Valor Econômico
Estratégia ganhou força com o recente contencioso entre Michelle e Flávio Bolsonaro
Num momento em que o PL ainda contabiliza os
danos junto ao eleitorado religioso provocados pelo atrito entre a
ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o presidenciável da sigla, senador Flávio
Bolsonaro (RJ), a pré-campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ampliou
as ações para melhorar o diálogo com os evangélicos, segmento refratário ao PT.
Em paralelo, emissários tentam articular uma aproximação entre Lula e o bispo
Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus.
A mais recente rodada da pesquisa Quaest, divulgada em 10 de junho - antes da publicação do vídeo de Michelle -, já havia revelado um derretimento de Flávio junto aos evangélicos, em contraste com um crescimento de Lula. A perda de apoio do senador nesse segmento foi atribuída à revelação de suas ligações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Em simulação de segundo turno, Lula apareceu
com 44% das intenções de voto, seis pontos à frente do senador do PL, que tem
38%. No recorte entre evangélicos, Flávio caiu nove pontos percentuais, de 61%
da preferência dos eleitores em maio para 52% em junho. No mesmo período, Lula
subiu de 24% para 31%. Pesquisas internas do PT apontam para um crescimento
ainda maior, após o vídeo, divulgado em 24 de junho, em que Michelle - que se
tornou líder evangélica de projeção nacional - acusou Flávio de destratá-la e
humilhá-la.
Lula já havia selado a reaproximação do bispo
Samuel Ferreira, líder da Assembleia de Deus Ministério de Madureira, que atuou
junto aos senadores pela aprovação da indicação do ministro da Advocacia-Geral
da União (AGU), Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF). A escolha em
si de Messias já é um trunfo lulista, já que ele é evangélico, da Igreja
Batista.
Agora está em andamento um esforço por
emissários de ambos os lados por uma aproximação do mandatário com o líder da
Igreja Universal. Eles foram aliados no passado, até o rompimento consumado
pelo apoio do partido Republicanos, fundado por líderes da Universal, ao
impeachment de Dilma Rousseff em 2016. A principal ponte da sigla com o governo
é o ex-ministro de Portos e Aeroportos e atual líder da maioria, deputado
Silvio Costa Filho (PE), mas o diálogo com a cúpula do Republicanos,
representada pelo deputado Marcos Pereira (SP), é limitado. O maior quadro da
legenda é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, de oposição a Lula.
Não há previsão de um encontro de Lula com o
líder da Universal. O que está em curso seria um acordo de neutralidade na
eleição presidencial. Pela negociação, não concluída, o Republicanos não se
alinharia à chapa encabeçada por Flávio Bolsonaro, deixando de beneficiá-lo com
tempo de propaganda na televisão e recursos do fundo eleitoral.
Nesse domingo (12), Marcos Pereira publicou
um comunicado à imprensa negando que teria selado acordo para que o
Republicanos apoie a candidatura de Flávio. Questionado pelo Valor sobre as negociações
com o PT, Pereira afirmou que não há decisão sobre a posição do partido, que só
será divulgada na convenção nacional, pré-agendada para 3 de agosto. Ele
explicou que nesta semana, iniciará a consulta aos diretórios da sigla sobre o
tema. Uma pesquisa interna mostrou um sentimento de frustração com a
candidatura do PL, e a inclinação pela neutralidade.
Em paralelo, o setorial interreligioso do PT
intensificou as agendas nacionais com lideranças evangélicas de vários Estados,
a fim de alinhar um discurso que ajude a reduzir a resistência desse público ao
campo da esquerda.
No dia 8 de julho, Lula voltou a se reunir
com a vereadora de Goiânia Aava Santiago, que é presidente do PSB de Goiás e
liderança da Assembleia de Deus Ministério de Madureira - a mesma do bispo
Samuel Ferreira.
Liderança evangélica que se projetou
nacionalmente pela influência digital e alinhamento com o campo progressista,
em contraste com a maioria dos “influencers” religiosos, identificados com a
direita, ela foi convidada para uma audiência com Lula já no primeiro ano do
governo. Na ocasião, sugeriu ao líder petista que, no lugar de citar a inclusão
dos pobres, ele deveria falar em “incluir as famílias no orçamento”.
É justamente pelo respeito à entidade
familiar que Aava vê prejuízos à campanha de Flávio em razão do desentendimento
público entre ele e Michelle. Na visão da dirigente do PSB, a influência do
bolsonarismo junto aos evangélicos vem perdendo fôlego. Ela ponderou que o
evangélico aprende que não se deve constranger a instituição da família em
público. “O tempo foi restaurando a percepção de que eles usaram a gente, a
nossa fé enquanto signo para se manter no poder. Esse cansaço [com o
bolsonarismo] vem se tornando mais evidente”.
Aava participou do mais recente encontro com
evangélicos promovido pelo PT nacional no começo de junho, que reuniu os
principais quadros da esquerda nesse segmento, como a senadora Eliziane Gama
(PT-MA), a deputada Benedita da Silva (PT-RJ), e a deputada Marina Silva
(Rede-SP). O coordenador do setorial interreligioso do PT, Gutierres Barboza,
tem argumentado que pesquisas internas mostram que o eleitor rejeita quem usa a
religião no ambiente político.

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