O Globo
Maus-tratos, lesão corporal dolosa em
ambiente doméstico e até morte violenta subiram na faixa de zero a 17 anos
O Brasil precisou de uma lei para punir o castigo físico a crianças e, mais de uma década depois, ainda convive com a chaga que atravessa séculos e gerações. Causou indignação nesta semana a agressão de um pai contra a filha, de 3 aninhos, em via pública no Paraná. Tudo registrado por uma câmera de segurança. A menininha vinha com o (ir)responsável e o irmão. Chorava. Em reprimenda, recebeu no rosto o chute que a levou ao chão. Um morador, testemunha da brutalidade, correu para repreender o criminoso; foi repelido. A mãe da pequena procurou a polícia, ao assistir à cena numa rede social. O genitor está preso agora, sob suspeita de também ter atacado o enteado, de 5 anos. No Rio Grande do Sul, um missionário americano, há nove anos no país, espancou até a morte o filho, também de 3 anos, como castigo por não ter recebido um bom-dia.
O par de crimes produziu comoção, como se
casos isolados fossem. Não são. O Brasil é um território hostil aos menores.
Uma evidência está na quantidade de leis destinadas a assegurar direitos e
proteção aos miúdos. Neste julho, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)
completa 36 anos. No início da semana, no Senado, uma audiência pública
organizada pela Comissão de Direitos Humanos constatou que o desafio que se
apresenta às autoridades, mais que elaborar, é fazer valer a legislação.
Avolumam-se os casos de violência, a despeito
de o arcabouço legal ter evoluído, tanto em prol de crianças quanto de
mulheres, caso das leis Maria da Penha, da importunação sexual e do
feminicídio. Além do ECA, hoje também em recém-sancionada versão para coibir
violações por meio digital, a Lei Menino Bernardo, de 2014, qualificou e
agravou penas para castigos físicos, tratamento cruel e degradante na educação
de meninos e meninas. Bernardo Boldrini, órfão de mãe, negligenciado pelo pai,
chegou a pedir a um juiz para mudar de família. Acabou assassinado pela
madrasta, numa trama nefasta que envolveu o próprio irmão, uma amiga e o pai do
menino. O crime apressou a aprovação do texto, originalmente batizado de Lei da
Palmada.
Até hoje, não é incomum ouvir em conversa de
bar, almoços de família e na babel das redes sociais muxoxos dos que
naturalizam tapas, surras, bofetões de caráter pedagógico. Muita gente por
estas bandas cresceu — e sobreviveu — apanhando. Assim sedimenta-se a cultura
de, como diz o ditado, “o que não mata fortalece”. E as ocorrências, em vez de
arrefecerem, recrudescem.
A edição mais recente do Anuário Brasileiro
de Segurança Pública, com estatísticas consolidadas de 2024, apurou aumento nos
registros de maus-tratos, lesão corporal dolosa em ambiente doméstico e até de
morte violenta na faixa etária de zero a 17 anos. Naquele ano, foram 2.356
assassinados, crescimento de 3,7% sobre 2023. Pouco mais de 10% das vítimas
(253) tinha até 11 anos. Entre crianças de zero a 4 anos, os pesquisadores
contaram 8.055 casos de maus-tratos, alta de 6,8%, e 2.204 de agressões físicas
(+7,9%). No universo de menores de idade, houve, respectivamente, 33.269 e
20.575 ocorrências. É como, pelo Censo 2022, molestar toda a população de Novo
Progresso (PA) e espancar Caravelas (BA) inteirinha.
A naturalização da violência física como
método de correção e disciplina, especialmente na primeira infância, explica a
escalada de casos, escreveu o pesquisador Cauê Martins, doutor em sociologia
pela USP. As situações de maus-tratos predominam nas (supostas) relações de
cuidado e disciplinas de crianças; as lesões corporais se acentuam na
adolescência. Até os 9 anos, meninos apanham mais; a partir dos 10, as meninas.
Os agressores são pessoas da família em 93% dos casos. Há concentração de
ocorrências nos dias úteis, compatível com castigos aplicados no ambiente
doméstico e associados às rotinas escolar e laboral. O perigo, tal qual nos
registros de abuso sexual e estupro de vulneráveis, não mora ao lado, mas
dentro de casa.
A violência sexual bateu recorde em 2024, com
87.545 vítimas. Praticamente oito em dez tinham menos de 14 anos, e dois terços
dos casos aconteceram em casa. Também crescem no país as violações cometidas ou
tramadas via internet — sobretudo contra meninas, com agressores igualmente
menores de idade. Os crimes vão de injúria e difamação a submissão,
constrangimento ou estupro coletivo. Na Zona Sudoeste do Rio, estudantes do
Colégio Cruzeiro, com mensalidade de R$ 3 mil a R$ 5 mil, são investigados por
catalogar numa plataforma digital por categorias sexuais 65 alunas de 14 e 15
anos. Três anos atrás, um grupo do Colégio Santo Agostinho, na Barra da Tijuca,
foi acusado de usar um programa de inteligência artificial para criar, depois
espalhar, imagens íntimas de duas dezenas de adolescentes. Infância e
adolescência brasileiras estão feridas em corpo e alma.

Nenhum comentário:
Postar um comentário