O Estado de S. Paulo
Países que não têm uma Constituição
respeitada e em que a violência e o tráfico de drogas tenham rédea solta
dificilmente se reconstituem de forma ordeira
Donald Trump não é o primeiro nem será o
último autocrata empenhado em dominar o mundo.
Desde a Antiguidade, incontáveis construtores de impérios, geralmente agindo com extrema violência, tiveram tal ambição. De Alexandre o Grande (século 4 a. C.) a Átila (século V d.C.), o “rei dos hunos”, a quem é atribuída a frase “a erva não voltará a crescer onde minha cavalaria houver passado”, a estirpe é extensa. A diferença entre Donald Trump e os “bárbaros” da Antiguidade não reside, pois, só na diplomacia do “murro na mesa”, nem na riqueza e outros traços do presidente norteamericano. Reside, desde logo, no fato de haver encontrado um adversário feito sob medida, o Irã. A teocracia iraniana não é um caudilho individual, mas é um Estado. Teerã pleiteia, com uma mão, o controle exclusivo sobre Ormuz, uma estreita passagem de mar por onde transita 20% do petróleo de que o mundo necessita e, com a outra, uma enorme capacidade bélica, inclusive uma formidável quantidade de urânio enriquecido quase até o ponto necessário para fabricar armas nucleares. Entre Teerã e Trump, para onde vão as simpatias? Escolha difícil, não? Assim, Trump retém um nível de apoio e consegue aliados políticos (assunto tratado abaixo) que dificilmente obteria sem o confronto com os aiatolás, que, no fim das contas, lhe é benéfico.
Mas, claro, a história não termina aqui.
Trump é também aliado de unha e carne das outras duas superpotências econômicas
e militares – a Rússia de Vladimir Putin e a China de Xi Jinping. Somados,
esses três países detêm ogivas nucleares suficientes para destruir nosso
planeta centenas de vezes.
Com essa troica pairando sobre nossas
cabeças, chega a ser um milagre que um certo grau de democracia ainda seja
possível; a razão principal é que um estado de guerra permanente privaria os
três protagonistas principais de uma grande parte dos recursos naturais, notadamente
alimentos, sem os quais a situação doméstica dos três seria muito mais difícil.
A China, por exemplo, mesmo despendendo cifras estonteantes só para manter o
terror policial sobre seus cidadãos, não teria como pôr, diariamente, seis
refeições na mesa de cada família.
O pano de fundo acima exposto explica em
grande parte o vai e vem entre caudilhismos e aspirações democráticas que, bem
ou mal, continuamente se repete em toda a América Latina. Assim como há
lideranças querendo se afastar de amigos externos que só conhecem a diplomacia
do “murro na mesa”, outras há que não se sustentariam sem o ácido carinho que
as grandes potências militares lhes prodigalizam. Aqui temos um troca-troca
verdadeiramente trágico: um domínio territorial barato para os Trump da vida e
um ganho de poder e sobrevivência para autocratas menores de idade que de outra
forma pagariam caro pelo comezinho ato de disputar eleições.
Aqui mesmo, em nossa vizinhança, estamos
vendo se configurar uma situação como a que acima descrevi. Falo das recentes
eleições no Peru e na Colômbia.
O problema, em ambos os países, vai muito
além de divergências constitucionais ou ideológicas. Em ambos os casos, um
passado de espessa violência. No Peru, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador
Fujimori, disputou a Presidência pela quarta vez e venceu, após uma longa e
conturbada apuração, com 50,13% dos votos. Num país que teve oito presidentes
em dez anos, essa vantagem não soa como um bom augúrio. Ela tem feito gestos de
conciliação e convergência – a única coisa sensata que poderia fazer –, mas a
questão é se sua atitude e eventual habilidade conseguirão sobrestar o DNA
incrustado em seu passado de ódios.
Na Colômbia, o antinomia esquerda vs. direita
ressurgiu muito mais carregada, e pelas mesmas razões: guerrilha, tráfico de
drogas e uma relação odienta entre setores da elite. Inicialmente, o favorito à
sucessão do presidente Gustavo Petro era o alto dirigente comunista Iván
Cepeda. Mas uma reviravolta absolutamente inesperada pôs à frente Abelardo de
la Espriella – descrito pelo Estadão (1/6, p. A9) como representante da
“direita populista”. Ainda o Estadão, ibidem: “De 47 anos, é um advogado e
empresário milionário que entrou para a política para impedir que a Colômbia
seja ‘destruída’ pela esquerda. Ele é admirador do americano Donald Trump e do
argentino Javier Milei (...). Vestido com ternos impecáveis e, recentemente,
com colete à prova de balas (...), antes de disputar a presidência vivia na
cidade italiana de Florença. Promovia seus negócios de rum e vinho, viajava em
jatos particulares e cantava ópera”. Sua plataforma, conhecida na América
Latina, foi propor “(...) uma aliança militar com EUA e Israel, a construção de
megapresídios e medidas para incentivar o porte de armas”. E conclui: “Em meu
governo, bandido que não se submeter à Justiça será abatido”.
Os acordes variam, mas a melodia é a mesma.
Países que não têm uma Constituição respeitada e em que a violência e o tráfico
de drogas tenham rédea solta dificilmente se reconstituem de forma ordeira.
Quase ninguém acreditava, mas essa é também a história dos EUA na era Trump.
*Sócio-diretor da Augurium Consultoria, membro da Aacademia Paulista de Letras, é autor de ‘Seis gigantes que retornam’ (São Paulo, editora Edicon, 2026)

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