O Estado de S. Paulo
O presidente Trump vai produzindo uma
reviravolta na ordem econômica mundial. Jogou o livre comércio no lixo e
decretou o intervencionismo do Estado.
Segue-se a pergunta da hora: até que ponto
esse rodopio é coisa exclusiva do presidente Trump e do Partido Republicano,
que poderia ser revertida com mudança de governo, a partir do dia em que o
Partido Democrata recuperasse a presidência dos Estados Unidos?
Os analistas políticos já levam em conta a possibilidade de que o presidente Trump perca a maioria nas duas casas do Congresso nas eleições de novembro. A forte queda da popularidade de Trump parece fortalecer esse resultado.
Mas, atenção, a resposta à pergunta acima é
complexa. Já foi lembrado em outra edição desta Coluna que, embora seja forte
adversário eleitoral de Trump e dos políticos do Partido Republicano e combata
a atual política contra a imigração, o Partido Democrata não apresentou até agora
projeto ou o equivalente, que pudesse se contrapor ao MAGA, ao Make America
Great Again.
Não está claro se, de volta ao poder, o
Partido Democrata seja capaz de reverter a política de Trump. A administração
Joe Biden, que sucedeu em 2021 ao primeiro mandato de Trump, manteve muitas das
políticas e determinações de Trump, como se vê a seguir.
As tarifas de importação, de 25%, impostas
por Trump à China, em 2018, correspondentes a US$ 50 bilhões anuais, tiveram
continuidade com Biden; mais do que isso, foram aumentadas para setores
estratégicos, como veículos elétricos, semicondutores, painéis para energia
solar, aço e alumínio.
Biden reforçou as restrições às importações
pela China de chips de última geração e de máquinas para produção de
semicondutores. Com isso, pretendeu bloquear o acesso da China à tecnologia de
ponta.
Biden tampouco tentou voltar ao Nafta, o
acordo comercial entre Estados Unidos, Canadá e México, que Trump substituiu
pelo USMCA, que aumentou as exigências de conteúdo local na produção de
veículos. Biden também manteve as negociações dos Acordos de Abraão destinados
a restabelecer os canais diplomáticos entre Israel e países árabes.
Por aí se vê que a política protecionista não
é prerrogativa dos redutos trumpistas. É pleito mais amplo e mais arraigado nos
Estados Unidos.
Trump operou uma reviravolta tributária.
Transformou o Imposto de Importação (tarifa alfandegária), cuja natureza é
regulatória, em taxa arrecadatória. A receita extra obtida com os tarifaços
pode ficar muito aquém do pretendido por Trump, mas será agora mais difícil
que, nesta secura do Tesouro dos Estados Unidos, um governo que o suceda seja
capaz de abrir mão desses recursos.
Isso sugere que a atual política, tão nefasta
para os interesses do resto do mundo, só será corrigida se produzir grandes
estragos para a própria economia dos Estados Unidos.

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