Folha de S. Paulo
Há 90 anos, regimes autoritários apoiaram
Franco, mas países democráticos abandonaram República Espanhola
Trump não deverá acabar o ano sem interferir nas duas maiores eleições do seu continente
Há 90 anos por estes dias, Barcelona se
preparava para receber os Jogos Olímpicos operários e antifascistas em
alternativa aos Jogos Olímpicos organizados pelos nazistas em Berlim. Não
aconteceu porque eclodiu a Guerra Civil da Espanha.
Em vez do grande evento esportivo, os trabalhadores e os seus sindicatos, nos quais predominavam os anarquistas, saíram às ruas para impedir a tomada de poder pelos fascistas. Durante uma década e meia tinham visto país após país cair em ditadura —Itália, Alemanha, Portugal mesmo ali ao lado, a própria Espanha na década anterior com Primo de Rivera, e desta vez disseram: "¡No pasarán!" ("Não passarão").
É difícil ter hoje em dia uma noção da
enormidade que foi esse grito de coragem. Não só pela primeira vez os
trabalhadores reagiram em defesa da democracia pegando em armas como, em muitos
casos, tomaram conta de uma economia que, nos centros urbanos, era complexa,
sofisticada e industrializada.
Conseguiram fazê-lo e ainda organizar uma
resistência que durou três anos. E conseguiram fazê-lo não numa ditadura, mas
num ambiente pluralista e diverso.
Tudo isso era demais não só para os
fascistas, salazaristas e nazis, que apoiaram Franco, mas também para Stálin,
que preferiu perder a guerra atacando a esquerda pelas costas a ver nascer do
outro lado da Europa uma
alternativa socialista que lhe fugisse ao controle autoritário.
Mas isso estaria ainda no futuro. Veio a
guerra e perdeu-se a guerra, e depois veio a Guerra Mundial. Ao passo que os
regimes autoritários apoiaram Franco, os democratas deixaram abandonada a República
Espanhola.
Na França governava
havia pouco tempo a Frente Popular, liderada por socialistas e apoiada por
sindicatos. Nestes mesmos dias há noventa anos, o assunto no país era o direito
dos operários de ter férias —duas semanas, com salário, imposto por lei.
As férias europeias são em agosto e, por
esses dias, os jornais de direita reagiam, entre o espanto e o desprezo, às
multidões que aprendiam a pegar o trem para ir, pela primeira vez, ver o mar.
O responsável era um jovem de 36 anos chamado
Léo Lagrange, subsecretário de Estado para o esporte e o lazer, que tinha
negociado com as empresas ferroviárias privadas descontos de até 40% para as
passagens vendidas aos operários.
Num jornal das esquerdas, na mesma página que
noticiava a alegria dos operários franceses, aparecia uma foto da Espanha com a
seguinte legenda: "Em Espanha, apenas uma certeza: cadáveres nas
ruas".
França e Espanha davam, então, duas faces de
um futuro alternativo para as democracias: ou conseguiam resolver a
"questão social" melhorando a vida das massas ou pereceriam.
Mas a lição essencial é uma que não pode
ficar esquecida hoje. A Espanha republicana naufragou não porque não conseguiu
gerir a economia ou a resistência nem combinar a liberdade e as políticas
públicas de emancipação, mas, sim, porque os autoritários se juntaram, e as
democracias não a ajudaram.
Esta semana, ao ver no palco da Fifa um Trump
que não queria sair de cena e que não vai acabar o ano sem interferir nas duas
maiores eleições do seu continente (Brasil e EUA), pensei: será que as
democracias não aprenderam a lição de 90 anos atrás?

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