quarta-feira, 1 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Em afã eleitoreiro, Lula lança álcool no incêndio fiscal

Por O Globo

Ao acelerar gastos, governo se torna responsável pelo patamar sufocante dos juros, que incentiva inadimplência

A menos de uma semana do início do período de silêncio imposto pelo calendário eleitoral — em que o presidente fica impedido de comparecer a inaugurações ou eventos, e a publicidade institucional é suspensa —, Luiz Inácio Lula da Silva pisou no acelerador das “bondades” eleitoreiras e tem gastado em propaganda como se não houvesse amanhã.

Depois da isenção do Imposto de Renda, do fim da “taxa das blusinhas”, do crédito barato para caminhoneiros, motoristas de aplicativo e táxi, da extensão do Minha Casa, Minha Vida à classe média, de benesses a setores variados — de companhias aéreas a agricultores — e do alívio a dívidas de famílias e pequenas empresas, o frenesi eleitoreiro continuou nesta semana com benefícios a quem paga dívidas em dia, crédito estudantil subsidiado e liberação do FGTS como garantia para quem toma empréstimos consignados.

O custo total das “bondades” de Lula passa de R$ 200 bilhões, mas custo é uma palavra que não aparece na campanha maciça de publicidade do governo em busca da reeleição. Nos seis meses que antecedem o silêncio obrigatório pela lei eleitoral, o governo despejou R$ 520 milhões em propaganda, o dobro do valor registrado no mesmo período durante a Presidência de Jair Bolsonaro (R$ 213,5 milhões).

Além da omissão contumaz da palavra custo, o governo tem se esquecido de informar ao eleitor que menos de 5% dos gastos eleitoreiros estão sujeitos às regras fiscais — e que, portanto, contribuirão de modo inexorável para aumentar a já colossal dívida pública. Para esconder o custo real das “bondades” eleitoreiras, a equipe econômica tem lançado mão de toda sorte de prestidigitação contábil.

Na versão mais recente do Desenrola, voltado a trabalhadores informais com dívida de até R$ 15 mil cujas prestações têm sido pagas em dia, e no crédito subsidiado a egressos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), a garantia é o Fundo Garantidor de Operações (FGO). O FGO contou recentemente com o reforço do dinheiro esquecido por correntistas nos bancos ao longo de anos. A lei exigia que tais recursos fossem para o caixa do Tesouro, onde estariam sujeitos ao teto de gastos. Em vez disso, foram para o FGO, de onde podem alimentar “bondades”. Em vez de ser usado para aliviar as dívidas do governo, o dinheiro distribuído agravará a crise fiscal.

No atual momento, lançar novas linhas de crédito subsidiado é um contrassenso. A taxa de juros continua alta. E por que o Banco Central precisa manter o crédito caro? Porque o próprio governo não para de acelerar a economia distribuindo dinheiro a rodo em busca de votos, alimentando o risco de inflação, e porque, quando vai ao mercado tomar dinheiro emprestado para pagar suas próprias dívidas, se vê obrigado a pagar caro a credores mais desconfiados do risco de calote. Com responsabilidade incontestável pelos patamares sufocantes dos juros, Lula incentiva novas ondas de inadimplência, agravando a causa do problema que finge resolver — tenta apagar o incêndio com álcool como se fosse água. Vale tudo em nome da reeleição.

Suprema Corte impõe retrocesso em decisão sobre agências reguladoras

Por O Globo

Como Lula, Trump gostaria de intervir em mercados por interesse político — e juízes preservaram apenas o Fed

Em julgamento histórico, a Suprema Corte reduziu a blindagem das agências reguladoras americanas em relação ao Executivo, ao acabar com a regra, vigente havia 91 anos, proibindo o presidente dos Estados Unidos de demitir diretores desses órgãos. A única ressalva na decisão diz respeito ao Federal Reserve (Fed), o banco central americano, mantido fora do alcance da Casa Branca.

Divididos de acordo com a linha ideológica, os juízes aceitaram, por 6 votos a 3, que Donald Trump afaste uma diretora da Comissão Federal de Comércio (FTC). Até agora, vigorava a jurisprudência fixada em 1935, a partir do processo aberto pelos herdeiros de um diretor destituído dois anos antes da mesma FTC por Franklin D. Roosevelt por motivos políticos. Desde aquela época, só era possível ao chefe do Executivo demitir diretores de uma agência na eventualidade de comprovada ineficiência, negligência ou má conduta. O entendimento passou a ser a base jurídica da blindagem das agências americanas. Agora, o presidente pode demiti-los por qualquer motivo.

