segunda-feira, 20 de julho de 2026

Tarifaço amplia crise em pré-campanha de Flávio, por Beatriz Roscoe e Gabriela Guido

Valor Econômico

Parte do entorno do senador avalia que episódios impediram avanço de agenda positiva; time tenta emplacar pauta de propostas, como plano para mulheres

O anúncio do tarifaço dos Estados Unidos na semana passada aprofundou o diagnóstico que já vinha sendo feito por aliados e interlocutores do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ): a pré-campanha ao Palácio do Planalto acumula crises e erros desde o lançamento, em dezembro de 2025. A avaliação é que sucessivos erros políticos, falhas de comunicação, dificuldades de articulação e conflitos internos impediram que a pré-campanha conseguisse emplacar uma agenda positiva.

Para essas fontes, a decisão de Flávio de acionar o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) e viajar a Washington para tentar convencer autoridades americanas a reverter a taxa de 25% sobre produtos brasileiros ampliou o desgaste e desviou novamente o foco das propostas que vêm sendo anunciadas por ele.

Pesquisa Genial/Quaest divulgada na semana passada registra o desgaste, ao mostrar ampliação da vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) perante o senador. Em segundo turno, o petista ganharia de Flávio por 8 pontos - 45% contra 37%. A aprovação do governo superou a desaprovação pela primeira vez desde 2024.

O primeiro ruído ocorreu ainda no lançamento da pré-candidatura. A decisão de anunciar Flávio como escolhido da família Bolsonaro surpreendeu dirigentes de partidos que vinham negociando a construção da chapa, como o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, o presidente do PP, senador Ciro Nogueira, e o presidente do União Brasil, Antonio Rueda.

Segundo aliados de Flávio, o fato de os dirigentes não terem sido comunicados antes do anúncio gerou desconforto e dificultou, desde o início, a construção de uma coalizão mais ampla de centro-direita. Até o momento, não há definição de apoio desses partidos, mas integrantes das siglas afirmam que devem se manter neutros na disputa à Presidência.

Outro episódio que provocou desgaste foi a revelação de que Flávio havia solicitado recursos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Integrantes da pré-campanha afirmam que o senador não comunicou previamente sua equipe sobre a existência de indícios da relação com o empresário, o que fez a campanha a reagir em meio à repercussão negativa e traçar estratégias após o caso vir à tona.

Além disso, integrantes da equipe de comunicação afirmaram que há estratégia para o caso de novas informações comprometedoras virem à tona. Em uma reunião com parlamentares e pré-candidatos do PL, menos de uma semana após a revelação feita pelo site Intercept Brasil, o senador afirmou não haver mais qualquer nova informação que poderá vir à tona sobre a relação direta dele com Vorcaro. Mesmo assim, esses aliados temem que suas próprias candidaturas sejam futuramente afetadas por novas revelações sobre o caso Master.

Nos bastidores, também há críticas à condução política do senador em relação às principais lideranças do campo bolsonarista. Aliados afirmam que Flávio não fez os acenos necessários ou buscou integrar nomes considerados fundamentais para ampliar sua base eleitoral, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).

A leitura é que ele deveria ter procurado esses aliados, feito gestos de aproximação para incorporá-los à pré-campanha, além de negociar espaços ou indicações em possível futuro governo. Na avaliação de interlocutores, em vez de construir um ambiente de protagonismo compartilhado, adotou uma postura vista como centralizadora e passou a cobrar demonstrações públicas de lealdade.

Senador deve divulgar plano de governo a partir de 1º de agosto em doses ‘homeopáticas’

A organização da pré-campanha também é alvo de críticas. Integrantes do partido e pessoas próximas ao senador descrevem a estrutura como “uma bagunça” e “desorganizada”. Há reclamações sobre falta de interlocutores, dificuldade de coordenação entre equipes e demora na tomada de decisões. Apesar das críticas, aliados divergem sobre a atuação do senador Rogério Marinho (PL-RN), responsável pela coordenação da pré-campanha. Enquanto parte dos interlocutores atribui a ele excesso de centralização das decisões, outro grupo considera que Marinho é o responsável por manter algum grau de organização e articulação política.

