A terceira face de Janus está aí, convertido num terceiro ator que se une à conjuntura mundial, onde estados e sociedades podem regredir para uma estrutura anacrônica internacional, na qual a força prevalece sobre a razão, e tornou-se mais difícil conviver com base em regras acordadas, que permitem um contexto de acordos multilaterais que geram uma realidade com imperfeições. mas capaz de se desenvolver de forma civilizada, sem a ameaça, o medo e a liquidação do outro.
A terceira face de Janus é uma
hiper-realidade composta pelas grandes fortunas tecno-capitalistas que possuem
mais riqueza e poder do que muitos Estados, que consideram como obstáculos a
democracia e as regras do jogo, como nos ensinou há décadas Norberto Bobbio
(1909-2004), não querem procedimentos e/ou controles, que desprezam os arranjos
planetários porque está na hegemonia da tecnologia, e supõem possuir o futuro
ao ter o desenvolvimento da inteligência artificial em suas mãos. Eles
controlam infraestruturas digitais, plataformas de comunicação, dados de
bilhões e influenciam cada vez mais eventos políticos.
Embora não constituam um bloco homogêneo nem
persigam objetivos idênticos, Elon Musk, Mark Zuckerberg, Sam Altman, Jensen
Huang, Jeff Bezos acreditam que sabem como projetar o futuro e não querem ter
limites e, nisso, coincidem com políticos eleitos que compartilham essa
posição, incluindo o presidente sem convicções democráticas da democracia mais
poderosa do mundo: Donald Trump. É um poder que pode não precisar do Estado,
nem das eleições, nem do consenso, nem da responsabilidade.
Se não houver mudança de rumo na brevidade do tempo, as sociedades podem lentamente se acostumar com o poder ilimitado, manipulação, deterioração das instituições, uma normalidade sem democracia e sem política. Esse caminho não é inevitável, pois a condição de serem enfrentados no tempo e que limites sejam estabelecidos para os ditos ultras poderosos pela força da razão e da dignidade humana, impedindo a queda do etos democrático. Entre as vozes que surgiram recentemente e que ressoaram com força e esperança, há uma institucional e uma de um Presidente.
A primeira é a do Papa Leão XIV, por meio de
sua encíclica Magnifica
Humanitas, dedicada ao desafio da inteligência artificial e à
defesa da dignidade humana, contra a separação do progresso do humano, que
alerta sobre a concentração de poder em poucas empresas, que denuncia a guerra
automatizada e que conclui apontando que a tecnologia deve servir à humanidade.
O segundo foi o discurso do Presidente Obama
na cerimônia de inauguração em 18 de junho recém passado do Centro Presidencial
Barack Obama, onde ele defende a democracia, apontando que ela pode ser lenta e
imperfeita, mas que ainda é o melhor instrumento para resolver conflitos
pacificamente e construir a convivência democrática. Obama aponta que a palavra
mais poderosa na democracia é Nós. O exercício do poder sempre acarretará erros
e haverá níveis de desigualdade, mas na democracia isso será limitado,
controlado e substituível.
Não se trata de limitar a criação, nem a
inovação, nem o impulso da “destruição criativa”, mas sim de ter mecanismos e
controle democrático capazes de preservar a liberdade e a democracia em um
mundo onde o poder não reside mais exclusivamente nos Estados, mas onde o
público é indispensável para que exista um Nós.
Quais conclusões podemos tirar dessa reflexão
para o Brasil pré-campanha de hoje? Quem sabe se a principal é que, para
seguirmos enfrentando os desafios críticos, nem arrogância nem messianismo são
úteis, e é isso que mostra a nossa história.
A convicção de que há apenas uma opção é
falsa, seja dita de forma sorridente ou ameaçadora, não vivemos entre o céu e
as trevas, ninguém tem a verdade escrita na testa, ela só surgirá do diálogo
real e de acordos negociados.
Nós podemos realmente avançar se estivermos
dispostos a fortalecer a democracia e alcançar entendimentos. Para evitar
polarizações é necessário isolar os fanáticos dos extremos. Eles só geram
paralisia e vácuos de ação e poder que só podem ser preenchidos por cinismo
destrutivo e populismo irresponsável.
*Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.

Nenhum comentário:
Postar um comentário