São graves as implicações. “Dezenas de comissões [agências] independentes correm agora o risco de se tornar agências puramente executivas, transferindo às mãos do presidente um enorme poder sobre amplos setores da vida americana”, escreveu a ministra Sonia Sotomayor no voto vencido. A atribuição das agências deve ser essencialmente técnica: regular mercados e zelar pela qualidade dos serviços, evitando abusos do setor privado e ingerência política do Executivo em nome do interesse do consumidor. Elas também protegem os investidores ao garantir um ambiente de negócios previsível. Se estiverem sujeitas aos humores do Executivo, prenuncia-se menos segurança para os negócios e menor confiança na estabilidade das regras.

Ao menos, a Suprema Corte manteve a blindagem no Fed, onde Trump também buscava demitir uma diretora que lhe desagradava. A possibilidade de intervenção nos rumos da política monetária traria risco a todo o mundo. Governos gostam de crescimento e juros baixos e reclamam quando estes sobem nos ciclos de aperto monetário necessários para conter a inflação. Os riscos de inflação em dólar para a economia global são evidentes.

No que diz respeito à ingerência nas agências, o republicano Trump e o petista Luiz Inácio Lula da Silva têm pensamento idêntico. Ambos querem intervir de acordo com suas inclinações e seus interesses políticos. Lula adotou outra estratégia. Aqui, os diretores do BC desfrutam a estabilidade assegurada pela lei que concedeu autonomia ao BC em 2021. Mas as agências têm sido alvo frequente de bloqueio orçamentário, sofrem para repor pessoal necessário à fiscalização (da mineração à distribuição de combustíveis) e têm dificuldades de tomar decisões com a demora de Lula no preenchimento de vagas em suas diretorias. O descaso cria riscos para a população, prejudica o consumidor e abre espaço à atuação do crime organizado. Nos Estados Unidos, retrocesso semelhante acaba de ser referendado pela Suprema Corte.

Mais Desenrola e propaganda eleitoral

Por Folha de S. Paulo

Nova etapa contempla adimplentes, acentuando estímulo de Lula ao crédito que dificulta a queda dos juros

O que virá depois pode ser um ajuste fiscal duro, com desaceleração econômica, ou mais imprudência, sob risco de grave crise financeira

A mais nova etapa do programa Desenrola, voltada agora a devedores adimplentes, reafirma o padrão de estímulos ao crédito abraçado pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a poucos meses da disputa presidencial de outubro.

Lançada na segunda-feira (29), a medida permite que trabalhadores informais em dia com o pagamento de empréstimos de até R$ 15 mil por instituição financeira refinanciem a dívida com juros limitados a 1,99% ao mês.

O programa pode beneficiar entre 200 mil e 500 mil pessoas, segundo estimativas oficiais. A adesão, porém, tende a ser limitada. Apenas os estatais Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil sinalizaram participação imediata. Os bancos privados resistem em renegociar com clientes que estão em dia com os contratos.

As fases anteriores do Desenrola Brasil, voltadas aos inadimplentes, produziram alívio apenas temporário. Entre 2023 e 2024, cerca de 15 milhões de pessoas renegociaram mais de R$ 53 bilhões em dívidas, obtendo descontos expressivos.

Contudo o número de brasileiros com nome sujo voltou a crescer com força após o encerramento das principais etapas: de cerca de 72 milhões em 2024 para recordes históricos acima de 81 milhões em 2026. Ou seja, o programa não alterou a trajetória estrutural de alta da inadimplência.

A medida integra um conjunto mais amplo de iniciativas de crédito calibradas para o calendário eleitoral, entre elas o Fies Empreendedor —linha de crédito para ex-estudantes adimplentes com o Fies há pelo menos 36 meses abrirem ou expandirem negócios, com juros de 11% ao ano.

É a reedição da prática de turbinar a demanda e distribuir agrados a segmentos do eleitorado sem sensibilizar as estatísticas fiscais no curto prazo.

O problema de fundo permanece intocado, porém. Os juros sufocantes que pesam sobre famílias e empresas decorrem, fundamentalmente, da combinação de política orçamentária expansionista com crescimento acelerado do crédito público.

A ampliação da demanda além da capacidade produtiva da economia pressiona a inflação, obrigando o Banco Central a manter a Selic nas alturas —atualmente, em 14,25% ao ano.

E haja propaganda para vender todas as bondades, sem tratar de custos e riscos. O governo já empenhou R$ 520 milhões para publicidade oficial da Secretaria de Comunicação Social (Secom) apenas no primeiro semestre de 2026 —mais que o dobro dos R$ 213,5 milhões do período correspondente de 2022.

