Folha de S. Paulo
Dois impeachments e a morte de Tancredo
contribuíram para renovar o papel do substituto constitucional
Hoje talvez fosse o caso de retomar a
discussão sobre a utilidade do posto na era da comunicação instantânea
Houve um tempo, e não faz muito, em que a figura do vice-presidente passou a ser vista como inútil para o bom andamento dos trabalhos da República. Chegou-se até a cogitar a extinção do posto. Foi antes da carta do então vice Michel Temer (MDB) à presidente Dilma Rousseff (PT) dizendo que se sentia uma peça decorativa na fila do pão palaciano. Naquela altura, a discussão já estava esvaziada, como outras que ficaram pelo caminho.
A instituição do posto de senador vitalício
para ex-presidentes, por exemplo, é uma delas. Chegou a ser defendida por José Sarney e
Fernando Henrique Cardoso, mas morreu na dúvida sobre se seria adequado
conceder a honraria a chefes da nação alvos de processos de impeachment.
Os dois impedimentos —de Fernando
Collor e Dilma Rousseff—, ocorridos em pouco mais de duas
décadas, e a morte de Tancredo Neves contribuíram para renovar o interesse e a
importância do papel do substituto constitucional.
Nos primórdios do novo século, a escolha da
companhia na chapa presidencial teve caráter de agregação de forças —como na
escolha do empresário José Alencar (PP) para a composição com Luiz Inácio da
Silva (PT), em 2002 e 2006.
Já havia sido importante na aliança do
social-democrata PSDB com
o direitista PFL em 1994 e 1998, mas nas eleições seguintes
não influiu no desempenho dos tucanos José Serra, Aécio Neves e Geraldo
Alckmin.
As sucessivas derrotas não podem ser
atribuídas às escolhas de Rita Camata (PMDB), Índio da Costa e José Jorge
(PFL), Aloysio Nunes (PSDB) e Ana Amélia (PP).
Jair
Bolsonaro não ganhou em 2018 por ter concorrido com o
general Hamilton
Mourão (Republicanos)
nem perdeu em 2022 pela opção por Braga Netto,
do PL. Ainda assim, a escolha do(a) vice virou uma espécie de fetiche
eleitoral. Ora a presença é vista como solução, ora a ausência ou a dificuldade
de escolha é tida como sinal da nuvem da derrota.
Na realidade, trata-se do cumprimento de uma
regra que talvez mereça ser rediscutida à luz da era da comunicação
instantânea.

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