Folha de S. Paulo
Livro traz dicas para interpretar melhor as
estatísticas com que somos bombardeados
Autor é didático e critica pontos fracos da
ciência, como baixa reprodutibilidade de experimentos
Tim Harford consegue transformar conceitos difíceis
da economia em best-sellers. Seu livro "O Economista
Clandestino" vendeu mais de 1 milhão de exemplares no mundo todo, o que
não acontece todo dia com obras de divulgação científica.
"How to Make the World Add Up" vai na mesma linha, mas tentando tornar a estatística, mais especificamente as toneladas de dados a que somos submetidos diariamente ao ler um jornal, por exemplo, em algo mais inteligível.
O que eu achei particularmente interessante
no livro é que Harford opera mais com a psicologia do que com a matemática propriamente
dita. A maior parte das dez regras que ele elabora para nos ajudar a navegar
nesse mundo tem mais a ver com o modo pelo qual lemos os dados do que com a
forma pela qual eles são produzidos. É um jeito, eu diria, bem bayesiano de
lidar com a questão.
Para tornar a discussão mais concreta, a
primeira regra de Harford é que devemos avaliar como a estatística anunciada nos afeta emocionalmente. Humanos
temos o péssimo hábito de nos apegar a tudo o que reforce aquilo em que já
acreditamos e rejeitar, às vezes visceralmente, o que vai contra nossas
convicções. É uma receita infalível para não entender o mundo. Apenas nos
darmos conta de que esse é um fenômeno que nos afeta diuturnamente já tende a
nos tornar melhores intérpretes.
Outros conselhos valiosos de Harford incluem
sempre olhar para o contexto em que os dados são apresentados, problematizar as
fontes dos números, fazer perguntas sobre a metodologia e desconfiar de
gráficos muito bonitinhos. Eles frequentemente embutem armadilhas. Tudo é
explicado muito didaticamente e ilustrado por ótimos casos reais.
Também achei legal em "How..." que
o autor não adota a fórmula fácil de proclamar-se um arauto da ciência e
criticar a plebe ignara que não se sujeita ao método científico. Harford leva o
espírito crítico a sério e não hesita em abordar problemas sérios das ciências
como a crise de reprodutibilidade e os vieses de publicação dos periódicos.
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