A justificativa de que é preciso distinguir as "especificidades de cada período" só indica que a gestão petista quer crer que há mais a anunciar neste ano eleitoral.

O que virá depois disso pode ser um período de ajuste fiscal duro, com desaceleração econômica quando os estímulos eleitoreiros cessarem, ou de mais imprudência, aproximando o país de uma grave crise financeira.

Presídio lotado é problema, não solução

Por Folha de S. Paulo

Relatório inédito do CNJ mostra que 66,7% das unidades prisionais têm ocupação superior à capacidade

Flagelo viola direitos humanos e prejudica políticas em segurança pública; é preciso evitar o uso abusivo da prisão provisória

Imagens de celas superlotadas em presídios fazem parte do noticiário brasileiro há décadas. Até hoje, contudo, autoridades haviam falhado na produção de diagnósticos nacionais precisos sobre esse flagelo histórico, que não apenas infringe direitos humanos como mina políticas em segurança pública.

Tal lacuna foi preenchida com o 1º Mutirão Nacional de Habitabilidade Prisional do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que realizou inspeções conduzidas por 996 magistrados em 1.738 unidades prisionais a partir de outubro de 2025. O resultado é um relatório, divulgado nesta terça (3), que mostra cenário alarmante.

Mais da metade dos presídios (66,7%) apresentam ocupação superior a 100% da capacidade, e 28% têm lotação acima de 137,5%, patamar de superlotação considerado crítico —há casos em que a taxa ultrapassa 400%.

Mais de 80% das unidades não possuem alvará para funcionamento, e 40% operam sem laudo do Corpo de Bombeiros.

A superlotação produz um efeito dominó nas condições básicas de habitabilidade. O mutirão atestou boa higiene em menos de 20% dos presídios; só um terço deles oferece acesso pleno a água para consumo, e menos de 11% mantêm controle sanitário regular da alimentação oferecida.

Além de violar a dignidade dos custodiados, a superlotação fortalece o poderio de facções como Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital, que surgiram em unidades prisionais: se o Estado é omisso na administração desses espaços, o crime organizado passa a exercer maior controle, que se expande para além dos muros das prisões.

Assim, conter taxas excessivas de ocupação é, ou deveria ser, parte crucial de qualquer política racional de segurança pública. Nesse sentido, há medidas mais efetivas e menos custosas do que a construção de penitenciárias.

O Poder Judiciário precisa evitar o recurso abusivo às prisões provisórias —quando os custodiados ainda esperam julgamento. Segundo dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais, do Ministério da Justiça, 28,3% dos 727,3 mil encarcerados em 2025 estavam nessa condição.

Outras ações incluem penas alternativas e prisão domiciliar para condenados de baixa periculosidade. A descriminalização do consumo de drogas leves —como decidiu, em 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) em relação ao porte de maconha para uso pessoal— também é medida relevante.

Espera-se, ademais, que governos se baseiem no relatório do CNJ para melhorar a gestão de suas unidades prisionais.

É assim que nascem os privilégios

Por O Estado de S. Paulo

STF restabelece adicional por antiguidade para Judiciário e MP, regalia extinta há mais de 20 anos, e cria condições para todo o funcionalismo público reivindicar a prebenda

O Supremo Tribunal Federal (STF) conseguiu a proeza de desmoralizar a si mesmo. Três meses depois de criar um teto retrátil para a remuneração do Judiciário e do Ministério Público, ampliando os pagamentos mensais de R$ 46,4 mil para até R$ 78,8 mil à revelia do que determina a Constituição, os ministros da Corte decidiram rever a decisão – não para restabelecer o limite que ignoraram, mas para flexibilizá-lo ainda mais para as carreiras jurídicas e atiçar os servidores do Poder Executivo e do Legislativo a se unirem a elas para reivindicar o renascimento do quinquênio.

A decisão em si já seria um escárnio, mas a forma como ela se deu evidencia a estratégia do Supremo para conter o desgaste. O voto, além de conjunto, foi apresentado em julgamento virtual, na sexta-feira passada, pelos ministros Flávio Dino, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, e acompanhado pelos ministros Edson Fachin, Cármen Lúcia, Luiz Fux, André Mendonça, Dias Toffoli e Nunes Marques.

Foi assim, de maneira rápida, silenciosa e unânime, que os ministros acataram parte dos argumentos apresentados por meio de embargos de declaração pelas associações das categorias afetadas e restabeleceram as poucas regalias que eles mesmos haviam vetado em março, quando deram fim a 15 penduricalhos e mantiveram 8 – veto que foi ignorado por meio da reclassificação de comarcas, cargos e funções.

