Valor Econômico
Parte do entorno do senador avalia que episódios impediram avanço de agenda positiva; time tenta emplacar pauta de propostas, como plano para mulheres
O anúncio do tarifaço dos Estados Unidos na
semana passada aprofundou o diagnóstico que já vinha sendo feito por aliados e
interlocutores do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ): a pré-campanha ao Palácio
do Planalto acumula crises e erros desde o lançamento, em dezembro de 2025. A
avaliação é que sucessivos erros políticos, falhas de comunicação, dificuldades
de articulação e conflitos internos impediram que a pré-campanha conseguisse
emplacar uma agenda positiva.
Para essas fontes, a decisão de Flávio de acionar o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) e viajar a Washington para tentar convencer autoridades americanas a reverter a taxa de 25% sobre produtos brasileiros ampliou o desgaste e desviou novamente o foco das propostas que vêm sendo anunciadas por ele.
Pesquisa Genial/Quaest divulgada na semana
passada registra o desgaste, ao mostrar ampliação da vantagem do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) perante o senador. Em segundo turno, o petista
ganharia de Flávio por 8 pontos - 45% contra 37%. A aprovação do governo
superou a desaprovação pela primeira vez desde 2024.
O primeiro ruído ocorreu ainda no lançamento
da pré-candidatura. A decisão de anunciar Flávio como escolhido da família
Bolsonaro surpreendeu dirigentes de partidos que vinham negociando a construção
da chapa, como o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, o presidente do
PP, senador Ciro Nogueira, e o presidente do União Brasil, Antonio Rueda.
Segundo aliados de Flávio, o fato de os
dirigentes não terem sido comunicados antes do anúncio gerou desconforto e
dificultou, desde o início, a construção de uma coalizão mais ampla de
centro-direita. Até o momento, não há definição de apoio desses partidos, mas
integrantes das siglas afirmam que devem se manter neutros na disputa à
Presidência.
Outro episódio que provocou desgaste foi a
revelação de que Flávio havia solicitado recursos ao ex-banqueiro Daniel
Vorcaro. Integrantes da pré-campanha afirmam que o senador não comunicou
previamente sua equipe sobre a existência de indícios da relação com o
empresário, o que fez a campanha a reagir em meio à repercussão negativa e
traçar estratégias após o caso vir à tona.
Além disso, integrantes da equipe de
comunicação afirmaram que há estratégia para o caso de novas informações
comprometedoras virem à tona. Em uma reunião com parlamentares e pré-candidatos
do PL, menos de uma semana após a revelação feita pelo site Intercept Brasil, o
senador afirmou não haver mais qualquer nova informação que poderá vir à tona
sobre a relação direta dele com Vorcaro. Mesmo assim, esses aliados temem que
suas próprias candidaturas sejam futuramente afetadas por novas revelações
sobre o caso Master.
Nos bastidores, também há críticas à condução
política do senador em relação às principais lideranças do campo bolsonarista.
Aliados afirmam que Flávio não fez os acenos necessários ou buscou integrar
nomes considerados fundamentais para ampliar sua base eleitoral, como o
governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), a ex-primeira-dama
Michelle Bolsonaro (PL) e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).
A leitura é que ele deveria ter procurado
esses aliados, feito gestos de aproximação para incorporá-los à pré-campanha,
além de negociar espaços ou indicações em possível futuro governo. Na avaliação
de interlocutores, em vez de construir um ambiente de protagonismo
compartilhado, adotou uma postura vista como centralizadora e passou a cobrar
demonstrações públicas de lealdade.
Senador deve divulgar plano de governo a
partir de 1º de agosto em doses ‘homeopáticas’
A organização da pré-campanha também é alvo
de críticas. Integrantes do partido e pessoas próximas ao senador descrevem a
estrutura como “uma bagunça” e “desorganizada”. Há reclamações sobre falta de
interlocutores, dificuldade de coordenação entre equipes e demora na tomada de
decisões. Apesar das críticas, aliados divergem sobre a atuação do senador
Rogério Marinho (PL-RN), responsável pela coordenação da pré-campanha. Enquanto
parte dos interlocutores atribui a ele excesso de centralização das decisões,
outro grupo considera que Marinho é o responsável por manter algum grau de
organização e articulação política.
A comunicação é outro ponto frequentemente
citado como problema. Integrantes do PL avaliam que a pré-campanha demorou a reagir
em momentos decisivos, especialmente quando vieram à tona denúncias envolvendo
o filme Dark Horse. Além da lentidão nas respostas públicas, aliados criticam
as sucessivas mudanças na equipe de comunicação, que teriam comprometido a
construção de uma estratégia consistente e dificultado a definição de um
discurso capaz de enfrentar as crises.
Uma dessas figuras, Michelle, abriu nova
ferida ao divulgar, em junho, vídeos criticando Flávio e dizendo que nunca
havia sido chamada para contribuir com a pré-campanha. Aliadas do senador dizem
que ele demorou para responder aos ataques que a ex-primeira-dama e a senadora
Damares Alves (Republicanos-DF) receberam de integrantes do bolsonarismo e,
principalmente, do influenciador Paulo Figueiredo. O pré-candidato rebateu
falas de Figueiredo somente após ser cobrado em um encontro com mulheres que
devem se candidatar pelo PL.
Embora Flávio tenha buscado apresentar a
viagem a Washington como uma tentativa de defender interesses econômicos
brasileiros, aliados avaliam que a estratégia produziu o efeito contrário. Para
esses interlocutores, o senador acabou sendo associado ao desgaste provocado
pelas tarifas e permitiu que Lula explorasse politicamente a crise, enquanto a
agenda dele voltou a ser dominada por uma pauta negativa.
Outra atitude alvo de críticas foi a
divulgação da carta de Jair Bolsonaro, que levou o ministro Alexandre de
Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a suspender as visitas de Flávio ao
pai por 90 dias. Conselheiros de Flávio, auxiliares e aliados viram erro no
episódio e citam consequências jurídicas. Essas fontes acreditam que Flávio não
precisava fazer tal movimento para se reafirmar como o porta-voz do pai. “Se
tem que escrever uma carta para dizer que é o porta-voz do pai e atestar isso,
é porque não está sendo respeitado dessa forma pelos pares”, resume uma fonte
próxima à família Bolsonaro.
Nos últimos dias, a divulgação de uma foto de
Flávio com Luiz Philipi Mourão, o “Sicário”, que fazia parte da milícia de
Vorcaro, voltou a desgastar o senador, que havia dito meses antes não existir
qualquer outro fato, além do “Dark Horse”, que o atrelasse ao ex-banqueiro. A
multiplicidade de versões dadas pelo pré-candidato sobre essa imagem também
chamou atenção. Ele chegou a negar conhecer o Sicário e, até, a afirmar que a
foto seria manipulada ou feita por inteligência artificial.
O diagnóstico compartilhado por parte do
entorno do pré-candidato, portanto, é que, desde dezembro, a campanha ainda não
conseguiu retomar a iniciativa política nem deslocar o debate para propostas e
temas programáticos.
O Valor procurou
Flávio por meio de sua assessoria e o coordenador da campanha dele, senador
Rogério Marinho (PL-RN), mas nenhum dos dois se manifestou. Nos bastidores,
integrantes da pré-campanha discordam das avaliações e afirmam que elas não
refletem o clima interno. A leitura é que as críticas têm vindo de quem “ficou
de fora” ou foi “escanteado” e que essas falas estariam cercadas de
“ressentimento”. Na visão desses integrantes ouvidos pelo Valor, a sensação é de que os
times estão bem divididos e articulados, e Flávio é uma pessoa que ouve todos,
tem propostas e está consolidado.
Após as crises, a coordenação da pré-campanha
agora tenta mudar o arco. Na quinta-feira (16), Flávio apresentou Plano Brasil
Por Elas, ao lado de Daniella Marques, cotada para a vice-presidência da
República. O objetivo é se aproximar do eleitorado feminino. A ideia é divulgar
o plano de governo no dia 1º de agosto e até lá soltar propostas em “doses
homeopáticas”, para não esgotá-las. Uma avaliação é que pautas positivas foram
ofuscadas. O anúncio das políticas para mulheres, por exemplo, foi feito em um
dia em que o noticiário estava concentrado no tarifaço.

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