permanência de seu
poder decorre da recusa em oferecer aos próprios filhos a mesma escola
destinada aos filhos do povo. A democracia degenerada separa desde o nascimento
seus filhos dos filhos do povo — esse é o berço contínuo da desigualdade e
segregação. A regeneração da democracia brasileira passa pela adoção de um
sistema nacional sem oligarquia escolar, todos com a mesma chance para
desenvolver seu talento.
*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

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