segunda-feira, 20 de julho de 2026

Economia será decisiva para eleições, diz José Guimarães, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Ministro atribui melhora de Lula a novos programas do governo, vê Palácio ‘sem crises’ e minimiza tensão com o Senado

O ministro da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), José Guimarães, disse ao Valor que as últimas pesquisas eleitorais o convenceram de que a economia terá um peso decisivo na disputa pelo Palácio do Planalto. Ele atribuiu a melhora na aprovação do governo a programas com impacto no bolso do eleitor, como o Desenrola.

Responsável pela articulação política, ele vê mais integração entre o time de ministros que dialoga com o Congresso e classifica a aprovação na Câmara dos Deputados da proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6x1 como a principal vitória de sua gestão na pasta. A matéria, no entanto, não avançou no Senado, onde o Executivo ainda enfrenta um clima de tensão desde o afastamento entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).

A mais recente rodada da pesquisa Genial/Quaest, divulgada na quarta-feira (15), mostrou que a aprovação (48%) do governo Lula superou numericamente a desaprovação (47%) pela primeira vez, desde dezembro de 2024. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Para o ministro, esse resultado é consequência da melhora na economia.

“Eu estava achando que a economia não iria decidir a eleição, mas, agora, acho que voltou a ter muito peso”, afirmou, em entrevista exclusiva. “O que está dando sustentabilidade à melhora na avaliação do governo é o novo Desenrola, o aumento da isenção do Imposto de Renda. A economia está fazendo a diferença.”

Mesmo com o desfecho da votação da PEC da 6x1 pendente no Senado, Guimarães avalia que os brasileiros assimilaram a ideia de que o governo atuou para que o projeto avançasse no Congresso. “Essa é para mim uma das principais marcas, e que servirá de debate na campanha eleitoral”, afirmou.

O governo Lula adotou nos últimos meses a estratégia de lançar um “pacote de bondades”. Como mostrou recentemente o Valor, cálculos do economista Marcos Mendes, pesquisador associado ao Insper, mostram que o Planalto liberou ao menos R$ 216 bilhões em benefícios. Desse montante, cerca de R$ 118 bilhões são medidas financeiras ou extraorçamentárias, que não afetam limites fiscais. O impacto nas contas públicas das ações, no entanto, é acompanhado com cautela por especialistas.

Desse cardápio, Guimarães destaca o Move Brasil, que oferece linhas de crédito com juros reduzidos para motoristas de aplicativos e taxistas, medidas para conter a alta dos combustíveis em razão da guerra no Oriente Médio, e ações para socorrer os exportadores, afetados pelo novo tarifaço imposto pelo presidente americano Donald Trump.

Guimarães também afirmou que “acabaram as crises” após as mudanças no Palácio do Planalto e que melhorou a interlocução com o Congresso, atribuição de sua pasta, por causa da “sintonia” entre ele, e os ministros Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento). “Esse triunvirato tem dado muita legitimidade ao diálogo com as duas Casas. Nada é feito na relação com o Congresso se os três ministros não estão juntos”, garantiu.

Hoje aqui [no Palácio] temos paz e tranquilidade, não tem disputa entre os ministros”

O ministro admitiu que na formação anterior, com Rui Costa na Casa Civil, Gleisi Hoffmann na SRI e Fernando Haddad na Fazenda, houve divergências, principalmente no debate sobre a política fiscal e gastos públicos. “Hoje aqui [no Palácio] temos paz e tranquilidade, não tem disputa entre os ministros, a Miriam [Belchior, da Casa Civil], o Dario, o Bruno e eu”.

Questionado se em eventual reeleição de Lula, esses ministros seriam mantidos onde estão, ele respondeu que este “é o modelo que deu certo”.

Guimarães minimizou derrotas do governo no Senado, com a aprovação de pautas-bomba, como o projeto relatado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL), relativo às dívidas com os produtores rurais, e a PEC sobre a aposentadoria dos agentes comunitários de saúde.

Nesse ponto, salientou que ele e Durigan, com a ajuda do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), construíram um novo acordo com o setor, que incluiu a participação da frente parlamentar do agronegócio (FPA), viabilizando um formato de renegociação de R$ 100 bilhões em dívidas dos produtores rurais palatável ao governo, convertido na recente medida provisória (MP).

Em paralelo, o ministro argumentou que Davi Alcolumbre, numa sinalização de diálogo, concordou em adiar para depois da eleição a promulgação da PEC com as novas regras da aposentadoria dos agentes de saúde, que resulta em rombo de R$ 28 bilhões nos próximos dez anos. O ministro acrescentou que, embora o presidente do Senado tenha levado essa matéria à votação, deixou de fora da pauta pelo menos mais 12 propostas de revisão de pisos salariais com impacto igualmente bilionário.

Embora Lula e Alcolumbre ainda estejam afastados desde a crise com a indicação de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), Guimarães também destacou o gesto do parlamentar de pautar, no último dia antes do vencimento, a MP sobre as novas regras do frete dos caminhoneiros. “Foi uma construção que a liderança do governo fez, a nova líder Teresa Leitão (PT-PE), e outros senadores”, observou.

Questionado se a crise que afastou o ex-líder Jaques Wagner (PT-BA) contaminou o governo e a campanha de Lula à reeleição, como identificou a Quaest, o ministro argumentou que as denúncias relativas ao Banco Master não podem ser associadas a Lula. O senador foi alvo, em junho, da 9ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal (PF) para investigar as suspeitas de fraudes no Master. Ele nega irregularidades.

“O Master é obra da família Bolsonaro, e isso está consolidado na opinião pública”, ressaltou. “O Wagner vai esclarecer o episódio específico sobre ele, que não poderá ser atribuído ao governo Lula. E espero que ele tenha o direito à ampla defesa”, completou.

Questionado se o PT iria incorrer em erros anteriores de subir no salto e cantar vitória antes da conclusão do pleito, em razão da melhora no cenário para Lula, Guimarães rechaçou. “Ainda temos que botar a campanha na rua, criar um comando forte de apoio aos palanques estaduais, apresentarmos o nosso legado e falarmos do futuro”, alertou o ministro.

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