terça-feira, 14 de julho de 2026

As barreiras contra o crescimento de Flávio, por César Felício

Valor Econômico

Oposicionista pode crescer com voto útil, mas sua rejeição tem raízes estruturais

De cada seis eleitores, cinco dizem que definem o voto para presidente antes da campanha eleitoral começar ou logo no seu início. O eleitor brasileiro gosta de se dizer imune ao noticiário imediato, a pressões de amigos e familiares e à intensidade da propaganda.

A campanha eleitoral formal no Brasil é muito curta, bem menor que a de outros países presidencialistas como Estados Unidos, Colômbia e Argentina. As convenções partidárias podem ser realizadas a partir da próxima semana, mas a campanha propriamente dita começa apenas em 16 de agosto, um dia depois do prazo final para registro das candidaturas.

De acordo com um levantamento por painel digital da Pesquisa Informa e Dados, 65% dos eleitores não aguardam este calendário para definir seu voto. Outros 21% o fazem nas primeiras semanas da campanha e apenas 13% deixam a decisão de voto para as últimas semanas ou o último dia.

Este é o tamanho potencial mínimo do voto útil, o principal fator de guinada da decisão do eleitor na reta final. Basta ver o que foi 2022. Segundo o Instituto Locomotiva, que trabalhava com um painel controlado de 4 mil eleitores, entre 29 de setembro e 5 de outubro 22% dos eleitores migraram voto em sete dias. Na semana anterior, 13% afirmaram tê-lo feito. A direção da mudança era inequívoca. Somente 51% dos eleitores de Ciro Gomes confirmaram a opção no candidato na semana final daquela eleição. No caso de Simone Tebet, 66%. No caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro o índice de confirmação era acima de 90%.

A rejeição tende a guiar o voto na reta final. Não se vota no melhor, mas para se evitar o pior. O maior desafio dos que pretendem ser “terceira via” é o de evitar a desidratação. De acordo com a pesquisa da Informa e Dados, 55% dos entrevistados percebem o grupo político oposto como “uma ameaça”.

Dado o perfil alinhado à direita de Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), em tese o principal beneficiário do voto útil seria Flávio Bolsonaro (PL), habilitado a um “sprint” de crescimento nos últimos dias.

A pesquisa da Informa e Dados, contudo, traz alguns dados preocupantes para Flávio sobre a motivação do voto. “Ameaça à democracia”, extremismo e “denúncias de corrupção” são alavancas importantes para a decisão de não votar em um candidato.

O legado paterno deixa Flávio com vulnerabilidades em relação aos dois primeiros itens. O áudio em que o presidenciável do PL pede dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro criou uma sombra em relação ao último.

O levantamento também aponta que “capacidade de liderança” é o principal diferencial para impulsionar o voto.

A liderança de Flávio ainda está para ser provada dentro da própria família. A dissidência tornada pública pela ex-primeira Michelle Bolsonaro, a imparável, deixou isso patente. A carta manuscrita deste fim de semana do ex-presidente em que mais uma vez Flávio é apontado como herdeiro do legado indica que o tema ainda é objeto de controvérsia.

Dado que o poder político exercido por Flávio é derivado da vontade do líder, e não originário das suas próprias forças, a decisão desta segunda-feira do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre Moraes de proibir visitas do filho por 90 dias, caso venha a ser cumprida, torna sua legitimação mais complexa.

Em um primeiro momento a interdição mobiliza a base em torno do senador, dado o óbvio cerceamento da palavra do ex-presidente. A decisão de Moraes reforça o conflito entre o bolsonarismo e o Judiciário e a narrativa de vitimização. Em um segundo momento, contudo, elimina-se uma instância recursal que poderia ser acionada por Flávio nas ocasiões em que sua autoridade como herdeiro é contestada.

Flávio Bolsonaro é o único evangélico entre os candidatos e tem investido boa parte de sua energia em aumentar a sua identificação com o grupo. Há limites, contudo, do alcance da religião como fator definidor de voto e talvez o senador já tenha batido neles. Para 61% dos pesquisados, o grau de influência da fé e de indicadores de lideranças religiosas na escolha é nenhuma. Para 24%, muita. Percentual muito próximo aos 27% que se definem como evangélicos, de acordo com o censo de 2022.

É a capacidade de Flávio de driblar estes limites que definirá a eleição. Lula está no seu teto, com 40% de intenção de voto no primeiro turno na pesquisa estimulada e 47% na simulação de segundo turno, de acordo com a rodada BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira.

A avaliação da economia, que eventualmente poderia lhe ajudar, só é um fator decisivo para 47% dos pesquisados, segundo a pesquisa Informa e Dados. Para outros 44%, ideologia e qualidades pessoais são fatores mais importantes. As interdições estabelecidas pela legislação eleitoral, em vigor desde a semana passada, diminuem sua desenvoltura com a caneta.

 

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