A única divergência entre os ministros revela o quanto o Supremo perdeu de vez a noção da realidade. Dino, Zanin, Cármen Lúcia, Mendes, Moraes e Fachin votaram para que os valores sejam pagos dentro do “teto premium”, ou seja, que não superem o limite de R$ 78,8 mil mensais. Já Fux, Nunes Marques, Mendonça e Toffoli defenderam o pagamento integral, independentemente do valor a ser pago.

O pior aspecto da decisão do STF foi o restabelecimento de um privilégio que havia sido extinto há mais de 20 anos: o adicional por antiguidade. Em março, o STF já havia decidido pela retomada do Adicional por Tempo de Serviço (ATS), mais conhecido como quinquênio, que garante um adicional de 5% nos salários a cada cinco anos trabalhados para quem ingressou antes de 2006. Ele será pago como verba remuneratória até que seja regulamentado pelos Conselhos Nacionais de Justiça (CNJ) e do Ministério Público (CNMP).

Mas, nos últimos dias, o plenário chancelou a validade da Parcela de Valorização por Tempo de Antiguidade na Carreira (PVTAC). Trata-se de um penduricalho idêntico ao ATS, que também assegura um adicional de 5% nos salários a cada cinco anos trabalhados, mas que será classificado como verba indenizatória, ou seja, pago fora do teto duplex e sem incidência de Imposto de Renda e contribuição previdenciária. Pasme o leitor: quem entrou antes de 2006 também terá direito à prebenda e receberá, portanto, em dose dupla. Aposentados também serão alcançados.

A decisão, por óbvio, gerou cobiça entre as demais carreiras do serviço público, como as do Executivo e as do Legislativo. Foi a deixa para que elas começassem a se movimentar pela aprovação de uma emenda constitucional para restabelecer o quinquênio para todo o funcionalismo público, assim como o teto de R$ 78,8 mil mensais, tanto para servidores ativos quanto para aposentados.

Para os servidores, trata-se de “isonomia” entre os Poderes, e não é difícil que uma proposta como essa reúna apoio no Congresso em ano eleitoral. Já há uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) em tramitação no Senado que recria o quinquênio apenas para o Judiciário e o Ministério Público. A inclusão do Executivo e do Legislativo no texto pode reduzir a resistência à proposta.

Eis a consequência dos atos do STF. Por puro corporativismo e sem a menor responsabilidade com as contas públicas, o plenário sacramentou regalias para o Judiciário e o Ministério Público e criou as condições para o avanço de uma ampla antirreforma administrativa válida para todo o serviço público. É uma derrota e tanto para a sociedade brasileira.

Flávio rebaixa o Brasil ante os EUA

Por O Estado de S. Paulo

Ao oferecer a Trump a chance de palpitar na transição de governo se eleito presidente, Flávio Bolsonaro deixa claro que vê o Brasil como colônia americana, um verdadeiro acinte

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, enviou uma carta ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, na qual implorou que o governo dos EUA desista de impor novas tarifas ao Brasil e prometeu que, caso seja eleito, colocará à disposição da Casa Branca sua “equipe de transição” para discutir um “amplo acordo de comércio e investimentos”. Ou seja, na desesperada tentativa de se desvincular da punição tarifária americana ao Brasil, pela qual seu irmão Eduardo Bolsonaro tanto trabalhou, Flávio Bolsonaro ofereceu aos americanos a possibilidade de palpitar sobre a transição de governo no Brasil – um acinte que, se concretizado, equivaleria a rebaixar o País à condição de colônia americana.

Por razões que deveriam ser evidentes por si mesmas, a Lei 10.609/2002, que disciplina a transição de governo no Brasil, estabelece que o processo ocorre apenas entre o governo que deixa o poder e o que assume. Não há a menor hipótese de que o governo de um país estrangeiro participe. Além de ser um assunto exclusivamente interno, a transição envolve acesso a dados sensíveis do País, como, por exemplo, a situação das contas públicas, o estado de políticas em andamento ou planejadas e informações de inteligência.

Ademais, por pior que já seja ver um postulante à chefia de Estado flertando com uma ilegalidade explícita antes mesmo de ser eleito, há algo ainda mais perturbador: a oferta de Flávio sintetiza a opaca visão de mundo do bolsonarismo, que certamente prevalecerá sob seu eventual governo.

