terça-feira, 28 de julho de 2026

A real ou fictícia importância do vice, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Dois impeachments e a morte de Tancredo contribuíram para renovar o papel do substituto constitucional

Hoje talvez fosse o caso de retomar a discussão sobre a utilidade do posto na era da comunicação instantânea

Houve um tempo, e não faz muito, em que a figura do vice-presidente passou a ser vista como inútil para o bom andamento dos trabalhos da República. Chegou-se até a cogitar a extinção do posto. Foi antes da carta do então vice Michel Temer (MDB) à presidente Dilma Rousseff (PT) dizendo que se sentia uma peça decorativa na fila do pão palaciano. Naquela altura, a discussão já estava esvaziada, como outras que ficaram pelo caminho.

A instituição do posto de senador vitalício para ex-presidentes, por exemplo, é uma delas. Chegou a ser defendida por José Sarney e Fernando Henrique Cardoso, mas morreu na dúvida sobre se seria adequado conceder a honraria a chefes da nação alvos de processos de impeachment.

Os dois impedimentos —de Fernando Collor e Dilma Rousseff—, ocorridos em pouco mais de duas décadas, e a morte de Tancredo Neves contribuíram para renovar o interesse e a importância do papel do substituto constitucional.

Nos primórdios do novo século, a escolha da companhia na chapa presidencial teve caráter de agregação de forças —como na escolha do empresário José Alencar (PP) para a composição com Luiz Inácio da Silva (PT), em 2002 e 2006.

Já havia sido importante na aliança do social-democrata PSDB com o direitista PFL em 1994 e 1998, mas nas eleições seguintes não influiu no desempenho dos tucanos José SerraAécio Neves e Geraldo Alckmin.

As sucessivas derrotas não podem ser atribuídas às escolhas de Rita Camata (PMDB), Índio da Costa e José Jorge (PFL), Aloysio Nunes (PSDB) e Ana Amélia (PP).

Jair Bolsonaro não ganhou em 2018 por ter concorrido com o general Hamilton Mourão (Republicanos) nem perdeu em 2022 pela opção por Braga Netto, do PL. Ainda assim, a escolha do(a) vice virou uma espécie de fetiche eleitoral. Ora a presença é vista como solução, ora a ausência ou a dificuldade de escolha é tida como sinal da nuvem da derrota.

Na realidade, trata-se do cumprimento de uma regra que talvez mereça ser rediscutida à luz da era da comunicação instantânea.

 

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