A comunicação é outro ponto frequentemente citado como problema. Integrantes do PL avaliam que a pré-campanha demorou a reagir em momentos decisivos, especialmente quando vieram à tona denúncias envolvendo o filme Dark Horse. Além da lentidão nas respostas públicas, aliados criticam as sucessivas mudanças na equipe de comunicação, que teriam comprometido a construção de uma estratégia consistente e dificultado a definição de um discurso capaz de enfrentar as crises.

Uma dessas figuras, Michelle, abriu nova ferida ao divulgar, em junho, vídeos criticando Flávio e dizendo que nunca havia sido chamada para contribuir com a pré-campanha. Aliadas do senador dizem que ele demorou para responder aos ataques que a ex-primeira-dama e a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) receberam de integrantes do bolsonarismo e, principalmente, do influenciador Paulo Figueiredo. O pré-candidato rebateu falas de Figueiredo somente após ser cobrado em um encontro com mulheres que devem se candidatar pelo PL.

Embora Flávio tenha buscado apresentar a viagem a Washington como uma tentativa de defender interesses econômicos brasileiros, aliados avaliam que a estratégia produziu o efeito contrário. Para esses interlocutores, o senador acabou sendo associado ao desgaste provocado pelas tarifas e permitiu que Lula explorasse politicamente a crise, enquanto a agenda dele voltou a ser dominada por uma pauta negativa.

Outra atitude alvo de críticas foi a divulgação da carta de Jair Bolsonaro, que levou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a suspender as visitas de Flávio ao pai por 90 dias. Conselheiros de Flávio, auxiliares e aliados viram erro no episódio e citam consequências jurídicas. Essas fontes acreditam que Flávio não precisava fazer tal movimento para se reafirmar como o porta-voz do pai. “Se tem que escrever uma carta para dizer que é o porta-voz do pai e atestar isso, é porque não está sendo respeitado dessa forma pelos pares”, resume uma fonte próxima à família Bolsonaro.

Nos últimos dias, a divulgação de uma foto de Flávio com Luiz Philipi Mourão, o “Sicário”, que fazia parte da milícia de Vorcaro, voltou a desgastar o senador, que havia dito meses antes não existir qualquer outro fato, além do “Dark Horse”, que o atrelasse ao ex-banqueiro. A multiplicidade de versões dadas pelo pré-candidato sobre essa imagem também chamou atenção. Ele chegou a negar conhecer o Sicário e, até, a afirmar que a foto seria manipulada ou feita por inteligência artificial.

O diagnóstico compartilhado por parte do entorno do pré-candidato, portanto, é que, desde dezembro, a campanha ainda não conseguiu retomar a iniciativa política nem deslocar o debate para propostas e temas programáticos.

Valor procurou Flávio por meio de sua assessoria e o coordenador da campanha dele, senador Rogério Marinho (PL-RN), mas nenhum dos dois se manifestou. Nos bastidores, integrantes da pré-campanha discordam das avaliações e afirmam que elas não refletem o clima interno. A leitura é que as críticas têm vindo de quem “ficou de fora” ou foi “escanteado” e que essas falas estariam cercadas de “ressentimento”. Na visão desses integrantes ouvidos pelo Valor, a sensação é de que os times estão bem divididos e articulados, e Flávio é uma pessoa que ouve todos, tem propostas e está consolidado.

Após as crises, a coordenação da pré-campanha agora tenta mudar o arco. Na quinta-feira (16), Flávio apresentou Plano Brasil Por Elas, ao lado de Daniella Marques, cotada para a vice-presidência da República. O objetivo é se aproximar do eleitorado feminino. A ideia é divulgar o plano de governo no dia 1º de agosto e até lá soltar propostas em “doses homeopáticas”, para não esgotá-las. Uma avaliação é que pautas positivas foram ofuscadas. O anúncio das políticas para mulheres, por exemplo, foi feito em um dia em que o noticiário estava concentrado no tarifaço.

 

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