O Brasil tem muito a ganhar com uma relação próspera e equilibrada com os EUA. As duas maiores democracias das Américas têm laços econômicos, culturais e históricos que remontam ao reconhecimento de nossa independência. Ninguém que pensa com seriedade no melhor interesse nacional pode, em sã consciência, ser contra entendimentos com Washington. A questão de fundo, porém, não é negociar com os norte-americanos, são as condições dessa negociação.

Eis por que a carta de Flávio a Rubio diz tudo o que os eleitores precisam saber do pré-candidato. Não há, no texto, nenhuma menção às assimetrias que qualquer acordo precisa eliminar, às salvaguardas que protegeriam nossa indústria, nosso agro, nosso mercado financeiro. Em vez disso, há uma disponibilidade praticamente incondicional, retrato fiel da sabujice do clã Bolsonaro aos EUA e ao presidente Donald Trump, em particular.

Atribui-se a Juracy Magalhães, embaixador brasileiro em Washington durante o governo Castello Branco, a célebre frase “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil”. Se é verdade que o alinhamento automático com Washington fazia sentido no contexto da guerra fria – um outro mundo, orientado por outro equilíbrio de forças –, esse tipo de política externa não tem mais lugar no contexto geopolítico do século 21.

O Brasil tem interesses comerciais e geopolíticos que vão da China à União Europeia, dos países africanos aos nossos vizinhos sul-americanos. Temos uma relação mais sólida a ser construída com países asiáticos. Ademais, a Constituição fixa os princípios norteadores da política externa brasileira, e certamente entre eles não está a primazia de uma nação estrangeira sobre as demais. Ignorar tudo isso não é pragmatismo, é um retrocesso de seis décadas.

Como dissemos, a relação com os EUA importa, e muito, para o Brasil. Mas importa como relação entre dois Estados que têm interesses, não afinidades pessoais entre seus governantes. O que Flávio ofereceu a Rubio não é parceria, é submissão.

Também não se pode ignorar a dimensão familiar desse posicionamento. O clã Bolsonaro tem devoção quase religiosa a Trump. Além disso, Trump tem poder sobre o destino de todos os bolsonaristas que fugiram para os EUA a fim de evitar responder por seus crimes no Brasil. Diante disso, não é improvável que, num eventual governo Flávio Bolsonaro, interesses muitíssimo particulares se sobreponham aos interesses nacionais na relação com Washington.

O Brasil merece um chefe de Estado que entenda que subserviência disfarçada de “alinhamento estratégico” ainda é subserviência, que comércio internacional é um jogo de interesses, não de lealdades pessoais, e que a relação com os EUA, por mais relevante que seja, é apenas uma entre muitas.

A encruzilhada de Fujimori

Por O Estado de S. Paulo

Peruanos escolhem o menor risco. Já Keiko precisa escolher entre a vingança e a conciliação

Depois de quatro tentativas, Keiko Fujimori conquistou a presidência do Peru. Com uma margem de cerca de 50 mil votos sobre Roberto Sánchez, num universo de 18 milhões de votos válidos, a conservadora chega ao poder sem o tipo de mandato que permite proclamar uma nova era. O resultado encerra uma eleição, não as divisões que a tensionaram.

Muitos dos que votaram em Keiko seguem desconfiando dela. O sobrenome permanece associado ao autoritarismo, à corrupção e aos abusos do patriarca Alberto Fujimori nos anos 1990. Mas uma maioria estreita concluiu que a alternativa era um mal maior. Sánchez carregava a bandeira do leninista Pedro Castillo, o presidente deposto que defendia aventuras constituintes e despertava temores sobre o futuro das instituições e da economia. Os ataques de Castillo ao processo eleitoral que prometera respeitar só ajudaram a corroborar esse medo.

O Peru tem se provado uma estranha exceção latino-americana: uma política em colapso nervoso permanente convive com uma economia razoavelmente firme. Em dez anos, oito presidentes passaram pelo Palácio Pizarro, choques entre Executivo e Congresso viraram rotina e os partidos se fragmentaram. Mas a moeda seguiu sólida, o banco central manteve a credibilidade e a mineração continuou magnetizando investimentos.

Esse arranjo improvável, porém, está à beira do esgotamento. Crime organizado, mineração ilegal, informalidade e baixa produtividade corroem seus alicerces. O Peru continua beneficiado por sua riqueza mineral e pelas oportunidades da transição energética. Transformar essas vantagens em prosperidade duradoura exigirá algo que o país não oferece há anos: governabilidade.

