Os EUA completam 250 anos de independência. Nada mais significativo e próprio
celebrarem a efeméride sob a regência de Donald J. Trump, o presidente que, em
pleno século XXI, representa, fortalece e atualiza a essência arrogante,
colonialista e imperialista de sua história, como povo, nação e país. Essa
essência ilumina a pretensão ideológica do destino manifesto, definido por
Henry Kissinger como “a obrigação dos EUA de disseminar seus valores por todo o
mundo” (Sobre a China, 2011).
As bases objetivas do imperialismo estão expressas na Doutrina Monroe (1823),
consolidada pelo que ficou conhecido como “Corolário Roosevelt”. Refere-se à
era da política do big stick do presidente Theodore Roosevelt
(1901-1909), resumível na frase: “Fale com suavidade e carregue um grande
porrete”, revista por Trump com a omissão da primeira parte.
O atual governo — intervencionista na América Latina, na Palestina, e no Irã,
honrando o legado de seus antecessores — não pode ser visto como “um ponto fora
da curva”.
A pretexto de fazer face às ameaças do colonialismo europeu, os EUA assumiam
(entre os fins do século XIX e os primeiros anos do século XX) o papel
autoatribuído de guardas pretorianos das nações americanas, virtualmente
transformadas em protetorados. Na verdade, ao proclamar a consigna “América
para os americanos”, a Doutrina Monroe estabelecia o vasto espaço de domínio,
influência e controle exclusivo — militar, econômico e político — dos EUA, que,
a partir do México, chegaria à Patagônia, agindo o país como senhor de baraço e
cutelo sobre os três continentes.
O objetivo das inumeráveis intervenções, sob variados meios e justificativas,
foi e tem sido proteger interesses econômicos, políticos e estratégicos da
grande potência. “A América para os americanos”, uma pura retórica para sugerir
resistência ao intervencionismo europeu, terminou consolidando-se como “A
América para os EUA”.
Já em 1848, após uma guerra de dois anos, haviam incorporado 55% do território
mexicano. Era o ponto de partida. Como se sabe, iniciava-se ali uma história de
ocupações, intervenções, invasões, etc., que caminham das ações militares
diretas e ocupações prolongadas às mais diversas formas de guerra híbrida
(modalidade que combina meios militares e não militares), como apoio a golpes
de Estado, operações secretas conduzidas pela CIA, financiamento a grupos
armados insurgentes (como os “contras” na Nicarágua), sanções econômicas,
bloqueios comerciais, ataques cibernéticos, campanhas de desinformação e
pressões diplomáticas, tumultuando a vida política e econômica dos povos e dos
países da América Central, do Caribe e da América do Sul.
Exemplos de guerra híbrida são o bloqueio econômico, político e comercial
exercido sobre Cuba desde o fracasso da invasão da Baía dos Porcos (abril de
1961) e, presentemente, a “guerra tarifária” que a Casa Branca aplica contra um
sem-número de países, o Brasil inclusive, entre nós sob os aplausos da
extrema-direita. No que nos diz respeito, a guerra — que até o momento se dá
sem tiros -- compreende ainda sanções contra ministros do STF, ataques ao PIX e
a designação das grandes quadrilhas de criminosos comuns como grupos
terroristas, o que no Niger, na Nigéria, no Iraque, na Somália e na região do
Sahel, como na Venezuela, tem ensejado intervenções militares pelo
velho império.
A violência stricto sensu jamais é descartada. No curso da já longa
história de preeminência sobre os povos da América Latina, contam-se mais de 70
intervenções, as mais variadas ações clandestinas (como sabotagens e golpes de
Estado), pressões políticas ou econômicas, compreendendo mesmo o bloqueio e a
expropriação de divisas e bens de outros países depositados em bancos dos EUA.
Esse cardápio de violência e desrespeito aos mais comezinhos princípios da
convivência entre países independentes chega aos nossos dias com a recente
invasão da Venezuela, o sequestro de seu presidente e primeira-dama, hoje
recolhido a uma prisão em Nova York, onde responde a processo criminal segundo
as leis dos EUA, numa evidente afronta ao direito internacional e à Carta das
Nações Unidas.
