Valor Econômico
Oposicionista pode crescer com voto útil, mas
sua rejeição tem raízes estruturais
De cada seis eleitores, cinco dizem que
definem o voto para presidente antes da campanha eleitoral começar ou logo no
seu início. O eleitor brasileiro gosta de se dizer imune ao noticiário
imediato, a pressões de amigos e familiares e à intensidade da propaganda.
A campanha eleitoral formal no Brasil é muito curta, bem menor que a de outros países presidencialistas como Estados Unidos, Colômbia e Argentina. As convenções partidárias podem ser realizadas a partir da próxima semana, mas a campanha propriamente dita começa apenas em 16 de agosto, um dia depois do prazo final para registro das candidaturas.
De acordo com um levantamento por painel
digital da Pesquisa Informa e Dados, 65% dos eleitores não aguardam este
calendário para definir seu voto. Outros 21% o fazem nas primeiras semanas da
campanha e apenas 13% deixam a decisão de voto para as últimas semanas ou o
último dia.
Este é o tamanho potencial mínimo do voto
útil, o principal fator de guinada da decisão do eleitor na reta final. Basta
ver o que foi 2022. Segundo o Instituto Locomotiva, que trabalhava com um
painel controlado de 4 mil eleitores, entre 29 de setembro e 5 de outubro 22%
dos eleitores migraram voto em sete dias. Na semana anterior, 13% afirmaram
tê-lo feito. A direção da mudança era inequívoca. Somente 51% dos eleitores de
Ciro Gomes confirmaram a opção no candidato na semana final daquela eleição. No
caso de Simone Tebet, 66%. No caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e
Jair Bolsonaro o índice de confirmação era acima de 90%.
A rejeição tende a guiar o voto na reta
final. Não se vota no melhor, mas para se evitar o pior. O maior desafio dos
que pretendem ser “terceira via” é o de evitar a desidratação. De acordo com a
pesquisa da Informa e Dados, 55% dos entrevistados percebem o grupo político
oposto como “uma ameaça”.
Dado o perfil alinhado à direita de Ronaldo
Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), em tese o principal
beneficiário do voto útil seria Flávio Bolsonaro (PL), habilitado a um “sprint”
de crescimento nos últimos dias.
A pesquisa da Informa e Dados, contudo, traz
alguns dados preocupantes para Flávio sobre a motivação do voto. “Ameaça à
democracia”, extremismo e “denúncias de corrupção” são alavancas importantes
para a decisão de não votar em um candidato.
O legado paterno deixa Flávio com
vulnerabilidades em relação aos dois primeiros itens. O áudio em que o
presidenciável do PL pede dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro criou uma
sombra em relação ao último.
O levantamento também aponta que “capacidade
de liderança” é o principal diferencial para impulsionar o voto.
A liderança de Flávio ainda está para ser
provada dentro da própria família. A dissidência tornada pública pela
ex-primeira Michelle Bolsonaro, a imparável, deixou isso patente. A carta
manuscrita deste fim de semana do ex-presidente em que mais uma vez Flávio é
apontado como herdeiro do legado indica que o tema ainda é objeto de
controvérsia.
Dado que o poder político exercido por Flávio
é derivado da vontade do líder, e não originário das suas próprias forças, a
decisão desta segunda-feira do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre
Moraes de proibir visitas do filho por 90 dias, caso venha a ser cumprida,
torna sua legitimação mais complexa.
Em um primeiro momento a interdição mobiliza
a base em torno do senador, dado o óbvio cerceamento da palavra do
ex-presidente. A decisão de Moraes reforça o conflito entre o bolsonarismo e o
Judiciário e a narrativa de vitimização. Em um segundo momento, contudo,
elimina-se uma instância recursal que poderia ser acionada por Flávio nas
ocasiões em que sua autoridade como herdeiro é contestada.
Flávio Bolsonaro é o único evangélico entre
os candidatos e tem investido boa parte de sua energia em aumentar a sua
identificação com o grupo. Há limites, contudo, do alcance da religião como
fator definidor de voto e talvez o senador já tenha batido neles. Para 61% dos
pesquisados, o grau de influência da fé e de indicadores de lideranças
religiosas na escolha é nenhuma. Para 24%, muita. Percentual muito próximo aos
27% que se definem como evangélicos, de acordo com o censo de 2022.
É a capacidade de Flávio de driblar estes
limites que definirá a eleição. Lula está no seu teto, com 40% de intenção de
voto no primeiro turno na pesquisa estimulada e 47% na simulação de segundo
turno, de acordo com a rodada BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira.
A avaliação da economia, que eventualmente
poderia lhe ajudar, só é um fator decisivo para 47% dos pesquisados, segundo a
pesquisa Informa e Dados. Para outros 44%, ideologia e qualidades pessoais são
fatores mais importantes. As interdições estabelecidas pela legislação
eleitoral, em vigor desde a semana passada, diminuem sua desenvoltura com a
caneta.

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