O Peru passou a última década preso a uma lógica de confronto permanente, na qual presidentes, congressistas, juízes e procuradores se dedicaram mais a destruir-se uns aos outros do que a construir o país. À medida que as instituições eram dilapidadas, seus destroços eram convertidos em engrenagens para moer lideranças.

A nova presidente conhece bem essa lógica. Em momentos distintos, foi protagonista e vítima dela. A tentação de interpretar a vitória como acerto de contas seria compreensível. Também seria fatal. Os eleitores não lhe deram carta branca, apenas uma chance.

Pedaços do Peru ainda olham Lima com desconfiança. O sul andino votou em peso contra o fujimorismo. Ali se concentram carências crônicas, ressentimentos acumulados e a percepção de que os benefícios do crescimento chegam de forma desigual. Ignorar essa realidade seria contratar a próxima crise.

Por anos, Keiko tentou herdar o legado do pai. Agora, deveria estar mais preocupada em superá-lo. O Peru precisa de autoridade, mas sem autoritarismo. Precisa de segurança, mas com respeito aos limites legais. Precisa de reconciliação, não de vingança.

A nova presidente tem a chance de construir uma herança própria. Mas ela assume justo quando a separação entre economia funcional e política disfuncional está a ponto de colapsar. Se souber transformar uma vitória apertada em legitimidade duradoura, poderá apoiar-se na força da economia para reconstruir a política. Do contrário, o caos pode extrapolar os gabinetes de Lima e, pela primeira vez, arrastar consigo a economia.

Dívida pública cresce, e Planalto dá mais estímulos à economia

Por Valor Econômico

É época de eleições e a máquina eleitoral do Planalto está a todo vapor, ignorando sinais de que a trajetória do endividamento público pode trazer desastres mais à frente

Enquanto o Tesouro anunciava um déficit primário de R$ 53,2 bilhões em maio, o maior em muito tempo para o mês, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus ministros lançavam um novo Programa Desenrola e regulamentavam garantias para empréstimos consignados pelos trabalhadores com o uso do FGTS. No dia seguinte, ontem, o Banco Central informou que a conta dos juros pagos pelos governos em 12 meses terminados naquele mês atingiu R$ 1,11 trilhão, enquanto a dívida bruta segue crescendo rapidamente. É época de eleições e a máquina eleitoral do Planalto está a todo vapor, ignorando sinais de que a trajetória do endividamento público pode trazer desastres mais à frente — e para o próprio presidente Lula, que pode ser reeleito.

O déficit do Tesouro subiu muito por medidas que procuraram criar um ambiente econômico de boas notícias antes do defeso eleitoral. Os precatórios, no valor de R$ 37,2 bilhões, foram pagos em março neste ano, quando em 2025 o foram em julho. Para evitar problemas, o Planalto aceitou o pagamento de 65% das emendas obrigatórias de parlamentares até junho. As receitas totais do governo central (inclui Tesouro, Banco Central e Previdência) avançaram 4,3% em termos reais, descontada a inflação, e as receitas líquidas, 4,8%, enquanto as despesas totais deram um salto de 13% reais na comparação dos primeiros cinco meses deste ano com o mesmo período de 2025. As despesas previdenciárias aumentaram 15,3% também acima da inflação. Até mesmo os investimentos cresceram muito, 79%, de R$ 23,4 bilhões no ano passado para R$ 41,9 bilhões agora.

Com a possibilidade legal de abater R$ 64,4 bilhões da meta de resultado primário, a execução do orçamento não deve trazer muitos problemas para que o governo feche as contas com déficit zero ou um mísero superávit, o primeiro do governo Lula em seu terceiro mandato. Mas o peso das contas se faz sentir plenamente sobre as despesas com juros, que se tornam enormes não apenas porque a taxa Selic está muito alta, mas porque as dívidas só crescem sem que o governo consiga obter saldo na conta de receitas menos despesas. O BC mostrou ontem que o setor público consolidado (governos central, estaduais e municipais, além das empresas estatais) teve em 12 meses resultado negativo de R$ 149 bilhões (1,14% do PIB).

O déficit primário é uma gota d’água perto dos juros nominais pagos no mesmo período, de R$ 1,111 trilhão. Somados, o déficit primário e a carga de juros compõem um acrescimento na dívida em 12 meses de R$ 1,26 trilhão (9,62% do PIB). É uma bola de neve que fará a dívida bruta fechar o governo de Lula em cerca de 83,3% do PIB, mais de dez pontos percentuais maior do que aquela que recebeu de seu antecessor (72,8% do PIB). Ela chegou em maio a 81,1% do PIB, com avanço de quase 1 ponto percentual (0,9) em apenas um mês.

