quinta-feira, 30 de julho de 2026

Nunes desmonta patrimônio cultural de São Paulo, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Demolição do Cruz da Esperança, tradicional espaço de cultura preta, é desrespeito à capital paulista

Revela uma visão de cidade: a do cercadinho, de um lado, e a do espaço público para todos, de outro

Realizada nesta quarta-feira (29), a demolição do Espaço Cruz da Esperança, no bairro da Casa Verde, na zona norte da capital paulista, é um dos últimos exemplos de desrespeito da Prefeitura de São Paulo com o patrimônio cultural da cidade. Fundado em 1958, o Espaço Cruz era um dos principais locais de cultura preta na metrópole, com rodas de samba, capoeira, futebol e práticas religiosas. Ao longo do dia, chegaram à imprensa denúncias de desrespeito ao patrimônio religioso, como demolição sem respeitar rituais de locais sagrados de terreiro.

Com o aval judicial, a demolição do Espaço Cruz se dá com a justificativa da construção do parque Campo de Marte. Opor locais culturais a parques, no entanto, é simplista; se tivesse interesse, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) poderia aliar o respeito pela história do local e por seus frequentadores à construção do parque, o que não houve. Parques sem diálogo com a comunidade local já nascem estéreis. Para Nunes, gerir o município prescinde de dialogar com quem exerce cotidianamente seu direito a viver a cidade e usufruir de espaços públicos.

São diversos exemplos, apenas neste ano de 2026. Em junho, grupos de teatro reclamaram que editais de fomento à cultura estão atrasados. Em março, o Teatro de Contêiner (região central), foi abaixo em meio à falta de clareza sobre a realocação da companhia que ocupava o espaço havia dez anos. Em fevereiro, o Teatro Popular União e Olho Vivo, no Bom Retiro, passou a ser ameaçado de desapropriação após um decreto municipal prever a construção de um boulevard. A mesma gestão municipal da cultura que evita dialogar com grupos locais luta na Justiça para transplantar à cidade uma Times Square caricata, o tal Boulevard São João.

A gestão Nunes privilegia o privado ao público, haja vista a desastrosa concessão do Vale do Anhangabaú. Está em disputa não somente um espaço cultural, parque ou teatro, mas sim uma visão de cidade; a do cercadinho, de um lado, e a do espaço público para todos, de outro.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário