O Globo
Dom Pedro visitava Pasteur, agora visitam-se presos
Em 2019, Alberto Fernández liderava as
pesquisas eleitorais para a Presidência da Argentina e decidiu visitar Lula,
preso na Polícia Federal de Curitiba. Estava inaugurada a diplomacia
carcerária. De lá para cá, em 2025, com Javier Milei no governo, Lula visitou a
ex-presidente argentina Cristina Kirchner, presa em seu apartamento de Buenos
Aires. Posou para uma fotografia segurando um cartaz pedindo a liberdade para a
aliada.
Dom Pedro II visitava escritores e
cientistas. Hoje, chefes de Estado brasileiros e argentinos criam factoides
visitando presos. Javier Milei queria lustrar a sua passagem pelo Brasil
visitando Jair Bolsonaro. O ministro Alexandre de Moraes proibiu o encontro, e
ele o chamou de “lixo”. O troco veio do ministro da Fazenda, Dario Durigan:
— Palhaço.
É a praga da diplomacia carcerária. Visitando
o preso, alfineta-se o governo e baixa-se o nível da relação entre os dois
países. Quem prende é o Judiciário e quem sofre a malcriação é o Executivo.
Visitar político preso é uma interferência
deliberada e indevida na política interna do outro país, seja Fernández
visitando Lula, seja Lula visitando Cristina Kirchner. A diplomacia carcerária
envenena as relações entre os países. Era isso que Milei queria e, de certa
maneira, conseguiu.
Milei não gosta de Lula, assim como os
generais da ditadura brasileira não gostavam do caudilho argentino Juan Perón
(1895-1974). Chegaram a impedir que regressasse à Argentina em 1964.
O Itamaraty administra com grande competência
as relações com a Argentina. Nos anos 1970, atravessou a crise de Itaipu sem
maiores sobressaltos. Os argentinos não queriam a hidrelétrica, e o general
Alejandro Lanusse fez uma suave malcriação durante sua visita ao Brasil em
1972. Dez anos depois, quando o general Leopoldo Galtieri invadiu as Malvinas,
o chanceler Saraiva Guerreiro tirou as meias sem tirar os sapatos e não ofendeu
os argentinos.
As ditaduras dos dois países lubrificavam
suas simpatias sequestrando cidadãos e entregando-os às tigradas que mandavam
dos dois lados da fronteira.
Com um século de dificuldades, presidentes
argentinos têm um fraco por bodes expiatórios, seja Itaipu, sejam as Malvinas.
Milei escolheu Lula. Seu insulto a Moraes foi o último recurso de quem queria
criar um caso. Anunciou que vinha para a convenção de Flávio Bolsonaro, e
ninguém lhe deu atenção. A visita ao ex-presidente preso (troco à visita de
Lula a Cristina Kirchner) seria a última oportunidade para conseguir holofotes.
Negada. Restava-lhe insultar Moraes numa catilinária contra Lula.
Quando o governo argentino estranhou o
brasileiro, seja com Itaipu, seja com tarifas, estavam em questão fatos
concretos. Alavancado pela diplomacia carcerária, Milei conseguiu fabricar uma
crise a partir de coisa nenhuma. Chegou a associar a ação de Brasília à derrota
da seleção argentina para a espanhola.
Este é o sonho de todos os governantes: atribuir a um governo uma derrota dentro das quatro linhas de um campo de futebol. Para ficar no estilo de Milei, Carlo Ancelotti poderia culpar a Argentina pela derrota diante da Noruega.

Pois é,rs.
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