O governo acelerou o anúncio de programas na reta final permitida. A partir de sábado não será mais possível inaugurar obras ou fazer propaganda delas, item no qual o Planalto gastou R$ 520 milhões no primeiro semestre, o dobro das despesas de Jair Bolsonaro (Folha de S. Paulo, ontem). Na segunda-feira foi anunciado o Desenrola adimplentes, um programa que tentará criar um gueto de juros relativamente baixos de crédito em uma economia que paga taxas muito altas. Detalhe: é um programa para quem está pagando as contas em dia.

Ele beneficiará trabalhadores informais com taxas de 1,99% ao mês, limitado a débitos de até R$ 15 mil. Aceito no programa, o cliente poderá pleitear novo empréstimo de até metade do valor do original, pagando no máximo 90% do valor da prestação do anterior. Os bancos, ao que parece, parabenizaram a ideia e não aderiram, ao menos no formato atual. Por que cobrariam juros menores de quem está pagando com relativa pontualidade juros maiores? Em outra iniciativa, o governo estimulou o crédito consignado privado, ao regulamentar a garantia que será dada com recursos do FGTS: 35% das verbas rescisórias em caso de saída do emprego, 100% da multa do FGTS e 10% do saldo no fundo. As taxas giram em torno de 3,5% ao mês.

Por usarem crédito e garantias, vários desses programas não influem no resultado primário, mas, sim, na dívida. O pacote de bondades do primeiro semestre de medidas fiscais e parafiscais deu um impulso de 1,2% do PIB. Para Tiago Sbardelotto, da XP, acrescerão, em seus cálculos, R$ 38,2 bilhões em despesas primárias e R$ 152,3 bilhões em despesas financeiras (Valor, 26-6).

Além de empilhar débitos e impedir que o BC reduza a taxa de juros a níveis civilizados para todos, o modo continuísta do presidente Lula estimula irresponsavelmente a assunção de dívidas no momento mais inapropriado: o custo do dinheiro é o mais alto em quase 20 anos, a inadimplência das famílias bate recordes, as empresas consomem cada vez mais Ebitda para pagar compromissos financeiros. O governo está bancando parte das dívidas de muitos setores da economia, endividando-se ele próprio para isso a um custo muito alto. O próximo governo terá um enorme problema fiscal nas mãos.

O SUS na linha de frente do clima

Por Correio Braziliense

O calor extremo potencializa doenças cardiovasculares e respiratórias, mata idosos em silêncio e colapsa prontos-socorros que já operam no limite

O governo federal decidiu que vai parar de ser pego de surpresa pelo clima. Era hora. O anúncio feito ontem pelo Ministério da Saúde de um plano para investir R$ 9,8 bilhões para preparar o SUS aos impactos do El Niño e das mudanças climáticas é, antes de tudo, um reconhecimento tardio, mas necessário, de que a crise climática não é apenas uma pauta ambiental. Trata-se também de uma crise de saúde pública, e precisa ser gerida como tal.

Os números do próprio governo ajudam a dimensionar o que está em jogo. Um estudo recente da Fiocruz contabilizou 120 mil mortes ao longo dos últimos 20 anos diretamente relacionadas ao aumento da temperatura média em diversas regiões do país. Não são vítimas de furacões ou tsunamis: são brasileiros mortos pelo calor, pela seca, pelas enchentes, pela desorganização de um sistema que ainda responde a desastres climáticos no improviso. O plano anunciado, com 27 metas, 93 ações e horizonte até 2035, é a primeira tentativa sistemática de mudar essa lógica.

O desenho do programa tem mérito. A criação de oito Centros Integrados de Saúde e Clima distribuídos pelo país, o Painel Nacional de Excesso de Calor com alerta precoce de até cinco dias e a expansão da Força Nacional do SUS para resposta em até 12 horas são medidas concretas, não promessas genéricas de descarbonização para a próxima década. A ênfase na coordenação entre União, estados, municípios e Defesa Civil também é acertada: desastres climáticos não respeitam fronteiras administrativas, e a fragmentação da resposta tem sido historicamente um dos maiores obstáculos ao socorro eficaz.

