quarta-feira, 29 de julho de 2026

Diplomacia carcerária é uma praga, por Elio Gaspari

O Globo

Dom Pedro visitava Pasteur, agora visitam-se presos

Em 2019, Alberto Fernández liderava as pesquisas eleitorais para a Presidência da Argentina e decidiu visitar Lula, preso na Polícia Federal de Curitiba. Estava inaugurada a diplomacia carcerária. De lá para cá, em 2025, com Javier Milei no governo, Lula visitou a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, presa em seu apartamento de Buenos Aires. Posou para uma fotografia segurando um cartaz pedindo a liberdade para a aliada.

Dom Pedro II visitava escritores e cientistas. Hoje, chefes de Estado brasileiros e argentinos criam factoides visitando presos. Javier Milei queria lustrar a sua passagem pelo Brasil visitando Jair Bolsonaro. O ministro Alexandre de Moraes proibiu o encontro, e ele o chamou de “lixo”. O troco veio do ministro da Fazenda, Dario Durigan:

— Palhaço.

É a praga da diplomacia carcerária. Visitando o preso, alfineta-se o governo e baixa-se o nível da relação entre os dois países. Quem prende é o Judiciário e quem sofre a malcriação é o Executivo.

Visitar político preso é uma interferência deliberada e indevida na política interna do outro país, seja Fernández visitando Lula, seja Lula visitando Cristina Kirchner. A diplomacia carcerária envenena as relações entre os países. Era isso que Milei queria e, de certa maneira, conseguiu.

Milei não gosta de Lula, assim como os generais da ditadura brasileira não gostavam do caudilho argentino Juan Perón (1895-1974). Chegaram a impedir que regressasse à Argentina em 1964.

O Itamaraty administra com grande competência as relações com a Argentina. Nos anos 1970, atravessou a crise de Itaipu sem maiores sobressaltos. Os argentinos não queriam a hidrelétrica, e o general Alejandro Lanusse fez uma suave malcriação durante sua visita ao Brasil em 1972. Dez anos depois, quando o general Leopoldo Galtieri invadiu as Malvinas, o chanceler Saraiva Guerreiro tirou as meias sem tirar os sapatos e não ofendeu os argentinos.

As ditaduras dos dois países lubrificavam suas simpatias sequestrando cidadãos e entregando-os às tigradas que mandavam dos dois lados da fronteira.

Com um século de dificuldades, presidentes argentinos têm um fraco por bodes expiatórios, seja Itaipu, sejam as Malvinas. Milei escolheu Lula. Seu insulto a Moraes foi o último recurso de quem queria criar um caso. Anunciou que vinha para a convenção de Flávio Bolsonaro, e ninguém lhe deu atenção. A visita ao ex-presidente preso (troco à visita de Lula a Cristina Kirchner) seria a última oportunidade para conseguir holofotes. Negada. Restava-lhe insultar Moraes numa catilinária contra Lula.

Quando o governo argentino estranhou o brasileiro, seja com Itaipu, seja com tarifas, estavam em questão fatos concretos. Alavancado pela diplomacia carcerária, Milei conseguiu fabricar uma crise a partir de coisa nenhuma. Chegou a associar a ação de Brasília à derrota da seleção argentina para a espanhola.

Este é o sonho de todos os governantes: atribuir a um governo uma derrota dentro das quatro linhas de um campo de futebol. Para ficar no estilo de Milei, Carlo Ancelotti poderia culpar a Argentina pela derrota diante da Noruega.

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