terça-feira, 14 de julho de 2026

Lula amplia ações para aproximar-se do eleitorado evangélico, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Estratégia ganhou força com o recente contencioso entre Michelle e Flávio Bolsonaro

Num momento em que o PL ainda contabiliza os danos junto ao eleitorado religioso provocados pelo atrito entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o presidenciável da sigla, senador Flávio Bolsonaro (RJ), a pré-campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ampliou as ações para melhorar o diálogo com os evangélicos, segmento refratário ao PT. Em paralelo, emissários tentam articular uma aproximação entre Lula e o bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus.

A mais recente rodada da pesquisa Quaest, divulgada em 10 de junho - antes da publicação do vídeo de Michelle -, já havia revelado um derretimento de Flávio junto aos evangélicos, em contraste com um crescimento de Lula. A perda de apoio do senador nesse segmento foi atribuída à revelação de suas ligações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Em simulação de segundo turno, Lula apareceu com 44% das intenções de voto, seis pontos à frente do senador do PL, que tem 38%. No recorte entre evangélicos, Flávio caiu nove pontos percentuais, de 61% da preferência dos eleitores em maio para 52% em junho. No mesmo período, Lula subiu de 24% para 31%. Pesquisas internas do PT apontam para um crescimento ainda maior, após o vídeo, divulgado em 24 de junho, em que Michelle - que se tornou líder evangélica de projeção nacional - acusou Flávio de destratá-la e humilhá-la.

Lula já havia selado a reaproximação do bispo Samuel Ferreira, líder da Assembleia de Deus Ministério de Madureira, que atuou junto aos senadores pela aprovação da indicação do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF). A escolha em si de Messias já é um trunfo lulista, já que ele é evangélico, da Igreja Batista.

Agora está em andamento um esforço por emissários de ambos os lados por uma aproximação do mandatário com o líder da Igreja Universal. Eles foram aliados no passado, até o rompimento consumado pelo apoio do partido Republicanos, fundado por líderes da Universal, ao impeachment de Dilma Rousseff em 2016. A principal ponte da sigla com o governo é o ex-ministro de Portos e Aeroportos e atual líder da maioria, deputado Silvio Costa Filho (PE), mas o diálogo com a cúpula do Republicanos, representada pelo deputado Marcos Pereira (SP), é limitado. O maior quadro da legenda é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, de oposição a Lula.

Não há previsão de um encontro de Lula com o líder da Universal. O que está em curso seria um acordo de neutralidade na eleição presidencial. Pela negociação, não concluída, o Republicanos não se alinharia à chapa encabeçada por Flávio Bolsonaro, deixando de beneficiá-lo com tempo de propaganda na televisão e recursos do fundo eleitoral.

Nesse domingo (12), Marcos Pereira publicou um comunicado à imprensa negando que teria selado acordo para que o Republicanos apoie a candidatura de Flávio. Questionado pelo Valor sobre as negociações com o PT, Pereira afirmou que não há decisão sobre a posição do partido, que só será divulgada na convenção nacional, pré-agendada para 3 de agosto. Ele explicou que nesta semana, iniciará a consulta aos diretórios da sigla sobre o tema. Uma pesquisa interna mostrou um sentimento de frustração com a candidatura do PL, e a inclinação pela neutralidade.

Em paralelo, o setorial interreligioso do PT intensificou as agendas nacionais com lideranças evangélicas de vários Estados, a fim de alinhar um discurso que ajude a reduzir a resistência desse público ao campo da esquerda.

No dia 8 de julho, Lula voltou a se reunir com a vereadora de Goiânia Aava Santiago, que é presidente do PSB de Goiás e liderança da Assembleia de Deus Ministério de Madureira - a mesma do bispo Samuel Ferreira.

Liderança evangélica que se projetou nacionalmente pela influência digital e alinhamento com o campo progressista, em contraste com a maioria dos “influencers” religiosos, identificados com a direita, ela foi convidada para uma audiência com Lula já no primeiro ano do governo. Na ocasião, sugeriu ao líder petista que, no lugar de citar a inclusão dos pobres, ele deveria falar em “incluir as famílias no orçamento”.

É justamente pelo respeito à entidade familiar que Aava vê prejuízos à campanha de Flávio em razão do desentendimento público entre ele e Michelle. Na visão da dirigente do PSB, a influência do bolsonarismo junto aos evangélicos vem perdendo fôlego. Ela ponderou que o evangélico aprende que não se deve constranger a instituição da família em público. “O tempo foi restaurando a percepção de que eles usaram a gente, a nossa fé enquanto signo para se manter no poder. Esse cansaço [com o bolsonarismo] vem se tornando mais evidente”.

Aava participou do mais recente encontro com evangélicos promovido pelo PT nacional no começo de junho, que reuniu os principais quadros da esquerda nesse segmento, como a senadora Eliziane Gama (PT-MA), a deputada Benedita da Silva (PT-RJ), e a deputada Marina Silva (Rede-SP). O coordenador do setorial interreligioso do PT, Gutierres Barboza, tem argumentado que pesquisas internas mostram que o eleitor rejeita quem usa a religião no ambiente político.

 

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