terça-feira, 21 de julho de 2026

Administrando os casuísmos, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Decisão do STF de ir mantendo desembargador à frente do governo fluminense é a melhor para o Rio

O problema é que ela atropela a ordem sucessória prevista na Constituição estadual e na federal

Tá tudo dominado. É pequena a chance de a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) tomar boas decisões. Seria uma temeridade colocar o novo presidente da Casa, que também é candidato a governador, para comandar interinamente o estado após a crise de múltiplas vacâncias.

É provavelmente com base nessas verdades autoevidentes que o STF vem mantendo o presidente do TJ fluminense, desembargador Ricardo Coutoà frente do Palácio Guanabara, em vez do deputado estadual Douglas Ruas. Vale ainda ressaltar que Couto está fazendo um bom trabalho como administrador provisório.

Não tenho dúvida de que a solução encontrada pelo STF é a melhor para o Rio. Se fosse a única decisão que a corte tivesse de tomar —a interação única da teoria dos jogos—, eu não teria reparos. O problema é que o STF tem uma pauta quase infinita, o que o lança no campo dos jogos de interações repetidas.

E, para manter Couto e não Ruas à frente do Guanabara, os ministros estão passando por cima da ordem sucessória determinada pela Constituição do Rio de Janeiro, que reproduz quase que literalmente a Constituição Federal. Pior, há precedentes do próprio STF determinando que essa ordem é obrigatória. Estados que tentaram inventar coisas diferentes aí foram impedidos de fazê-lo.

Para um observador externo, é quase impossível olhar para essa situação e não concluir que os ministros, em vez de aplicar a lei e ver qual resultado político ela produz, estão tomando uma decisão política e reinterpretando a lei de modo a sustentá-la. Se a corte recorresse a esse expediente só muito excepcionalmente, não haveria maiores prejuízos. As fronteiras entre julgar e legislar são às vezes nebulosas. Mas o STF tem tomado decisões que podem ser lidas como politicamente motivadas com tanta frequência que o Judiciário vai deixando de ser percebido como um Poder mais técnico do que político. Os danos reputacionais são cumulativos e difíceis de reparar.

No mínimo, o STF precisa administrar melhor sua agenda de casuísmos.

 

 

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