Ademais, ao final de um bloqueio naval, apropriam-se do petróleo venezuelano e
alardeiam ameaças de sequestro e prisão do ex-presidente cubano Raúl Castro.
Em novembro de 1903, os EUA, após o fracasso das negociações com a Colômbia
visando à construção de um canal interoceânico, passaram a intervir na política
colombiana, apoiando e estimulando o movimento separatista da Povíncia do
Panamá. Prestaram respaldo estratégico e diplomático aos insurgentes,
garantiram o reconhecimento imediato do novo Estado e enviaram navios de guerra
para impedir o desembarque de tropas colombianas destinadas a sufocar a revolta
de 3 de novembro de 1903.
Dias depois, por razões óbvias, o recém-independente Panamá assinou o Tratado
Hay-Bunau-Varilla, que concedia aos EUA, em caráter perpétuo, o direito de
construir, administrar, defender e exercer poderes equivalentes aos de um
soberano sobre a Zona do Canal. Concluído em 1914, o Canal do Panamá tornou-se
um dos principais ativos geoestratégicos do século XX, permitindo a Washington
projetar poder naval entre os oceanos Atlântico e Pacífico e consolidar sua
influência no hemisfério.
Nos anos da Guerra Fria (1947-1991), essa fúria intervencionista voltou-se
contra governos democráticos tidos pelo Departamento de Estado como simpáticos
à URSS. Agora, esse intervencionismo seria rotulado como “Doutrina Truman”,
homenagem ao presidente que detonou duas bombas atômicas sobre populações civis
do Japão (Hiroshima e Nagasáqui) ao
final de uma guerra já definida ao seu favor.
O rol de golpes de Estado promovidos é extenso e registra, como os mais
significativos, as deposições de Salvador Allende no Chile (1973), a que se
seguiu a ditadura comandada pelo general Pinochet (sanguinária e corrupta), e o
golpe de 1º de abril de 1964, que depôs o presidente João Goulart e abriu as
sendas para uma ditadura militar de longos e custosos 21 anos.
Pete Hegseth — secretário da Defesa (que a atual administração rebatizou como
Secretaria de Guerra) — foi explícito sobre o projeto da Casa Branca para nosso
continente. Em abril deste ano, em entrevista à Fox News, referindo-se à
América Latina, declarou sem rebuços: “Estamos recuperando nosso quintal”.
Para o império, a América Latina está destinada ao papel de reserva
estratégica de sua geopolítica, vis-à-vis o crescimento
político, econômico, tecnológico e militar da China (a “fábrica do mundo”),
liderando a Eurásia, o centro geopolítico mais importante do planeta, reunindo
70% da população mundial, recursos naturais (a maior parte das reservas de
petróleo, gás e minerais estratégicos), rotas estratégicas,
grandes economias industriais e importantes centros tecnológicos,
financeiros e militares, caso da Rússia, com seu estoque estimado
em 5.459 ogivas nucleares, o maior do planeta.
Zbigniew Brzezinski (Conselheiro de Segurança Nacional do presidente Jimmy
Carter entre 1977 e 1981), na abertura de O grande tabuleiro de xadrez (1997),
apresentava a Eurásia como o continente “geopoliticamente
axial”, para, em seguida, como que falando para os senhores da guerra, prevenir
(ou incitar) seus pares: “Quem lograr exercer predominância sobre a Eurásia
terá grande influência sobre a política e a economia mundiais”.
A Eurásia se apresenta hoje sob a liderança da China, que, investe na “Nova
Rota da Seda”, projeto de integração planetária compreendendo, na travessia de
meio mundo, a construção de ferrovias, portos, rodovias, gasodutos, oleodutos,
cabos digitais e corredores logísticos. Ou seja, a “nova Rota” é uma rede
geoestratégica e um instrumento de projeção de poder que dispensa milhares de
bases militares, navios de guerra e submarinos espalhados por todo o mundo,
preço do permanente estado de guerra dos EUA.
Ademais, os EUA perdem espaço no Oriente Médio, com sua derrota na guerra
contra o Irã: ao fracasso militar soma-se o fracasso político. O regime dos
aiatolás, que antes da agressão parecia em crise, ressurge com massivo apoio
popular. E permanecem tensas as relações de Washington com a OTAN.