Os riscos que o SUS enfrentará nos próximos meses são conhecidos e mapeáveis. O calor extremo potencializa doenças cardiovasculares e respiratórias, mata idosos em silêncio e colapsa prontos-socorros que operam no limite. As chuvas intensas no Sul trazem leptospirose, hepatite A e contaminação de mananciais. A seca no Norte e Nordeste favorece a proliferação do Aedes aegypti em reservatórios domésticos, ampliando o risco de dengue, zika e chikungunya em regiões com cobertura sanitária precária. Não se trata de cenários hipotéticos — são os mesmos vetores que já se manifestaram nos últimos ciclos climáticos severos e que tendem a se intensificar com o El Niño. A diferença desta vez é que o governo chegou antes. O desafio é garantir que o plano chegue junto.

Dito isso, é preciso cautela sobre o contexto em que esse plano nasce. O Brasil entra no segundo semestre sob a ameaça de um super El Niño, com o Sul exposto a chuvas devastadoras e o Norte e Nordeste caminhando para secas severas. A memória das enchentes que submergiram Porto Alegre em 2024 ainda é recente. Planejar com horizonte até 2035 é prudente, mas a urgência do presente não permite que as metas de longo prazo sirvam de álibi para a lentidão no curto prazo. O primeiro Centro Integrado de Saúde e Clima, que será inaugurado hoje na Bahia, precisa ser o começo de uma execução veloz, não o símbolo fotogênico de um plano que engaveta.

No mundo ideal, esse plano não seria necessário. A melhor política de saúde climática seria uma política climática de verdade, com redução efetiva de emissões, transição energética, proteção de biomas. Mas o mundo ideal ficou para trás, à medida que a humanidade já ultrapassou o chamado ponto de não retorno das mudanças climáticas, e o Brasil precisa agir no mundo que tem. Nesse cenário, preparar o SUS para o que já está chegando é um bom começo. O teste será a execução.

Apreensão de maconha vira problema para o governo

Por O Povo (CE)

Somente com um entendimento mínimo entre as mais diversas forças políticas será possível efetivamente construir uma proposta que possa levar mais segurança à população

Na sexta-feira da semana passada, a Polícia Civil do Ceará anunciou, por meio de sua rede social, uma investigação que resultou na descoberta da "maior plantação de maconha já identificada" no Estado, em uma propriedade rural, no município de Acopiara.

Segundo a polícia, a plantação ocupava uma área de três hectares, com cerca de 290 mil pés de maconha. O vídeo divulgado pelas forças de segurança mostra tratores arrancando as plantas e policiais ateando fogo na droga.

Em sua página na internet, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) anotou que o trabalho resultou na "destruição" da droga, "evidenciando a capacidade investigativa e operacional da instituição no enfrentamento ao tráfico e às organizações criminosas que atuam no Estado". Os policiais não encontraram ninguém no local e, até agora, ninguém foi preso.

Mas o que poderia ser um ponto positivo ao mostrar a atuação da polícia no combate à criminalidade tornou-se um problema para o governador Elmano de Freitas (PT).

No sábado, o deputado federal oposicionista André Fernandes (PL) foi ao local e verificou que não havia policiais fazendo a segurança do terreno, sendo que apenas uma parte da plantação havia sido destruída. Ele também encontrou no sítio, segundo mostrou em vídeo postado em sua rede social, um telefone celular, cadernos com anotações e papéis avulsos, supostamente abandonados pelos criminosos.

Na mesma postagem, Fernandes fez acusações graves ao governo do Estado: "Que ligação perigosa é essa que alguém do alto escalão recebeu para fingir que nada disso aconteceu?", perguntou. Sem dúvida nenhuma, aconteceram erros crassos na operação, como não se concluir a destruição das drogas e deixar o local sem vigilância.

No entanto, a declaração de Fernandes de que alguém do "alto escalão" teria dado ordens para interromper a investigação, carece de provas, podendo-se mesmo atribuí-la à feroz disputa eleitoral em curso. Além disso, se o deputado tem conhecimento de que alguém cometeu um crime, sendo de alto ou de baixo escalão, ele tem a obrigação de revelar de quem se trata. Lançar acusações sem se sentir obrigado a comprová-las atrapalha ao invés de ajudar o enfrentamento ao crime.

Por outra vista, cabe agora uma investigação rigorosa, tanto para se chegar aos criminosos responsáveis pelo cultivo da droga, como também para verificar por que a operação em Acopiara ficou inconclusa — e se foi por imperícia ou dolo, grave em ambos os casos.

É ainda de se observar que a segurança pública terá papel preponderante nas eleições de outubro. Mas, infelizmente, ao que tudo indica, em vez de propostas haverá muito barulho e pouca luz. Esse é um tema que deveria levar ao consenso de que somente com entendimento mínimo entre as mais diversas forças políticas será possível efetivamente construir uma proposta que possa levar mais segurança à população.

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