Nem tudo foram flores. México e Canadá deram aula de acolhimento e simpatia. Já Trump e seu governo envergonharam a opinião pública internacional com atitudes explícitas de preconceito e xenofobia. Submeteram seleções africanas e asiáticas a revistas humilhantes, impuseram à seleção iraniana uma situação absurda, barraram a entrada do juiz somali Omar Artan, eleito o melhor da África em 2025, por supostas ligações com organizações terroristas. E a subserviência da FIFA foi vergonhosa.
O ex-primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy
também escorregou numa manifestação beirando a xenofobia ao comentar que a
Espanha enfrentaria “uma França em altíssimo nível, mas sem franceses”. Recebeu
uma forte contestação de dois jogadores espanhóis. O atacante Borja Iglesias
foi firme e direto: “Isso me surpreende e me entristece. O multiculturalismo da
França é uma riqueza. Somos todos diferentes, é isso que nos enriquece”. O
jovem e talentoso zagueiro espanhol Pau Cubarsí foi duro: “Se eles jogam pela
seleção francesa, são franceses, independente da cor da pele. Devemos
demonstrar tolerância com todos, pois todos merecemos respeito”. Os jogadores
espanhóis brilharam em campo e na política. O importante é que craques como
Messi, Mbpee, Rodri, Yamal, Kane, Bellingham, Vini Jr, Hakimi, Haaland, Ziko,
entre outros, nos ofereceram belos espetáculos.
Muito se tem discutido sobre os efeitos
deletérios da globalização sobre o futebol, com a padronização e homogeneização
das configurações técnicas e táticas e o sacrifício das identidades nacionais.
A alegria africana, a arte latino-americana, a ingenuidade asiática, estariam
cedendo espaço para um desenho chapado, advindo de uma perspectiva
eurocêntrica. Isto é, até certo ponto, inevitável. E não se resume ao futebol.
Nos padrões de consumo, na cultura, no comportamento, a comunidade global, conectada
em rede, estabelece padrões universais. Messi mudou-se para a Espanha aos 14
anos. O craque Olise nasceu em Londres, filho de pai nigeriano e mãe
franco-argelina, joga pela França. São dezenas de exemplos. Natural que surjam
características comuns.
O importante é não perder a identidade. O
universal só ganha sentido concreto na sua manifestação particular. Fernando
Brant nos ensinou: “Sou do mundo, sou Minas Gerais”. A Bossa Nova foi acusada
de ser influenciada pelo jazz. O tropicalismo, de americanismo. O Clube da
Esquina bebeu no folclore mineiro e nos Beatles. Produziram coisas geniais. Os
modernistas brasileiros, na década de 1920, desencadearam o movimento
antropofágico em reação ao eurocentrismo cultural, sem se fechar às influências
externas, mas “devorando” e metabolizando as referências estrangeiras para produzir
algo totalmente novo, com a cara e o jeito do Brasil.
Que o futebol brasileiro consiga reencontrar um padrão competitivo, original e criativo para a Copa de 2030.

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