Daí o Departamento de Defesa proclamar a retomada de seu “quintal”.
Este papel que nos é destinado, de reserva estratégica, projeta evidentes
ameaças à nossa soberania e a um desenvolvimento autônomo, além de pôr em xeque
a presença brasileira no tabuleiro internacional.
O atual governo dos EUA já vem claramente intervindo na política de nossos
países (como ocorreu recentemente no Peru e na Colômbia), e não esconde seu
apoio à extrema-direita brasileira, que, insuperável no servilismo, lhe oferta
obediência bovina. A “retomada do quintal” traz em seu bojo o controle
ideológico-político dos governos da região. Na América do Sul, os dois únicos
países fora dessa órbita são, hoje, o Brasil e o Uruguai.
Muitas águas ainda rolarão antes de outubro. Quem tiver barbas, que as ponha de
molho.
* **
Quinta coluna I – Após defender, junto à Casa Branca, o tarifaço de 25%
sobre as exportações brasileiras para os EUA, o principal candidato da direita
à Presidência da República regressa a Washington para pedir que o novo tarifaço,
com o qual Trump nos ameaça, tenha seu anúncio adiado para após as eleições
brasileiras, assim não prejudicando suas pretensões políticas.
Quinta coluna II – Entre outros compromissos assumidos contra os
interesses nacionais, o principal candidato da direita anuncia que, se eleito,
retirará o Brasil do Mercosul. Trata-se de nada menos que um dos maiores ativos
econômicos e estratégicos de nossa política externa: um mercado de quase 300
milhões de consumidores, liderado pelo Brasil, e plataforma para acordos
comerciais de grande alcance. O bloco já concluiu acordo com a União Europeia e
firmou tratado com a Associação Europeia de Livre Comércio, além de
presentemente abrir negociações com a Coreia do Sul.
Romper com o Mercosul seria trocar um projeto de integração e fortalecimento da
soberania nacional pelo isolamento e subordinação do Brasil nas negociações
internacionais. É a opção pelo atraso.
Cuba resiste I – Voltando de mais uma viagem à ilha caribenha, Frei Betto
relata (Cuba, nuevas medidas de la Revolución) se reporta ao ilegal
e desumano bloqueio econômico e energético imposto pelos EUA ao povo cubano,
enfrentando escassez de combustíveis, alimentos, medicamentos
e divisas, numa das mais graves crises desde o “Período Especial”.
Para preservar o projeto socialista, relata Frei Beto, o governo de Miguel
Díaz-Canel aprovou amplo pacote de 176 reformas que flexibiliza o modelo
econômico, com medidas como abertura ao investimento privado e estrangeiro,
descentralização da economia, autorização para o funcionamento de bancos
privados e transformação de empresas estatais em sociedades por ações. Embora
essas mudanças introduzam instrumentos típicos do capitalismo e despertem
apreensão quanto ao risco de aumento das desigualdades, o governo sustenta que
se trata de um ajuste pragmático destinado a fortalecer — e não abandonar — o
socialismo, à semelhança das experiências da China e do Vietnã.
Cuba resiste II – Um fator é óbvio; segundo Frei Beto: “Apesar das
múltiplas dificuldades atuais, a resiliência do povo é incontestável. É como se
os cubanos, que enfrentaram tantas ameaças e crises do imperialismo ao longo de
67 anos de Revolução, agora estivessem seguros de que não serão derrotados.
Como me disse um amigo em Havana: não temos eletricidade, mas nos sobra
energia.”
A Faria Lima e o crime organizado – O encontro do Banco Master com o Banco
Digimais (acusado de gestão fraudulenta, manipulação de balanços e
demonstrações financeiras maquiadas para ocultar sua real situação patrimonial)
põe na mesma trilha Daniel Vorcaro e o autointitulado “bispo” Edir Macedo, CEO
de uma empresa evangélica e de uma rede de rádio e televisão (é o que está à
mostra, talvez apenas a ponta de um iceberg). A descoberta das fraudes
foi, como no caso do Master, fruto de investigações da Polícia Federal. E expõe
a indisposição do Banco Central para fiscalizar o sistema financeiro. Esse
desvio de função não será superado enquanto o BC for uma representação da Faria
Lima.
*Com a colaboração de Pedro Amaral.

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