BARBOZA FILHO, Rubem. Sinfonia barroca: o Brasil que o povo inventou. Rio de Janeiro: Ateliê de Humanidades Editorial, 2025. p. 26.
A atual conjuntura política mineira exige de
todos nós, democratas, coragem para colocar o bem comum e público no coração
institucional. A eleição de 2026 torna-se fundamental para que consigamos
recompor a mineiridade política, com o centro político democrático de Minas
Gerais em sua tradição republicana, pautada em diálogos, negociações e
alianças.
Para isso, é importante entender que Minas Gerais não é apenas um estado pêndulo na eleição majoritária, onde se obtém um indicativo preciso de quem pode vencer o pleito presidencial. Minas Gerais possui uma população diversificada de 21.393.441 habitantes, formando um verdadeiro mosaico do Brasil.
A ausência de programas políticos em prol dos
interesses tanto da esquerda quanto da direita afasta Minas Gerais de sua
tradição republicana. Essa situação se intensificou desde 2015 e se manifestou
novamente em 2026, período em que observamos governantes e partidos políticos
que, apesar de pertencerem a espectros políticos opostos, representam dois
lados da mesma moeda.
Ou seja, governos pautados em narrativas e
não em nossa história, que não contribuem para a construção política voltada ao
bem comum e público. Pelo contrário, esses governos buscaram alinhar a máquina
pública aos seus interesses, o que reduziu a capacidade e a qualidade da
atuação pública e de seus agentes.
Nesse sentido, a superação desse impasse rumo
ao pleito de 2026 demanda o resgate profundo dos elementos fundantes da nossa
singularidade civilizatória e política. Minas Gerais que é. do ponto de vista
histórico, reconhecida como o principal expoente vivo desse mosaico barroco,
possui a vocação inata para a plasticidade institucional: a capacidade ímpar de
unir o diferente e o diverso, o arcaico e o moderno, por meio de uma vontade
política expressamente concebida e orientada para a coesão.
Neste contexto, existem novas lideranças
conscientes da necessidade de construir uma frente democrática da mineiridade.
Destaco entre elas: Gabriel Azevedo (MDB), Jarbas Soares Júnior (PSB) e Marília
Campos (PT). Eles defendem a formação de uma frente democrática capaz de gerir
e buscar a recuperação econômica, social e política do estado, iniciando-se por
um acordo envolvendo a federação liderada pelo PT com PCdoB e PV, e os partidos
PSB, PSDB e MDB.
Se souberem diferenciar conservadores de
reacionários, a frente pode muito bem ser ampliada com a participação do PSD,
PDT e do Republicanos, representados por seus dois candidatos de perfil outsider: Alexandre Kalil e
Cleitinho. Na experiência do segundo, o acordo poderia buscar lastro histórico
na frente democrática construída em 1966 por Carlos Lacerda e Juscelino
Kubitschek.
Para alcançar esse objetivo, os novos atores
políticos devem assumir o papel de intérpretes da nossa origem, mobilizando a
multidão — não como uma massa informe sujeita a despotismos, lógicas
irracionais ou populismos vazios, mas como uma força viva e plural que exibe
livremente suas diferenças e sua potência criativa.
Obviamente que Lula, um candidato de centro
político, possui possibilidades de fortalecer o projeto de Marília Campos. Ela
deixou um legado na prefeitura de Contagem e sabe que, neste momento, nenhum
quadro do seu partido pode vencer uma eleição para governador. Ao mesmo tempo,
sua expertise municipal
e metropolitana, aliada a uma capacidade de articulação, são ativos valiosos no
Senado Federal e além.
Mas, para isso, será necessário convencer
seus correligionários do equívoco da candidatura majoritária ao governo
estadual, que, obviamente, carregará todos os traumas da gestão de 2015-2019.
Além disso, o PT mineiro precisará não ser alienígena ao espírito da
mineiridade, alinhando-se à tradição estadual que, outrora, conferiu aos
políticos mineiros a roupagem das raposas na figuração de Maquiavel.
Marília, juntamente com Jarbas e Gabriel,
coloca o bem público e comum em primeiro lugar. Essa postura faz deles
lideranças capazes de fortalecer a esperança de uma Minas Gerais que retoma sua
mineiridade republicana.
Ao alinhar a tradição da mineiridade com a
urgência de um desenvolvimento material, essa frente enfrenta o desafio
histórico de superar a inorganicidade atual e restaurar a res publica. Trata-se, em última
instância, de rejeitar a antipolítica desprovida de conteúdos normativos e
resgatar o sentido ético da ação pública.
Somente assim, as decisões políticas voltarão
a incorporar ao mundo o bem comum e o interesse público, que atualmente lhe
falta. Essa mudança transformará a crise conjuntural em um momento decisivo
para afirmar a cidadania, a Constituição de 1988 e a modernidade, sem apagar
nossa identidade.
Pacelli Lopes é professor e gestor da Teia de
Saberes.

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