domingo, 5 de julho de 2026

O populismo virou endemia, por Vinicius Mota

Folha de S. Paulo

Direita demagógica sofreu desgaste e trocou virulência por persistência

Excesso de vetos a poderes eleitos e desrespeito à ética republicana nutrem aventureiros

O Sars-Cov 2 já não é mais aquele. Esse coronavírus teve caminho livre para se espalhar na velocidade dos contatos pessoais quando adquiriu a capacidade de ser transmitido entre humanos, no final de 2019. Fez estragos e cadáveres aos montes por uns dois anos até acomodar-se às nossas defesas imunológicas, elas mesmas fortalecidas por anticorpos ativados pelas vacinas e pelas ondas sucessivas de infecção.

De terrível novidade converteu-se num conviva habitual e incômodo. De epidemia virou endemia. Ficará por aí pelos próximos séculos, quiçá milênios, como parte da história natural.

Dá para arriscar que algo similar se passou com o novo populismo global, guardadas as especificidades da política. Há dez anos os vapores de rebeldia que se acumulavam em várias nações democráticas rebentaram no Reino Unido, na façanha do Brexit. A seguir um improvável canastrão atropelou a oligarquia do Partido Republicano e ganhou a indicação e a eleição para presidente dos Estados Unidos.

O terremoto chacoalhou o Brasil naquele mesmo 2016, empurrando um cordão de candidatos outsiders e excêntricos para as prefeituras do país, e voltou a se manifestar em 2018, nas eleições nacionais. Efeitos tardios ocorreram na Argentina e na Itália. Em quase todas as democracias as forças populistas avançaram, a despeito de terem conquistado a chefia do governo, e transformaram o panorama político.

Uma década depois, os outrora bravos rompedores de portas não são mais os mesmos. Os que passaram pelo governo carregam a ferrugem do desgaste. Deixaram evidentes os equívocos e as contradições de suas teorias radicais sobre como o mundo deveria operar. Chafurdaram na corrupção que denunciavam, negociaram com quem associavam à podridão e se curvaram ao império da lei, que desprezavam.

Ninguém logrou derrubar a democracia. Quem ousou, tramou e promoveu badernas foi sancionado. Quem perdeu a eleição foi para casa e tentou de novo no ciclo seguinte. A regra valeu até para o herói precoce do movimento, Viktor Orbán. O projeto de Putin húngaro, de quem se temia uma autocracia vitalícia sem nenhuma ameaça de opositores, burocratas ou eleitores, foi humilhado nas urnas em abril e defenestrado.

Como o Sars-Cov 2, o populismo de direita da primeira metade do século 21 trocou virulência por persistência. Não destruiu os alicerces do Estado de Direito, tampouco desapareceu. Mantém-se competitivo pelo apoio plebiscitário, a ponto de ter transformado o embate típico das eleições numa peleja entre representantes da ordem, de um lado, e líderes providenciais, do outro.

A economia e outros campos de atividade que dependem de continuidade, amparo técnico e estabilidade para vicejar tornaram-se a grande vulnerabilidade dos políticos populistas. O empobrecimento relativo do Reino Unido é um fato, e o arrependimento popular pela aventura do Brexit, outro. A confusão com as tarifas do comércio vai reduzir o crescimento global. A nova "corrida espacial" pelo monopólio nacionalista das inteligências artificiais não terá resultado diferente. Está patente que eleger populista atiça a inflação.

Mas há problemas e disfuncionalidades no mundo da ordem liberal que compõem o substrato para a retórica salvacionista. Do princípio fundamental de que o poder de Estado deve ser sempre limitado, pois uma ambição colocada contra a outra evita o despotismo, não deveria decorrer a multiplicação desordenada de agentes com prerrogativa de veto. Quando um governante ou a maioria legislativa veem-se sistematicamente bloqueados por burocracias não eleitas, a soberania popular entra em xeque.

A tendência ao encastelamento das autoridades e o seu distanciamento da vida e dos valores do cidadão mediano são outro celeiro em que se nutrem os demagogos. Os rapapés e regabofes, as regalias, a autoproteção, as decisões em causa própria, os modos de falar, os narizes empinados, os motoristas e jatinhos particulares, tudo isso compõe um prato cheio para incitar o ódio em quem rala para ganhar o dia. Perdeu-se a noção de que a República também é uma ética da igualdade, do recato e da submissão à fonte do poder.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário