terça-feira, 21 de julho de 2026

Estilo antigo separa Kassab e Valdemar, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Presidente do PL deu-se mal ao generalizar a ingerência de dirigentes partidários nas emendas

Ficará falando sozinho se os demais colegas negarem a prática, como fez o presidente do PSD

No segundo dos dez dias dados pelo ministro Flávio Dino para que presidentes de partidos digam se interferem, ou não, na destinação de emendas parlamentaresGilberto Kassab (PSD) foi logo negando a prática.

Apressou-se em puxar uma fila que provavelmente será seguida pelos demais dirigentes. Deixarão Valdemar Costa Neto (PL) pendurado na escada em que subiu ao tentar, numa entrevista à GloboNews, normalizar a usurpação das direções partidárias de atribuições exclusivas dos donos de mandato legislativo.

Os colegas, por menos precisos que sejam, negarão as interferências pela urgência de aparecerem bonitos na fotografia da incansável cobrança do ministro Flávio Dino por um mínimo de respeito à Constituição.

Não se pode negar expertise a Kassab nem a Valdemar. O termo "raposa" se aplica a ambos. Mas há uma diferença temporal; ou geracional, como se diz agora. Kassab é mais contemporâneo, compreende as exigências atuais. Já Valdemar ainda está apoiado em justificativas obsoletas, hoje inaceitáveis.

Considerando que a ingenuidade não faz parte de seu rol de características, o presidente do PL foi no mínimo imprevidente e completamente arcaico ao admitir aos entrevistadores não só que interfere na indicação das emendas como considera que isso esteja no seu cardápio de atribuições.

Os jornalistas deram corda, e Valdemar se enrolou nela desconectado de dois pontos: um, a mudança dos ventos na opinião pública; outro, a ausência de percepção de que Flávio Dino estenderia aos administradores da legenda sua ofensiva por transparência no uso das emendas.

O presidente do PL desconsiderou os efeitos deletérios da ampliação de certos vícios na política; Kassab os reconhece e atua contra eles para se cacifar junto à opinião do público. É o pragmatismo adaptado aos novos tempos.

Enquanto um se faz dono do partido por direito de criação e põe a massa para se expandir, o outro nasce velho como herdeiro ganancioso da massa bolsonarista antes que se dê por falida.

 

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