quarta-feira, 1 de julho de 2026

Cenários da caserna em caso de vitória de Lula, por Fernando Exman

Valor Econômico

Entre militares, agentes do mercado e dirigentes partidários de centro vai se consolidando a percepção de que Flávio Bolsonaro apresenta dificuldades para reagir e a chamada “terceira via” ainda não conseguiu viabilizar-se

Há uma inquietação na caserna quanto ao futuro do Ministério da Defesa em um eventual governo Lula 4.

Sim, há muito jogo pela frente até a eleição. E o “imponderável” tem mantido presença nas eleições presidenciais brasileiras, com a ocorrência de eventos de grande magnitude que mudam os rumos da campanha. Mas entre militares, agentes do mercado e dirigentes partidários de centro vai se consolidando a percepção de que o senador Flávio Bolsonaro (PL) apresenta dificuldades para reagir e a chamada “terceira via” ainda não conseguiu viabilizar-se.

Como consequência, embora possa parecer precoce, militares, investidores e políticos que pretendem estar no próximo governo de qualquer maneira passaram a produzir o que sabem fazer muito bem: cenários.

Essas discussões, aliás, também prosperam em gabinetes da Esplanada. “O ministro da Fazenda, Dario Durigan, tem plena confiança do chefe, mas pode permanecer no cargo a partir de janeiro? Ou Gabriel Galípolo sai do Banco Central para a Fazenda?”, ouve-se aqui. “O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, que é uma referência ascendente da ala desenvolvimentista do partido, daria continuidade ao projeto de onde está ou tende a receber outra missão?”, escuta-se acolá. Em relação à pasta da Defesa, porém, a informação corrente é que o ministro José Múcio Monteiro não fica no cargo sob hipótese alguma.

As turbulências podem começar antes mesmo do fim do governo, pois a expectativa é que o Superior Tribunal Militar (STM) avance no julgamento dos oficiais condenados por tentativa de golpe de Estado logo depois das eleições.

Mas existem outros temas delicados sobre a mesa. Entre os militares, também existe o receio de que um quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja mais à esquerda. Preocupa a possibilidade de retomada de iniciativas consideradas “revanchistas”, como a Comissão da Verdade.

O compromisso público feito recentemente por Lula de que colocará a defesa nacional pela primeira vez em seu programa de governo não afasta a apreensão com a falta de orçamento para a aquisição de armas e equipamentos. Sempre há uma distância entre o discurso de defesa da soberania com a prática.

Múcio mantém interlocução privilegiada com o Congresso e canal direto com o presidente da República. Conseguiu emplacar o projeto de lei complementar que prevê R$ 30 bilhões (fora das regras fiscais) para os projetos estratégicos das Forças Armadas nos próximos anos, mas mesmo assim os recursos deste ano ainda não chegaram na ponta. O Ministério da Defesa foi o mais afetado pelo bloqueio orçamentário realizado no mês passado.

Há gestões para que a situação seja revertida à medida que a equipe econômica atualize a situação das receitas e despesas no decorrer do ano, mas está claro que o ano que vem será ainda mais duro. A força política do próximo ministro dentro do governo será vital.

Outro tema sensível que inevitavelmente entrará em pauta será o chamado sistema de proteção social dos militares, diante da perspectiva de que uma nova reforma previdenciária precise ser discutida.

A atual equipe econômica tentou vincular a liberação dos recursos para as Forças Armadas a ajustes no atual modelo do sistema, mas não houve acordo. O Ministério da Defesa, por sua vez, quis antecipar-se ao debate para conseguir conduzir o processo e ter mais margem de negociação, porém também não houve concordância por parte dos militares.

A participação das Forças Armadas no combate ao crime organizado é mais um tema sensível no horizonte. Existe um consenso, entre militares, que os próximos anos serão cruciais para que se evite uma “mexicanização” das facções. Em outras palavras, a replicação, no Brasil, da forma de operação dos cartéis mexicanos: uso indiscriminado da violência, ataques às forças de segurança, infiltração estatal e domínio de territórios. E a pergunta que se faz aqui, além da ampliação da capacidade operacional de defesa das fronteiras, é se o presidente Lula irá rever sua resistência à realização de operações de garantia da lei e da ordem (GLOs). O próximo ministro da Defesa deve enfrentar o debate sobre mecanismos de proteção e responsabilização dos militares que participarem dessas operações.

Reeleito, Lula terá dois caminhos pela frente. O primeiro é nomear alguém com o perfil de Múcio, que dialogue com a parcela mais conservadora da sociedade e consiga desatar nós em diversos fronts de batalha - dentro das Forças e nos demais Poderes, por exemplo. Neste caso, permanecem no radar nomes já citados quando foi cogitada a saída de Múcio do atual governo, como o do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Márcio Elias Rosa.

A outra opção seria escolher alguém do PT. Alexandre Padilha, atualmente à frente da Saúde, também já foi citado naquelas mesmas circunstâncias. Trabalhou com Múcio na Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, antes de ele próprio assumir a articulação política do Planalto. Tem lugar reservado no primeiro escalão na próxima administração, no caso de vitória petista em outubro, pois desistiu de concorrer a deputado federal para servir a Lula.

O que se tem certeza nos bastidores é que, se decidir nomear alguém do partido para comandar o Ministério da Defesa, na prática o comandante supremo das Forças Armadas estará demonstrando disposição de encomendar as missões que alguém de centro se recusaria a executar.

 

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