quinta-feira, 30 de julho de 2026

A política de Trump veio para ficar? Por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

O presidente Trump vai produzindo uma reviravolta na ordem econômica mundial. Jogou o livre comércio no lixo e decretou o intervencionismo do Estado.

Segue-se a pergunta da hora: até que ponto esse rodopio é coisa exclusiva do presidente Trump e do Partido Republicano, que poderia ser revertida com mudança de governo, a partir do dia em que o Partido Democrata recuperasse a presidência dos Estados Unidos?

Os analistas políticos já levam em conta a possibilidade de que o presidente Trump perca a maioria nas duas casas do Congresso nas eleições de novembro. A forte queda da popularidade de Trump parece fortalecer esse resultado.

Mas, atenção, a resposta à pergunta acima é complexa. Já foi lembrado em outra edição desta Coluna que, embora seja forte adversário eleitoral de Trump e dos políticos do Partido Republicano e combata a atual política contra a imigração, o Partido Democrata não apresentou até agora projeto ou o equivalente, que pudesse se contrapor ao MAGA, ao Make America Great Again.

Não está claro se, de volta ao poder, o Partido Democrata seja capaz de reverter a política de Trump. A administração Joe Biden, que sucedeu em 2021 ao primeiro mandato de Trump, manteve muitas das políticas e determinações de Trump, como se vê a seguir.

As tarifas de importação, de 25%, impostas por Trump à China, em 2018, correspondentes a US$ 50 bilhões anuais, tiveram continuidade com Biden; mais do que isso, foram aumentadas para setores estratégicos, como veículos elétricos, semicondutores, painéis para energia solar, aço e alumínio.

Biden reforçou as restrições às importações pela China de chips de última geração e de máquinas para produção de semicondutores. Com isso, pretendeu bloquear o acesso da China à tecnologia de ponta.

Biden tampouco tentou voltar ao Nafta, o acordo comercial entre Estados Unidos, Canadá e México, que Trump substituiu pelo USMCA, que aumentou as exigências de conteúdo local na produção de veículos. Biden também manteve as negociações dos Acordos de Abraão destinados a restabelecer os canais diplomáticos entre Israel e países árabes.

Por aí se vê que a política protecionista não é prerrogativa dos redutos trumpistas. É pleito mais amplo e mais arraigado nos Estados Unidos.

Trump operou uma reviravolta tributária. Transformou o Imposto de Importação (tarifa alfandegária), cuja natureza é regulatória, em taxa arrecadatória. A receita extra obtida com os tarifaços pode ficar muito aquém do pretendido por Trump, mas será agora mais difícil que, nesta secura do Tesouro dos Estados Unidos, um governo que o suceda seja capaz de abrir mão desses recursos.

Isso sugere que a atual política, tão nefasta para os interesses do resto do mundo, só será corrigida se produzir grandes estragos para a própria economia dos Estados Unidos.

 

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