terça-feira, 14 de julho de 2026

Nova Praça Onze é pensada para turistas, não para moradores, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Projeto de revitalização privilegia a especulação imobiliária e atinge toda a cidade

Atual prefeito, Eduardo Cavaliere segue os passos de seu tutor, o xará Paes

A maquete é linda. Modelo de uma cidade-evento, de uma cidade pensada para o turismo, não para seus moradores. O prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, assinou a lei que autoriza o Projeto Praça Onze Maravilha, com mudanças numa área de 2,5 milhões de metros quadrados próxima ao centro da cidade.

Com prazo de conclusão em 2032, o plano prevê o investimento de R$ 1,75 bilhão, "100% privado", por meio de concessões, PPPs e de instrumentos urbanísticos que privilegiam a especulação imobiliária, com influência em todos os bairros da capital.

Ali fica o Sambódromo, atração carnavalesca cujas calçadas do entorno serão ampliadas após a demolição do viaduto 31 de Março. Inaugurado nos anos 1970, no regime militar, o elevado destruiu o machadiano Catumbi, transformado de residencial em bairro de passagem e —como o vizinho Rio Comprido, onde se construiu o não menos danoso viaduto Paulo de Frontin— esquecido por décadas pelo poder público.

O abandono sistemático dos dois bairros permitiu e acelerou o crescimento de favelas nos morros da região, depois invadidas e dominadas pelo tráfico de drogas. Favelas que desaparecem, como se não existissem, nas maquetes da praça 11 maravilhosa.

O que consta no texto da lei é a desapropriação de imóveis, incluindo parte do casario antigo, substituído por conjuntos habitacionais; 37 mil unidades "tamanho ovo" no prazo de 25 anos. "Imensos blocos de concreto ocupando todos os espaços", diz o samba de Paulinho da Viola. "Amor à Natureza" é de 1975, mas, em sua denúncia, continua atual.

Cavaliere segue os passos do seu xará e tutor, Eduardo Paes, candidato ao governo estadual. A exemplo do Porto Maravilha e do Reviver Centro, empresários ligados ao novo projeto terão um "bônus urbanístico" para aplicar em outros investimentos, sobretudo na mais valorizada zona sul.

Um incentivo à onda de demolição dos predinhos de Ipanema, Leblon e Lagoa, que estão dando lugar a monstrengos de 17 andares, cujos cubículos são comprados por estrangeiros.

 

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