sábado, 18 de julho de 2026

A globalização e a Copa, por Marcus Pestana

Amanhã, teremos a final da maior Copa do Mundo da história do futebol. Foram 48 seleções dos cinco continentes. O modelo sofreu críticas, mas é inegável, que num planeta abalado por conflitos como os da Ucrânia e do Oriente Médio, patrocinou um momento de grande congraçamento entre os povos. Foi um formato que permitiu a participação de países como Curaçao, Jordânia, Cabo Verde, Catar, Congo e Uzbequistão, que provavelmente estariam fora nas regras anteriores.

Nem tudo foram flores. México e Canadá deram aula de acolhimento e simpatia. Já Trump e seu governo envergonharam a opinião pública internacional com atitudes explícitas de preconceito e xenofobia. Submeteram seleções africanas e asiáticas a revistas humilhantes, impuseram à seleção iraniana uma situação absurda, barraram a entrada do juiz somali Omar Artan, eleito o melhor da África em 2025, por supostas ligações com organizações terroristas. E a subserviência da FIFA foi vergonhosa.

O ex-primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy também escorregou numa manifestação beirando a xenofobia ao comentar que a Espanha enfrentaria “uma França em altíssimo nível, mas sem franceses”. Recebeu uma forte contestação de dois jogadores espanhóis. O atacante Borja Iglesias foi firme e direto: “Isso me surpreende e me entristece. O multiculturalismo da França é uma riqueza. Somos todos diferentes, é isso que nos enriquece”. O jovem e talentoso zagueiro espanhol Pau Cubarsí foi duro: “Se eles jogam pela seleção francesa, são franceses, independente da cor da pele. Devemos demonstrar tolerância com todos, pois todos merecemos respeito”. Os jogadores espanhóis brilharam em campo e na política. O importante é que craques como Messi, Mbpee, Rodri, Yamal, Kane, Bellingham, Vini Jr, Hakimi, Haaland, Ziko, entre outros, nos ofereceram belos espetáculos.

Muito se tem discutido sobre os efeitos deletérios da globalização sobre o futebol, com a padronização e homogeneização das configurações técnicas e táticas e o sacrifício das identidades nacionais. A alegria africana, a arte latino-americana, a ingenuidade asiática, estariam cedendo espaço para um desenho chapado, advindo de uma perspectiva eurocêntrica. Isto é, até certo ponto, inevitável. E não se resume ao futebol. Nos padrões de consumo, na cultura, no comportamento, a comunidade global, conectada em rede, estabelece padrões universais. Messi mudou-se para a Espanha aos 14 anos. O craque Olise nasceu em Londres, filho de pai nigeriano e mãe franco-argelina, joga pela França. São dezenas de exemplos. Natural que surjam características comuns.

O importante é não perder a identidade. O universal só ganha sentido concreto na sua manifestação particular. Fernando Brant nos ensinou: “Sou do mundo, sou Minas Gerais”. A Bossa Nova foi acusada de ser influenciada pelo jazz. O tropicalismo, de americanismo. O Clube da Esquina bebeu no folclore mineiro e nos Beatles. Produziram coisas geniais. Os modernistas brasileiros, na década de 1920, desencadearam o movimento antropofágico em reação ao eurocentrismo cultural, sem se fechar às influências externas, mas “devorando” e metabolizando as referências estrangeiras para produzir algo totalmente novo, com a cara e o jeito do Brasil.

Que o futebol brasileiro consiga reencontrar um padrão competitivo, original e criativo para a Copa de 2030.                    

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